Irrevogável

Julho de 2013

“Estou fodido com esta merda”, dizia o cliente enquanto entrava no táxi.
“Para Belém, shôr taxista, para Belém.”
E lá fui para Belém.

“Pare ali à porta do palácio, shôr taxista”, disse o cliente, que me pareceu alguém que aparecia na televisão, mas de quem a maioria dos portugueses não gostava.
Parámos, mas ele não saiu.
“São 20 euros, senhor…”, adiantei eu.
“Coelho”, concluiu o cliente. “Mas não vou sair. Estou à espera de um amigo.”

Nisto, aparece um tipo baixinho, com umas grandes entradas e sempre a sorrir, como se fosse atrasado mental, e abre a porta do táxi.
“Olá Pedro, posso entrar?”
“Entra lá, Paulo.”

Não eram os apóstolos Pedro e Paulo da Bíblia, e aquele palácio cheirava a mofo. Pirei-me dali.

“Então, o que é que disseste ao Aníbal?”, perguntou o Coelho.
“A minha saída é irrevogável”, respondeu o outro.
“Mas ele falou-te dos submarinos?”
“Disse qualquer coisa, mas não apresentou provas, e portanto, demito-me.”
“Tem calma, não te precipites. Vê lá o que é que achas disto.” E o Pedro passou ao Paulo uma pasta com uma foto de um submarino na capa.

“Hummmmm…. Tens estes documentos? Onde é que arranjaste isto?”, retorquiu o Paulo. “Como é que podemos apagar este problema de vez?”

“Voltas atrás com a palavra e eu faço desaparecer estes documentos todos. É como se nunca tivesses tido nada a ver com os submarinos. Como se nunca tivesses recebido uma comissão nas Caimão. Tu e os teus compadres todos. Apagamos tudo.”

“Hummmm… Que grande máfia… Mas enfim. Não me resta outra saída.”

Deixei-os no Lux numa noite de rebaldaria. Gorgeta nem vê-la.

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