O Fim da Física

Agora que passou a euforia à volta do físico da cadeira de rodas, eis o que me vai na alma sobre a Física e, de uma forma geral, sobre a Ciência.
Quando “Uma Breve História do Tempo” foi publicado, comprei e devorei o livro. Adorava Física e histórias sobre Física, sobre como o Universo foi formado e, em última análise, sobre como nós aparecemos.
Já tinha lido “Um Pouco Mais de Azul” do Hubert Reeves, li depois “O Tao da Física” do Fritjof Capra, e mais tarde o “Caos” do James Gleick.
Todas essas coisas me fascinavam: Matemática, Física, os movimentos do mundo, e outras estranhezas.

Um à parte: sou um provocador e o que disse há umas semanas sobre o Stephen Hawking foram só isso: provocações. Provocações dirigidas a uma horde de anónimos que aleluiou um aleijado resistente, e não um lote de ideias interessantes sobre as origens da nossa presença aqui.

Mas a Física não satisfez a minha curiosidade. E até menos a Física do Stephen Hawking, mas mais a do Fritjof Capra.
As nossas ciências ocidentais são, tradicionalmente, muito analíticas: dividem tudo em partes para poderem analisar e explicar melhor as coisas. Ao contrário, o pensamento oriental é mais sintético: tem uma visão mais global e integrada dos eventos e da realidade.
Veja-se o exemplo da luz. A Física considera a luz, simultaneamente, como uma onda e como uma partícula. É estranho, são duas realidades difíceis de conciliar. Mas é assim que a luz é explicada, porque se comporta como onda e como partícula: duas realidades já conhecidas e classificadas pela Ciência.
Enquanto a Física não conseguir criar um padrão que explique a luz de forma integrada, não vai perceber o mundo, nem vai conseguir satisfazer a minha aspiração de tentar perceber as coisas.

A luz não é uma onda nem uma partícula. A luz é qualquer coisa que nós ainda não percebemos.

Correias da carrinha Space Gear

Na 6ª feira à noite partiu-se a correia do alternador da minha Space Gear. O carro já andava a fazer barulho – a chiar – porque uma correia já se tinha partido. Só agora, a posteriori, é que percebi isso. Para fazer rodar o alternador são precisas duas correias – neste carro – e quando está apenas uma em funcionamento, a inércia do alternador faz a correia chiar.

Entretanto, a correia da direção assistida dilatou e virou-se ao contrário. Nem sei como é que o carro andava.

A única correia aparentemente boa é a do ar condicionado. Mas decidi mudá-las todas.

A correia de transmissão foi mudada há pouco tempo, mas o tipo que a trocou não conseguiu encontrar as restantes no mercado – o que eu agora acho estranho, pois foi só chegar à loja e comprar – e deixou ficar as velhas. Daí, este problema.

Os tensores não têm grandes dificuldades em remover, a não ser o do ar condicionado. Tive que ver alguns vídeos na net@ para acelerar e facilitar o trabalho. Vou deixá-los aqui para referência futura.

Eis o vídeo que eu fiz:

Tenso do ar condicionado num Mitsubishi Galant

Tensores do alternador e da direção assistida num Mitsubishi Pajero

Troca da bomba de água num Mitsubishi Delica L400, com motor semelhante ao meu

Araucaria excelsa

Em Cacilhas há uma árvore enorme, que se vê de todo o lado, inclusive de Lisboa. Fica num quintal de uma casa velha na rua Carvalho Freirinha, logo ali junto aos barcos que vão para a margem norte.


(Araucaria excelsa, foto de Ana Gouveia)

A Ana fotografou a árvore esta tarde e fez-me recordar os tempos em que vivi nessa casa, nesse quintal…

Os galinheiros onde apanhava ovos acabados de pôr, o tanque onde tomava banho de verão, os ratos cinzentos recém nascidos que apanhei pela cauda, o filodendro que dava frutos tropicais, sei lá, tantas recordações dessa casa com nove assoalhadas e chão de madeira, onde se ouviam os passos dos vizinhos de cima, e o ecoar das nossas passadas quando corríamos pelo corredor.

Fiz cigarros na máquina do meu tio-bisavô, furei um dedo de lado a lado na máquina de costura da minha avó, andei pelos telhados vizinhos onde acedia pela janela, a casa de banho gigantesca onde eu e a minha irmã (com três anos) pintámos uns monstros (há uma foto disso, tenho que encontrá-la), a cozinha enorme onde a minha avó cozinhava cola feita de farinha, o quarto escuro, onde ouvi na rádio o decorrer da guerra dos seis dias…

Obrigado, Ana, por me fazeres lembrar isto tudo.

Have a Cigar

Em 81 emprestei um disco a uma miúda gira lá da rua. Eu não era – nem sou – mesmo nada de emprestar coisas, principalmente coisas das quais gostava. Mas era a miúda mais gira da rua, ela pediu-mo, e eu pensei: “ela sabe que eu existo!”. E, pronto, não consegui dizer que não.

O disco veio riscado. Saltava no Have a Cigar. Fiquei tão triste. Alíás, numa mistura de sentimentos extremos: feliz – felicíssimo – por tê-la visto mais uma vez, quando me entregou o disco, por lhe ter dado o prazer de levá-lo e ouvi-lo; mas triste pelo risco. Felizmente, tenho um primo que sabe muito de música e afins, que me ensinou a eliminar o risco com um pincel a forçar a agulha a passar na estria, enquanto tocava. 😀

Uns anos mais tarde casei com a miúda. 😁😁😁

(Moral da história: … não, prefiro não dar conselhos a ninguém.

Wish You Were Here - Pink Floyd

De volta a 73

Voltei a ouvir este solo da Clare Torry – pelo qual lhe pagaram 30 libras em 73 – quatro anos mais tarde, em outubro, no aniversário do meu primo.
“Eu conheço isto”… estive uns minutos a pensar e lembrei-me de onde: do fim do verão de 73, em Almoçageme, quando tentava decorar a letra dos Vinte Anos dos Green Windows. 😀

PS: a Clare Torry conseguiu um acordo com a banda, em 2005, para corrigir o valor, uma vez que era dela a autoria do solo. 😁😁

73

73, o ano em que passei a adorar o José Cid e os 20 anos e também este disco, que o facismo deixou passar.

Foi uma coincidência do caraças. Estive em setembro numa colónia de férias para putos, e os monitores passavam isto durante a sesta da tarde. Foram 15 dias a ouvir uma coisa que só percebi uns anos mais tarde.

Cagada em três atos

ATO I

A Francisca, muito provavelmente pressionada pelo António, que quer desbloquear as relações com Angola – agora aparentemente renovada – e sabendo que um diplomata de outro estado nunca cumprirá pena de prisão em Portugal, mesmo que seja culpado, ameaçou a saída da Joana, com uma leitura artística da Constituição.

Jorge, um constitucionalista incontroverso – meu colega numa escola de Lisboa e que vai a banhos numa praia do norte, como eu de vez em quando – veio refutar a opinião da Francisca, indicando que a Constituição não impõe limites, e, consequentemente, não há limites para a permanência no cargo.

O António calou-se e a Francisca não abriu mais a boca.

Ato II

“Isto não é a da Joana” – é um dito popular muito ouvido. Mas a Joana acha que sim, que é dela. E, vai daí, decidiu fazer-se ouvir e marcar pontos. Escolheu o Mário, que é, aparentemente, o mais frágil e o mais infantil do grupo, e aquele que poderia fazer desmoronar a construção.

O caso mais fácil era um frasco de Nutella que o Mário comprara num hipermercado, e do qual havia imagens de videovigilância. “São 4,99” disse a empregada. O Mário puxou de uma nota de 5 euros e disse “pode ficar com o troco”. A Joana tinha duas hipóteses: acusava-o de suborno de uma empregada do hipermercado, mas faltavam-lhe os benefícios, e, além disso, um cêntimo poderia parecer ridículo, aos olhos da opinião pública; ou então acusava-o de exibicionismo, por dar gorjeta, num clima de tanta precariedade laboral.

O outro caso era mais difícil: os bilhetes do Benfica. O camarote presidencial não tem preço, e isso poderia ser um pau de dois bicos: não tem preço, é “priceless”, ou seja, tem um valor incalculável; ou então, como não se vende, tem preço zero, e era pior ainda que a gorjeta de um cêntimo na compra da Nutella.

Optou por este último, criando algumas sessões de riso por esse mundo fora, quando o objetivo do país é o oposto.

Ato III

O caso chegou, caricatamente ao parlamento europeu, onde o Mário foi defendido, com unhas e dentes, por todo o espetro político português no hemiciclo – bem hajam -, e a Joana, envergonhada, mas saciada de sangue, arquivou o processo.

Não sei o que dizer.

————————-
2918-02-05
O curioso é que ainda ninguém percebeu isto. Ou se percebeu, calou-se. Ontem, no “Eixo do Mal”, um dos participantes – Pedro Marques Lopes – dizia que normalmente o Ministério Público, quando começa uma investigação, informa o Correio da Manhã para que este divulgue ao país. Mas desta vez, segundo ele, foi ao contrário: foi o Correio da Manhã que lançou a dúvida sobre a ida à bola do ministro, e depois o Ministério Público investigou.
Ó Pedro, será que estás a ver bem as coisas? Não terá sido novamente o Ministério Público a pedir ao Correio da Manhã para lançar a primeira bomba?

Não te encontres com amigos da net…

“O meu pai sempre me disse: não te encontres com amigos da net@”, foi o que me respondeu,um dia, um blogger, dos mais antigos do mundo, que vivia num prédio em frente, quando o convidei para beber um copo em Cacilhas.

Aliás, 3 dos 4 bloggers mais antigos de Portugal viviam em Cacilhas (margem sul, a verdadeira Margem Sul), num raio de 50 metros. A outra – uma miúda do outro mundo – era (e é!) portuense (volta a escrever, por favor).

Passados muitos anos, a rede tornou-se mais democrática e as redes de amigos vieram matar os blogs. Mas a questão mantém-se: será seguro conhecer pessoalmente os amigos virtuais?

Bem… o puto que me respondeu com a frase acima que me desculpe, mas é um parvo. Cruzámo-nos várias vezes na rua, eu, ele e a mulher dele (também uma blogger do top 10), que moravam a menos 50 metros de mim, e nunca lhes dirigi a palavra, por respeito à resposta que me deu quando o convidei…

Recentemnte, nas redes que mataram os blogs, conheci gente nova, gente virtual, ou talvez não, e depois? Qual é o mal?

A Andreia encontrei-a, por acaso na Rua das Portas de Santo Antão, depois do concerto surpresa do Prince no Coliseu, onde fui com a minha filha mais velha. Estava sentado numa pizzaria com o Nuno, mais a Maria João, e a Júlia, e vi-a passar para baixo… Quis chamá-la, mas não me lembrei do nome… Que desespero. Ela era igual às fotos que publicava na net@, fotos fantásticas, feitas por uma amiga dela que se foi há pouco, e que captavam a realidade dela tão fidedignamente, que não deixavam dúvidas. Era mesmo a… “Andreia”, gritei, eu. Ela olhou espantada, porque não me conhecia pessoalmente, nem identificava a minha voz, mas eu percebi e completei: “ainda há uns dias falámos na net@ sobre a Segurança Social”. A Andreia sentou-se na nossa mesa e ficámos ali a falar do excelente e surpreendente concerto do Prince. Encontrámo-nos, novamente, mais tarde, por acaso, em Cacilhas, e, uns meses depois, na Ria Formosa. Curioso.

A Fernanda, mãe do pai da irmã de um colega da minha filha mais nova, também é apenas um conhecimento etéreo. Quando fiz 50 anos, quis convidá-la para a festa, mas tive vergonha e não o fiz. Eu iria buscá-la a casa dela, se fosse necessário. É uma escritora excelente, já podia ter publicado os escritos que produz, maioritariamente após a meia-noite… Já a desafiei a ver quem publicava o próximo livro mais cedo: eu ou ela… Mas não sei qual de nós os dois vai perder. Torço para que ganhemos ambos.

A Alexandra é uma mãe carinhosa, e uma ativista furiosa, da minha idade, que nunca encontrei, mas com quem já combinei beber um café quando retomar a minha caminhada de norte a sul de Portugal, que quero terminar na próxima Páscoa. Vou fazer um desvio propositado para cumprir o combinado. Respondi-lhe, uma vez a uma notícia sobre piropos, a pensar que estava a falar com a minha prima Ana, e estive 4 dias a levar tareia de alguém que precisa de bater em alguém… Bem, pelo menos foi isso que eu senti.

A Clara foi e é uma surpresa constante. Mora a 300 km de mim, e já passei lá perto, nas minhas andanças a pé pelo país. Talvez nos cruzemos um dia destes. Mas tenho gostado imenso das histórias que leio, das preocupações, dos desafabos, dos sonhos… e tudo isto de uma genuinidade ímpar, assim o sinto.

Quando voltar a ver o autor da frase lá de cima, vou esbofeteá-lo para me sentir ressarcido do que perdi. E aí ele vai poder dizer: “o meu pai bem me tinha dito que não me devia encontrar com tipos conhecidos na net@”

——————————————–
Referências bibliográficas

Memória física, memória química e memória elétrica

No primeiro ano de engenharia do IST, em 1982, meti na cabeça que haveria de ir estudar antropologia. Lembro-me que ia a subir a Av. da República com o Nuno – do lado esquerdo, de quem sobe – e ele, também em engenharia, estava mais inclinado para sociologia.

Depois da licenciatura, inscrevi-me no mestrado, também em engenharia, talvez por causa da bolsa, e lá adiei mais quatro anos, a somar aos nove da licenciatura e tropa, o meu sonho de pouco-pós-adolescente.

Enfim, depois das obrigações, atirei o barro a três paredes: concorri para a Arthur Andersen, como consultor, e fui aceite; candidatei-me ao doutoramento na Universidade do Minho, para multimédia, e fui aprovado; inscrevi-me na licenciatura em antropologia, na FCSH/UNL, como supra numerário e entrei. Optei pela última opção: era um sonho e um desejo sem limites, não tive escolha.

Na minha primeira aula, já as aulas tinham começado há três semanas (o responsável pelo curso demorou a decidir sobre os supra numerários, porque as vagas eram seis e havia doze inscrições; negociou com o ministério e conseguiu que entrassem todos; bem haja!), estava eu já sentado na sala, entrou o professor Carlos Jesus, com uma grande história – que não vou contar aqui por respeito à privacidade professor-alunos – e, depois, passou para trás da secretária a apresentar a história do Watson e Crick, e do ADN.

“A lula tem apenas um neurónio e está escondida à espera que o tubarão se afaste. Mas o tubarão percebe a presença da lula e aproxima-se dela. De repente, a lula desata a nadar a toda a velocidade para escapar aos dentes do tubarão.” E o professor Carlos Jesus – doutorado por Harvard, e com um aspeto de Rasputine, mais de rasputine que o próprio Rasputine – começa a correr sala abaixo, com os braços no ar e a gritar, como uma lula a fugir de um tubarão… e eu, maravilhado, pensei: estou no curso certo.

Umas aulas mais tarde, o professor Carlos Jesus falou-nos da memória. Distinguiu três tipos de memória: memória física, memória química e memória elétrica.

A memória elétrica é aquela que usamos quando estamos a subir escadas e vemos o degrau, memorizamos a sua posição e colocamos o pé à altura correta. Esquecemos logo de seguida.

A memória química, usamo-la quando estudamos para um teste, decoramos uma quantidade enorme de palha, que descartamos dois ou três dias depois.

A memória física tem este nome porque tem existência na estrutura e configuração da nossa rede neuronal. É onde estão as nossas memórias de infância, as nossas descobertas, as nossas conquistas ou falhanços.

Naquele ano e meio depois do 25 de abril de 1974, a minha cabeça mudou radicalmente – devo ter tido dores de crescimento, mas não me lembro – e os Aguaviva fazem parte dessa mudança.

E o GAC também, claro

Sporting – Setúbal, 71

13 de junho de 1971

O meu pai levou-me ao estádio de Alvalade para ver o Sporting – Setúbal para a Taça de Portugal.

Em minha casa, eram todos do Sporting: o meu pai, a minha mãe, e os meus três irmãos. Bem, os meus irmãos mais novos só tiveram consciência disso talvez uns anos mais tarde, mas eu vivia rodeado de lagartos.

Ou talvez não, pois segundo o meu pai, o meu tio Zeca insistia constantemente comigo para ser do SLB e, ainda segundo o meu pai, quando eu tinha 3 anos – naquela época em que me deitava no chão da cozinha para ver as cuecas riscadas da empregada – eu fui do Benfica.

Mas passou pouco tempo para passar a pensar por mim e tomar partido pelo Setúbal. Até hoje. Mas voltando ao Sporting-Setúbal de 71…

Já não me lembro de grande coisa do jogo, mas recordo-me que, quando o Setúbal marcou um golo, eu levantei-me e bati palmas, de pé, no estádio de Alvalade. À volta estavam todos calados a olhar para mim. Eu tinha 8 anos e o futebol, na altura, era uma atividade decente: não me bateram, mas alguém comentou: “olha um lampião”.

Já na altura o pensamento dos adeptos de futebol era primário e binário. Ou és meu amigo, ou és inimigo; ou és do Sporting, ou és do Benfica.

Eu não percebi o comentário e perguntei ao meu pai: “o que é um lampião?” e o meu pai explicou-me que eles pensavam que eu era benfiquista, que “lampião” era como os sportinguistas apelidavam os benfiquistas… assim como os benfiquistas chamam lagartos aos de Alvalade. 🙂

Zé Pedro

Não, eu não conheci o Zé Pedro; ou talvez sim. Mas deixem-me começar a história.

1975

O Liceu Nacional de Almada não tinha espaço nem condições para os alunos do 1º ano – hoje 7º ano de escolaridade – e conseguiu que o Seminário de Almada lhe emprestasse oito salas. Fui, então, estudar para o Seminário. Foi um ano de imensas greves, muitas duraram uma semana, mas algumas duraram duas semanas e até mais. Lembro-me de bater à porta do Seminário e o porteiro dizer: “não há aulas, volta daqui a uma semana”, ou “volta daqui a duas semanas”.

Tivemos poucas aulas e nem sempre tivemos todos os professores. A professora de francês só deu aulas nas duas últimas semanas. Era uma professora estranha. Sentava-se em cima da mesa – eu nunca tinha visto um professor sentar-se em cima da mesa -, tinha estado na Argélia, era muito dinâmica, baixinha, magra, tinha cabelo curto e preto: uma mulher demasiado avançada para os nossos hábitos de então.

Na minha turma havia uma miúda parecida com uma atriz americana. “Parece a Marylin”, disse eu um dia ao meu pai. E ele perguntou-me: “É loura?”. “Não”, respondi, “parece-se com a Marylin em tudo, menos na cor do cabelo”. Não me lembro do nome dela. Vi-a muitas vezes, depois disso, a passear em Almada com o namorado, hoje marido, o Tim.

Em 1980 fui aprender música para a Incrível – Sociedade Filarmónica Incrível Almadense – por sugestão da minha tia Amália. Depois de passar a famigerada centésima lição de solfejo, escolhi um instrumento para tocar na banda… mas deram-me outro.

“Então, que instrumento é que queres tocar?”, perguntou-me o Sr. João – músico trompetista que era simultaneamente o “capataz” da banda. “Saxofone”, respondi. “Saxofone, saxofone. Toda a gente quer tocar saxofone”, retorquiu ele.

Umas semanas antes, eu tinha dito ao meu pai que queria tocar saxofone. E ele achou um disparate e disse-me que trompete é que era, com trompete é que um músico podia brilhar, como o Louis Armstrong.

“Então pode ser trompete”, anuí eu. Deram-me um fliscorne, que é semelhante ao trompete, mas menos agreste, com um som mais macio.

Uns anos depois, já fora da banda, comprei um saxofone tenor usado. Vi um anúncio no Se7e e fui a Sesimbra buscá-lo; levei um amigo que tocava saxofone na SFIA, que confirmou que estava afinado. Era um instrumento difícil, e acabei por comprar um saxofone soprano, em saldo, em 1987.

Coloquei o tenor à venda, em 1988, também no Se7e, e telefonou-me um tipo. Combinámos encontrar-nos no Rossio. Fui até Cacilhas a pé, e depois, do Terreiro do Paço – onde atracavam os barcos – até ao Rossio, com aquele peso na mão. O tipo chegou e disse-me: “Vamos até ali mais à frente, para um amigo meu me dar uma opinião sobre o saxofone”. Fomos até ao Coliseu – já não podia com aquele peso -, e ao chegarmos, havia imensa gente à porta para entrar para um espetáculo. Entrámos por uma porta lateral, percorremos uns corredores e entrámos no camarim da banda.

Estava lá a banda toda. Reconheci o Tim. O Gui experimentou o saxofone e disse, ao amigo, que estava afinado, mas que era um pouco duro. Depois virou-se para mim: “o IPJ ofereceu-me um Selmer, o Selmer é mais macio, muito mais fácil de tocar”.

Não me lembro se ele me comprou o saxofone. Sei que o vendi. E vendi também o soprano. Comprei um Selmer mais tarde. Realmente é mais fácil de tocar.

Abril de 74

Umas semanas mais tarde, o meu pai voltou definitivamente para casa. Deixou a vida de embarcadiço e foi trabalhar para a Lisnave, como chefe de serviços. Todos os meses viajava para fora, para fazer um orçamento de reparação de um navio que viria a ser reparado mais tarde. No dia 25 de abril de 74, o meu pai chegou à 1h da manhã ao aeroporto, vindo de Londres, de mais um orçamento. De manhã, por volta das 8h, a minha irmã Carolina saiu para a escola, enquanto eu ainda dormitava. Entrávamos os dois à mesma hora na Escola Preparatória Dom António da Costa, mas eu – que construía uma preguiça crescente desde o início do ano – saía de casa só no último momento, para dormir o máximo que podia sem chegar atrasado à escola.

A minha irmã desceu os degraus, do segundo andar onde morávamos e, no primeiro andar, o vizinho Laranjeira abriu a porta e pediu-lhe para chamar o pai. A minha irmã – respondona desde que nasceu – perguntou-lhe porquê. Mas o vizinho Laranjeira – dono de uma espingardaria em Almada – era mais respondão do que ela e obrigou-a a subir.

A minha irmã corrigiu-me, entretanto: “O vizinho Laranjeira disse-me que eu não podia ir à escola porque tinha havido um golpe de estado. Eu, como não fazia a mínima ideia o que era um golpe de estado, refilei com ele a dizer que ia sim. aí, ele insistiu para ir buscar os meus pais, e aí, sim, a história é como tu contas”.

Foi a minha mãe que foi à porta e ouviu a notícia: “houve um golpe de estado, é melhor os seus filhos ficarem em casa”. Recebi a notícia com uma felicidade sem par: podia continuar na cama, não tinha que me levantar. Mas pouco depois, estávamos todos à frente de TV e a ouvir rádio à espera de notícias.

Foram uns dias estranhos: as notícias eram apresentadas por homens com barba e sem gravata. No dia 25 passou música em cima da mira técnica, estámos às escuras, mas sentia-se uma esperança enorme que foi morrendo com o passar dos anos.

No verão quente de 75, o meu pai teve que ir a Copenhaga para mais um orçamento, e pediu-me para ir a Cacilhas buscar um táxi. Não tínhamos telefone – a atribuição de telefones novos esteve bloqueada em Almada durante anos – e toda a comunicação era feita a pé: pelos meus pés.

Era meio dia, e lembro-me que fiz birra, não quis ir. Não me lembro dos motivos. O meu pai ficou chateado comigo, na altura, mas pegou na mala e foi a pé até Cacilhas para apanhar um táxi para o aeroporto. Mais tarde, confessou-me que se sentiu aliviado por eu me ter recusado.

Cacilhas estava tomada pelo COPCON. Havia militares com metralhadoras por todo o lado. O meu pai entrou num táxi, com a mala de viagem, e saiu a caminho de Lisboa. Tinha andado talvez vinte metros quando alguém gritou: “vai ali um a fugir”. Os militares apontaram as metralhadoras e mandaram parar o táxi…

Somos um país de brandos costumes? Ou somos uns tipos sensatos e conscientes? O que eu sei é que não dispararam sobre o meu pai e, depois dele explicar o que ia fazer, deixaram-no ir embora.

Se tivesse sido de outra forma, talvez eu me tivesse tornado jornalista n’O Diabo, e, em vez do Paulo Portas – um puto da minha idade -, teria sido eu o presidente do CDS, ou dum movimento qualquer mais à direita.

Maio de 73

Primeiro de maio de 1973. Saí da escola – a preparatória Dom António da Costa, em Almada – e, do outro lado da estrada, o descampado seco e ocre – onde hoje é o Fórum Romeu Correia -, por entre as poucas papoilas e malmequeres, estava salpicado por folhetos de papel branco, de tamanho A6, com conteúdos subversivos, mas disso eu não me apercebi na altura.

Havia quatro versões diferentes; eu era um colecionador – ainda não me livrei completamente desse hábito – e recolhi-as todas. Já não tenho os folhetos, não vos posso mostrá-los, mas diziam algo do tipo “independência das colónias” ou “libertação das colónias”.

“As colónias são nossas”, pensei eu, na minha ingenuidade de pouco mais de dez anos e meio, num tempo em que a televisão era uma uma atividade artesanal, os automóveis só para os ricos, e nós jogávamos à bola, ao alho, e ao berlinde à vontade, na rua, enquanto as ovelhas pastavam numa calmaria silenciosa, nos montes em frente a casa, logo ali.

Meti os folhetos na mochila, que era uma pasta de cabedal pendurada, com alças, nos ombros, e segui para casa com os meus colegas.

O percurso até casa eram cerca de novecentos metros. Pelo caminho, iam ficando alguns colegas, e o Aníbal, que morava na Rua Comandante António Feio, era o único que me acompanhava, àquela hora antes do almoço, quando se ouviu um estrondo enorme, vindo de Lisboa.

“Foi o meu irmão”, disse ele, “foi pôr uma bomba a Lisboa”. Bombas, folhetos subversivos, eram só novidades para mim. O Aníbal era mais velho que eu um ano, e de uma família com dificuldades. O irmão já tinha sido preso por motívos políticos e nunca lhe vi o pai. Era repetente, e a professora de português – a diretora de turma, Lúcia Farrusco – tinha-me incumbido de lhe dar explicações de matemática, o que eu fazia uma tarde por semana. Morava num prédio velho que já não existe numa rua de Cacilhas, num primeiro andar, cujo acesso era feito por uma escada de pedra exterior e muito estreita.

Um dia, o Aníbal vendeu-me uma caneta de ouro por vinte escudos. Tirei o dinheiro do mealheiro e levei-lho no dia seguinte. A caneta era mesmo bonita, nunca tinha tido nada assim. Levei-a para a escola e passei a escrever com ela nas aulas. Numa aula de português, enquanto escrevia, o Viana levantou-se e tirou-me a caneta da mão. Reclamei. a professora interveio e esclareceu as coisas. Aníbal tinha roubado a caneta ao Viana e vendeu-ma. Ficou determinado que o Aníbal me deveria devolver o dinheiro. Na aula seguinte, a professora perguntou-me se ele já me tinha devolvido os vintes escudos. Eu disse que sim, mas nunca os recebi.

Cheguei a casa e mostrei os folhetos sobre a libertação das colónias à minha mãe. O meu pai era embarcado e só vinha a casa de seis em seis semanas. A minha mãe era uma miudinha, com ar ingénuo, tinha estudado num colégio de freiras, e tinha que aguentar a casa, comigo e mais os meus três irmãos, na ausência do meu pai. Mostrei-lhe os folhetos e ela disse: “deita já isso fora”. A reação foi tão brusca e exaltada que eu fiz-lhe a vontade. Não foi logo, porque eu queria guardar aqueles achados tão estranhos, provocatórios e incompreensíveis, e ainda os tive no quarto até ao fim do dia. Mas ao cair da noite fui pô-los no balde do lixo.

Nesse dia, enquanto jantávamos, ouviu-se o estrondo de mais uma bomba que rebentou em Lisboa.