Suicidados

Entraram e pediram para os levar ao aeroporto.

-Já está!
-Acreditam todos nessa treta do suicídio.
-Até já querem sempre pelo menos dois lá dentro.
-Deixa só até começarmos a vender as soluções 100% automáticas que dispensam pessoal.
-Ah ah ah
-Eh eh eh
-Bem feito!
-Bem pensado, mas temos de deixar passar um pouco de tempo… Até os custos serem um suplício.

Largei-os.
De que estariam eles a falar?

A lista VIP

Apanhei o Paulo no Cais do Sodré a sair de um bar de marinheiros. Ainda vinha a apertar as calças quando entrou no táxi.

“Para São Bento”, avançou secamente, assim que meteu a cabeça no interior da viatura. E lá fomos, em silêncio, para S. Bento, enquanto o meu cliente limpava, com um lenço de seda bordado, a nhanha que lhe escorria pela cara. Mandou-me contornar a Assembleia e parar à frente do portão das traseiras.

Da escuridão, saiu um indivíduo – daqueles que está todos os dias nos jornais – que parecia esperar, ansiosamente, a nossa chegada.

“Entra, Pedro”, convidou o Paulo cordialmente, já com a cara limpa, mas o cheiro continuava lá. Arranquei e a conversa continuou.

“Então? Também fizeste uma lista VIP?”, perguntou-lhe o Pedro. “Isto assim fica fora do controlo. Com a minha e a tua já são seis ou sete listas: já lhes perdi a conta.” Franziu a cara e perguntou: “Que cheiro é este? O que é que andaste a beber?”

“Não interessa”, atalhou, “tenho que esconder o negócio dos submarinos. Todos os dias pesquisam os meus dados e ainda descobrem qualquer coisa.”

“Já somos dois, ou melhor, seis ou sete. Vou fazer uma lista única e tentar manter isto escondido de olhares alheios.”

“Sr. taxista, deixe-me aí à frente na paragem de metro.”

O Pedro saiu e fui deixar o Paulo à porta do bar de marinheiros, onde foi recebido com beijos e apalpões. Vou pedir tansferência para o turno da manhã.

Genève

Maio de 2005
Conheci o Zé num dia em que ele entrou no meu táxi e o dia nunca mais acabou.
“Leva-me ao Marquês”, disse-me o Zé. E eu lá fui.
“Entra, Salgado. Estamos entre amigos”, disse o Zé a um amigo de cabelo grisalho que o esperava na rotunda.
“Então, Zé… Porreiro, pá? Ah ah ah… Trouxe a manteiga”, disse o Salgado.
“Eu não sou a Maria Schneider”, atalhou o Zé.
“Ah ah ah”, retorquiu o Salgado, “estou-me a referir aos 20 milhões que tenho aqui na mala, para te untar as mãos.”
“Ahhhh… E o que é que eu faço com isso? E o que é que queres em troca?”
“De ti, quero só que agilizes uns negócios. Quanto à manteiga, leva-a para a Suiça antes que derreta.”
E o Salgado saiu no Cais do Sodré, para ir visitar umas putas que tinha a render…
“Ó taxista, pé na tábua e vamos até Genève. Sabes o caminho, ou queres que te explique?”, avançou o Zé.
E lá fui para Genève, àquela hora da noite, depositar a manteiga do Zé no frigorífico…

Emigrado

O Zé, meu amigo de longa data, ligou-me ontem à noite.

“Porreiro, pá? Podes dar um saltinho a Genève, esta noite, e levantar uns trocos que tenho lá no banco?”

“Assim tão em cima da hora?”

“Fui apanhado e preciso desse favorzinho. Podes ficar com 10% para ti. Esconde isso no colchão até isto passar, pá.”

E cá estou em Genève com duas malas cheias… 20 milhões. Alguém tem um colchão grande para esconder metade disto? Dão-se alvíssaras.

Irrevogável

Julho de 2013

“Estou fodido com esta merda”, dizia o cliente enquanto entrava no táxi.
“Para Belém, shôr taxista, para Belém.”
E lá fui para Belém.

“Pare ali à porta do palácio, shôr taxista”, disse o cliente, que me pareceu alguém que aparecia na televisão, mas de quem a maioria dos portugueses não gostava.
Parámos, mas ele não saiu.
“São 20 euros, senhor…”, adiantei eu.
“Coelho”, concluiu o cliente. “Mas não vou sair. Estou à espera de um amigo.”

Nisto, aparece um tipo baixinho, com umas grandes entradas e sempre a sorrir, como se fosse atrasado mental, e abre a porta do táxi.
“Olá Pedro, posso entrar?”
“Entra lá, Paulo.”

Não eram os apóstolos Pedro e Paulo da Bíblia, e aquele palácio cheirava a mofo. Pirei-me dali.

“Então, o que é que disseste ao Aníbal?”, perguntou o Coelho.
“A minha saída é irrevogável”, respondeu o outro.
“Mas ele falou-te dos submarinos?”
“Disse qualquer coisa, mas não apresentou provas, e portanto, demito-me.”
“Tem calma, não te precipites. Vê lá o que é que achas disto.” E o Pedro passou ao Paulo uma pasta com uma foto de um submarino na capa.

“Hummmmm…. Tens estes documentos? Onde é que arranjaste isto?”, retorquiu o Paulo. “Como é que podemos apagar este problema de vez?”

“Voltas atrás com a palavra e eu faço desaparecer estes documentos todos. É como se nunca tivesses tido nada a ver com os submarinos. Como se nunca tivesses recebido uma comissão nas Caimão. Tu e os teus compadres todos. Apagamos tudo.”

“Hummmm… Que grande máfia… Mas enfim. Não me resta outra saída.”

Deixei-os no Lux numa noite de rebaldaria. Gorgeta nem vê-la.

Cumprir o défice

“Entra, Paula, temos aqui uma situação.”
“Olá Nuno. Chega-te para lá e deixa-me sentar. Então o que é?”
“Ó taxista”, virou-se o tal Nuno, mal encarado e de barba mal aparada, para mim, “vá andando às voltas pela cidade que já o mando parar”.
“Ó Paula, é o seguinte. O puto quer cumprir o défice a todo o custo e deu ordens estritas de poupança e contenção. Temos que estender o nosso arranjinho por mais um mês ou dois.”
“Do meu lado é fácil, mesmo que eu quisesse, o Citius nunca iria estar a funcionar antes do fim da legislatura.”
“Ah! Isso são notícias maravilhosas! Eu também não coloco os professores e assim não temos que lhes pagar os salários. Se quiserem recebê-los têm que ir para a Justiça.”
“Professores falidos na Justiça? Ah ah ah ah ah…”, riu a loura a bandeiras despregadas.
“Ah ah ah ah ah ah…”, riram os dois descontroladamente.
“E se forem para os tribunais, para além das taxas que pagam à cabeça, os processos entram, perdem-se no Citius, e nunca mais são despachados”, acrescentou a loura.
“Ah ah ah ah ah ah…”, riram os dois novamente sem controlo.
“Então estamos combinados.”
“Estamos pois.”
“Vamos ao Tavares comemorar a poupança. Paga o défice.”
Deixei-os à porta do restaurante, mas gorjeta nem vê-la.

Formação lava mais branco

Apanhei um antigo governante no Cais do Sodré que me pôs a circular por Lisboa à noite. Tinha estado a comer uns “petiscos” na rua de trás e estava à espera de um telefonema…

Tinha um cabelo grisalho e falava mal inglês, mas não me lembro do nome dele… mas não faz mal.

“Está sim, Ricardo, onde é que te apanho? OK, vou já para lá.” E fomos.

À chegada, o ex-governante abriu a porta e entrou o Ricardo DDT com uma pasta na mão. Cumprimentaram-se e mandaram-me circular, mais uma vez, pelas ruas mais estreitas e escuras que pudesse.

“Tás porreiro, pá”, disse o tal ex-governante, mas o outro atalhou e foi logo direto ao assunto: “No teu tempo é que era bom, ó Zé, agora com o Passos estragaram-me o negócio todo.”

E lá continuaram com a conversa enquanto deambulávamos pelas ruas mais esconsas da capital, por entre meninas e chulos, teenagers, coca e muita cerveja.

“Mas tenho aqui uma bomba”, disse o DDT “que vai fazer cair o puto”. “Tenho aqui os extratos bancários do gajo e os papéis da tal empresa de formação, e também da ONG que lavava dinheiro de Angola”.

“Porreiro, pá! Isso é que vai ser uma festa”, adiantou o ex-governante.

“Pois é. Mas vamos fazer isto com calma. Uma coisa de cada vez. Um tiro por semana até à estocada final. Que dizes?”

“Porreiro, pá. Estou nessa.”

Pararam numa casa de meninas e pagaram-me com fundos tóxicos. Nem uma cerveja?
Estamos sempre a aprender.

Acordo de Alcabideche

Apanhei estes dois tipos – um preto e um branco – lá para os lados de Alcabideche.

“Vou tomar a Crimalheira”, dizia o branco, “tanho que poder sair com os navios de inverno”.

“OK, fica lá com a Crimeilha, mas vamos ter que fazer alarido, fingir umas sanções, para o povo continar a acreditar na democracia”, respondeu o preto.

“Está combinado. Eu contra-sanciono também e daqui a 6 meses assinamos um acordo e volta tudo ao normal.”

“OK, então assina aqui e vamos comemorar para a downtown. Ó taxista, como se chama este sítio?”, perguntou o preto.

“Alcabideche”, shôr cliente.

“Fica Acordo de Alcabideche, assina aí.”

O branco assinou e foram para o Cais do Sodré, para um bar de alterne comemorar…

Ultimatum

Tinham pinta de não ser de cá e lá os levei para o aeroporto.
-Então como é? Sempre vais?
-Tenho de ir para onde sou preciso.
-Mas aquilo não se vai resolver às boas?
-Não, já lhes demos um ultimatum até às três da matina, mas lá
pela meia noite vamos dizer que fomos atacados e TUMBA! neles.
-Assim, sem mais nada?
-Tem que ser. Não podemos perder tempo.
-Então boa sorte.
-Eles é que vão precisar de boa sorte.

Recomenda-se

E então dei-lhe boleia.
Era uma antropóloga autraliana e já andava por cá, a estudar os nativos, fazia mais de um ano.
Palavra puxa palavra e vai daí descaiu-se a dizer que tinha um blog onde escrevia sobre os portugueses.

Recomenda-se.

http://popanth.com/article/ten-things-ive-learned-about-the-portuguese/

IMI

O Vitor mandou-me parar mais à frente para recolher o Sr. Salgado, que saía de um banco qualquer, na esquina mais à frente, do qual não vi o nome. A luz verde entrou pelas janelas do táxi, na escuridão da meia noite, com quase todas as luzes da cidade apagadas pela crise.

– “Boa noite, Sr. Salgado, faça favor, sente-se aqui”, convidou o Vítor.

– Boa noite, homem, ainda bem que veio. Pode seguir, taxista, vá dando umas voltas.

Pus-me a andar pela cidade: Intendente, Parque Eduardo Sétimo, Defensores de Chaves…

– “Ó homem”, avançou o Sr. Salgado, “já pensou no que é que vai fazer no futuro?”

– ???

– “Ponha lá um travão nesse disparate de aumentar o IMI sem cláusula de salvaguarda. Já viu a bomba que me vai rebentar nas mãos no próximo ano quando os clientes não tiverem meios para pagar o imposto?”

– Mas, Sr. Salgado…

– Então e o que é que eu faço com essas casas todas devolvidas ao banco? E com o crédito malparado? Como é que eu pago aos meus credores? Vá com calma. Volte lá atrás com esse disparate. Repito: já tem planos para o futuro? Veja lá no que é que se mete.

– Mas, ó Sr. Salgado…

– Deixe-se lá dessas mordomias de Sr. para aqui e Sr. para ali.

– Mas, ó patrão, eu estou de mãos atadas. Tenho a troika à perna…

– Ó Vítor, quem lhe ata ou desata as mãos sou eu. E deixe a troika comigo, que almoço com eles todas as semanas. Vá lá para casa tratar do meu problema e passe amanhã no banco para tratarmos do seu futuro. Ó taxista, pare aí à frente, que eu fico aqui.

E assim, foi. O Vítor foi para casa tratar dos problemas do Sr. Salgado. O resto já nós sabemos.

Parcerias público privadas

Entou um tal de Fedelho, ou Lebre ou Coelho, no meu táxi. E com ele vinha um senhor respeitável, tão respeitável que até parecia um banqueiro.

Que a tríade queria acabar com as putas público privadas, ou lá o que era… mas o senhor respeitável tirou uma maço de notas roxas do bolso e disse “há mais donde estas vieram”.

Mandaram-me parar em Belém para comer uns pastéis, mas entrou um tipo carrancudo a comer bolo rei e falava enquanto comia… Que aquilo era um bom negócio, que dava 150% ao ano…

Então, mas o povo, perguntou o mais novo, “o povo que se foda”, responderam o sr. respeitável e o bolo rei em uníssono.

“Deixa-me aqui ligar ao meu amigo que está a estudar filosofia na Sorbonne, que já percebes tudo, ó fedelho”, disse o bolo rei.

E lá continuámos às voltas pela cidade enquanto iam entrando mais malfeitores no banco traseiro para convencer o fedelho que as putas público privadas eram uma solução de futuro para uma elite de malfeitores.

Nisto entrou o Relvas, mas foi corrido a pontapé: “Vai estudar Relvas”, gritaram os PPP…

Putas pederastas e paneleiros???

Acho que nunca vou saber o que aquilo significa…

Cumprir ou não cumprir

Entraram-me três gajos no Taxi a falar camone.
Mas eu até entendo camone. O que eles diziam, que era mais ou menos assim, não fazia sentido nenhum:
… então a gente lixa-os a torto e a direito para eles não cumprirem.
Mas estes gajos são tramados, ainda cumprem o acordo.
Pois, mas de tão lixados que vão ficar com o que nós vamos fazer aos bancos deles, vão ter de se revoltar.
Mas aí não cumprem mesmo.
Ora aí está! Aí aproveitamos e lixamo-los ainda mais. Depois compramos tudo ao desbarato.
Olharam para mim, que estava a olhar para eles à espera do destino e um deles disse em Português de camone:
É para o Terreira do Passo, sff.
E calaram-se o resto da viagem.

Primeiro contacto técnico com o FMI

Primeiro contacto técnico do FMI, tal como o colega o contou:

Hotel Tivoli? Daqui, do aeroporto, é um tiro… Então o amigo é o camone que vem mandar nisto? A gente bem precisa. Uma cambada de gatunos, sabe? E não é só estes que caíram agora. É tudo igual, querem é tacho. Tá a ver o que é? Tacho, pilim, dólares. Ainda bem que vossemecê vem cá dizer alto e pára o baile… O nome da ponte? Vasco da Gama. A gente chega ao outro lado, vira à direita, outra ponte, e estamos no hotel. Mas, como eu tava a dizer, isto precisa é de um gajo com pulso. Já tivemos um FMI, sabe? Chamava-se Salazar. Nessa altura não era esta pouca-vergonha, todos a mamar. E havia respeito… Ouvi na rádio que amanhã o amigo já está no Ministério a bombar. Se chega cedo, arrisca-se a não encontrar ninguém. É uma corja que não quer fazer nenhum. Se fosse comigo era tudo prà rua. Gente nova é qu’a gente precisa. O meu filho, por exemplo, não é por ser meu filho, mas ele andou em Relações Internacionais e eu gostava de o encaixar. A si dava-lhe um jeitaço, ele sabe inglês e tudo, passa os dias a ver filmes. A minha mais velha também precisa de emprego, tirou Psicologia, mas vou ser sincero consigo: em Junho ela tem as férias marcadas em Punta Cana, com o namorado. Se me deixar o contacto depois ela fala consigo, ai fala, fala, que sou eu que lhe pago as prestações do carro… Bom, cá estamos. Um tirinho, como lhe disse. O quê, factura? Oh diabo, esgotaram-se-me há bocadinho.