O milagre sueco

O milagre sueco.

Os suecos deixaram os velhos morrer. No Eixo do Mal de 5ª feira passada, a Clara Ferreira Alves foi mais longe e disse mesmo: os suecos mataram os velhos.
Porque se fala tanto da Suécia aqui em Portugal? Porque temos a mesma população e, por isso, somos comparáveis.

No dia de hoje, temos quase o mesmo número de infetados declarados, mas a Suécia tem quase o triplo dos mortos, e apenas 60% do nosso número de testes. Aliás, aparentemente a Suécia não testa: despreocuparam-se; não querem saber do COVID; não controlam o número de recuperados, nem sabem o número de casos ativos; e, consequentemente, serão os números deles fiáveis?

Admitamos que o número de mortos suecos é real, ou seja, que todos os mortos por COVID na Suécia são apenas os 5.918 de hoje. Na Suécia, morrem em média por dia cerca de 5 pessoas, atualmente, depois da grande mortandade dos primeiros meses. O que é que isso significa?
Que os mais fracos foram extreminados na primeira vaga, em casa e nos lares, sem sequer saturarem os serviços de saúde, nem pararem a economia?
Que os que ainda estão vivos são os mais fortes e que, em geral, vão ultrapassar esta crise? Que poucos mais vão morrer? Isso leva-nos a uma percentagem de 0,059% de fatalidades por COVID na população sueca, que poderíamos extrapolar para outras populações – esquecendo diferenças genéticas, culturais, de densidade populacional, climáticas ou de alimentação – nomeadamente para a população portuguesa. Se assim for, quando chegarmos às 6 mil mortes, a curva das baixas começa a aproximar-se da horizontal.

Mas há 14 países com uma taxa maior de mortos que a Suécia, e o maior – tirando o caso particular de São Marino – é o Perú com quase o dobro da percentagem de mortos sobre a população: 0,1%. Mas neste caso, a explicação, se a houver, pode estar nas diferenças culturais ou climáticas.
Vamos ver o que este inverno nos traz.

https://www.worldometers.info/coronavirus/

Algarve em tempos de miséria

No tempo da miséria – quando em Tavira se comia dentro da gaveta; e em Boliqueime, quem parasse para pedir água, levava tareia – nas encostas do barrocal, os homens emigravam para a Argentina. Esperavam meses, em desespero, por uma carta de chamada.

Alguém, na Argentina, tinha que declarar que precisava de tantos homens para trabalhar e que se responsabilizava por eles.
A carta de chamada chegou e os homens do meu sítio avançaram, sem medo.

Uma noite, já com a viagem preparada, subiram para carroça e desceram a encosta para apanhar o comboio das 23h55 em Boliqueime. Eram uns dez ou doze, sentados nas tábuas laterais do veículo de tração híbrida.
Ao fundo da ladeira dos Matos, a estrada apresenta uma inflexão em cotovelo, ainda hoje perigosa para os automóveis: a famigerada curva de Alfontes.

A trupe descia embalada ao longo da ladeira, e a velocidade parecia aumentar com a euforia da expectativa de cruzar o Atlântico. Ao chegar à curva, a inércia da barca era máxima. O animal matraqueava o chão com os cascos, puxando o peso rodopiante do atrelado com o cachaço, mas a carroça resvalou e embarrancou. Todo o conjunto adornou e o júbilo por ali ficou.

Os retirantes começaram a recompor-se, e dois deles foram ajudar a mula, que não tinha culpa nenhuma, a levantar-se.
Um ou dois desistiram, e voltaram a pé para trás. Aquilo tinha sido um mau começo da viagem, pensaram, um mau prenúncio.
Os outros – entre eles o José Debrúzias e o João Rita – saltaram para cima do carro e gritaram: “Vamos embora”.

E, no meio daquela epopeia, um deles acrescentou, a pulmões cheios: “Eu já nem sei falar português!”.

Blade Runner

Eu sabia que não valia a pena.
Preconceito, ou experiência?
É impossível igualar o Philip K. Dick.
É impossível igualar o Ridley Scott.
É impossível igualar o Vangelis.

O problema dos filmes de ficção científica é a secura dos ambientes. O Blade Runner não sofre desse problema, portanto não parece falso. Este está pejado de aridez.
Os planos de câmara são péssimos, o 3D é medíocre
Não há alma, não há magia.

No outro, todos os planos são ricos em conteúdos. Este é de uma aridez insuportável.

Há partes do argumento deste que parecem saídos de um filme de categoria Z. Por exemplo: aquele momento em que os andróides estão a anunciar que vão fazer “a revolução”.
“A revolução”? Por amor de deus. Foi essa banalidade que o Ridley Scott eliminou do filme, quando criou a palavra Replicant, para substituir Andróide.
Banalidade e obra prima vivem em cantos completamente opostos da casa.

Marcelo alinha-se com o PCP

molho de cravos“só ganhamos Abril,
se não facilitarmos,
se não baixarmos a guarda”

– Álvaro Cunhal, 1990
– Carlos Carvalhas, 2000
– Jerónimo de Sousa, 2010
– Marcelo Rebelo de Sousa, 2020

Este coronavírus em tudo mexe, tudo transforma:
ele é empedernidos liberais que correm a pedir intervenções do Estado na economia, ele é defensores da Saúde privada a clamarem por mais meios ao SNS, ele é fundamentalistas religiosos a pedirem aos cientistas uma cura, ele é desesperados anti-vacinas a exigerem-nas.
E, agora, é o conservador Marcelo a juntar-se à Esquerda!

Força, força, companheiro Marcelo, nós seremos a muralha do castelo!

Marcelo, amigo, o Povo está contigo!

As Falls Wichita…

Um dia, no século passado, fui comprar este disco a uma loja cultural do pai da namorada do meu primo.

“Mas isto é um disco importado”, advertiu-me ele, preocupadíssimo comigo, sem saber como dizer que aquilo custava 600 escudos, e não os 250 habituais dos discos portugueses.

Eu sabia ao que ia. Tanto no preço, como na música.

Je vous salue Marie

Bebé abandonado no lixo é cidadão cabo-verdiano, diz Embaixada

“O filho de um cabo-verdiano nascido no estrangeiro é também cidadão cabo-verdiano”, assevera a Embaixada de Cabo Verde, em resposta ao DN. E informa que avó e tios têm “firme propósito de obter guarda do bebé”. (in DN)

O bebé mais desejado do mundo.

Famílias várias quiseram acolhê-lo.
Ofereci-me também, a Maria nem quer vê-lo.
Avós, tios e Cabo Verde em peso,
Reclamam, para si, o pequeno indefeso.

Engravidada pelo Espírito Santo
Foi tratada como lixo
Pariu na rua como um bicho
Largou-o envolto num manto.

Entre burros, vacas e monarcas de lata.
Atada à pira, espera apenas pelo fogo que mata

Je vous salue Marie

Campismo selvagem

Um dia, estava eu numa praia, sentado em cima de umas rochas, a aliviar o meu peso interior.
De repente, lá ao fundo, sobre o areal da maré vazia, começou a formar-se a silhueta de um tipo no horizonte.
Eu estava ali sozinho, e o tipo aproximou-se.
Ficou a falar comigo, durante uns 10 minutos. E eu a pensar: “Mas este tipo é estúpido? Ainda não percebeu que eu estou a cagar? E não lhe cheira?”
A conversa nunca mais acabava. Era um daqueles tipos que falava e olhava para o céu. Um iluminado qualquer, ou um idealista. Sei lá.
Às tantas, fez-se à terra, e percebeu – penso eu – a situação. Calou-se durante algum tempo, e depois pirou-se sem dizer nada.
Limpei o rabo e puxei os calções de banho.

Motorola 68000

Ele entrou e sentou-se atrás do Mac Classic. Tocou uma música, não me lembro qual, e depois virou-se para o Mac e escolheu uma faixa qualquer de acompanhamento, antes de tocar a segunda. Justificou o uso do PC, ante a plateia espantada por tamanha novidade. Eu estava no balcão, e – também espantado – a minha cabeça já elaborava cenários de batota e fraude… Ainda bem que ele se explicou.

Era uma novidade, tudo aquilo. Nem sequer em filmes tinha visto algo assim. Não me lembro do ano, mas era um 68000, portanto foi lá muito para trás no passado. Penso que o T-Rex já estava extinto.

Voltei àquele palco, para ver aquele personagem, e comprar um disco sem capa, em 85, no melhor concerto de sempre a que assisti: a melhor letra, a melhor música, a melhor encenação.

Bebé no contentor

A miúda que largou o bebé no contentor é uma desenquadrada. Não a podemos julgar à luz da nossa lei nem da nossa moral.

Veio de Cabo Verde, sem instrução ou educação cívica, para casa do irmão, que a expulsou.
Foi viver para a rua, sem ter consciência do que é um país, do que são instituições, de que poderia entregar a criança à Misericórdia, por exemplo.

Está no nível mais básico da pirâmide de necessidades de Maslow, e, provavelmente, nunca conheceu outro.

É um bicho, a viver na rua, ou na selva, depende da perspetiva.

Deixem as críticas em casa.

Pézinho bíblico

Em 94, à beira do Mar Salgado, com o sol por detrás de Massada, e a neblina a levantar-se…

Um judeu ortodoxo, numa carrinha de sete lugares sobrecarregada de familiares, ficou atolado nas areias cristalizadas das margens do lago.

Deixei a Maria e o mais velho – na altura com cinco meses – e fui empurrar a carrinha, enquanto o homem, esguio, de tranças e chapéu chato, e preto como a restante roupa, acelerava.

Quando me viu saiu do carro e gritou, numa língua ininteligível, para me afastar, para deixar de ajudar.

Seria da minha pele escura, queimada do sol? Ou não queria ajuda nenhuma? Apenas ajuda divina?
Ignorei-o e obriguei-o a aceitar a minha presença. Entrou no carro e acabou por sair dali.

(fotos, quando tiver tempo para digitalizar todos aqueles rolos de diapositivos)

Avaliação de cursos superiores

A comissão de avaliação chegou. Não a vi, nem vou ver – felizmente -, nem quero. Já vi muitas no passado.

Há as que só querem que chegue a hora do beberete, para avaliarem a qualidade dos comes e bebes.

Há as que já vêm com o relatório final escrito – a aprovar, ou a reprovar -, para poupar tempo.

E, enfim, há as que vêm mesmo fazer o que lhes compete: avaliar o curso. Mas essas pertencem ao passado.