Sete pragas

Um tipo pediu-me um cigarro.
– Não tenho. Não fumo.

Pediu-me, depois, moedas para um café.
– Não tenho moedas.

Rogou-me, então, uma praga.
“Vais ter um azar. Não sabes com quem estás a falar.”

Desmanchei-me a rir.
Aproveitei para jogar no Euromilhões.

O sorriso

Estavam três mulheres na sala de espera do hospital: avó, mãe e filha. Setenta e tal, cinquenta muito sofridos, e dezoito anos. Foram chamadas duas vezes: uma para a triagem, outra para a consulta. A mãe acompanhou a avó – mãe dela – que se deslocava com dificuldade e com uma canadiana. Passaram por mim. A mãe era a mais triste das três, como é normal nos dias que correm. Extremamente magra e com as feições caídas. Roupa velha, coçada e pobre.

Depois de atendidas, a mãe chamou a filha para amparar a avó, enquanto metia moedas no telefone público, para tentar chamar um táxi.
As moedas entravam e saíam logo de seguida. Tentou talvez cinco vezes antes de eu me oferecer para telefonar.

Durante a chamada, eu disse à telefonista: “É para três senhoras, mãe, filha, e…”
“E neta”, atalhou ela. Ela considerava-se a filha. Tão querida…

“E neta”, atalhou ela, quando eu me preparava para dizer “e avó”.
Desliguei o telemóvel e disse-lhe: “chega daqui a pouco, é o carro 48”.
“Quanto é o telefonema?”, surpreendeu-me.
Sorri, com um sorriso emocionado: “É grátis”.

Pôs-me a mão no ombro, agradeceu-me e desejou-me bom natal.

Foi a única vez que a vi sorrir.

Um Mundo Neutro

No início de novembro de 2018, um grupo de formandos da GNR foi agredido durante a formação, em Portalegre. Levantaram-se mil e uma vozes contra os formadores, contra o comandante e contra a instituição. O comandante foi exonerado hoje, na sequência das agressões.

As sessões de formação prática da GNR são todas gravadas em vídeo, segundo ouvi hoje na rádio. À noite, passaram um vídeo dessa formação, com as alegadas agressões. E o que é que eu vi? Vi um formador que, apesar de protegido com uma armadura. dava apenas uns socos esporádicos e estava sempre numa postura vulnerável. A armadura nem sequer parecia permitir movimentos bruscos: ofensivos ou defensivos. Mas os formandos não ripostavam: pelo contrário, punham as mãos à frente da cara e enfardavam socos das canelas à nuca. Qualquer meliante lançava-se com o ombro sobre a cintura do formador e fazia-o cair, desamparado, e eventualmente deixava-o desmaiado, pelo impacto da cabeça no chão. Não percebo porque é que os formandos não o fizeram. E, se não o fizeram, não merecem ser membros das forças de segurança de Portugal.

Em 4 de setembro de 2016, morreram 2 recurtas no curso de Comandos, em Alcochete, devido a agressões e condições extremas na formação. Foi aberto um inquérito, instituído um processo, e acusado o capitão responsável pela formação.

Hoje na TV estava uma menina – uma psicóloga comentadora – aos berros, a acusar toda a gente pelos maus tratos aos formandos da GNR. Esses berros refletem uma minoria ruidosa que gosta de elevar a voz, em carneirada, a tudo o que não sejam papás a limpar as fraldas dos meninos, a engomar a roupa, a lavar a loiça, ou a varrer o chão. Um bando de parvos, que almeja por um mundo neutro: sem polícias, nem ladrões; sem homens, nem mulheres; sem guerra, nem paz.

Mas esse mundo neutro não existe. Um militar, que vai para a guerra, não pode pedir ao inimigo: “Podem parar de disparar? É que o meu capitão está com dores de cabeça”. Isso é a guerra do Raúl Solnado.

E um polícia, ou um GNR, não pode pedir ao criminoso: “Agora para um bocadinho, que eu quero fazer chichi”.

Quem não está preparado, quem não tem estofo para lidar com isto, não deve seguir a vida militar ou policial. Escolha outra vida. Dedique-se à costura.

Um mundo neutro é um mundo morto.

O cemitério

A professora Clara pediu aos miúdos para fazerem um desenho.
Era o segundo ano que os tinha consigo, já os conhecia desde o ano anterior, quando tinham frequentado a 1ª classe. Estavam agora na 2ª.

A Maria foi chamada com alguma urgência à escola, naquele mesmo dia. A professora disse-lhe que tinha pedido aos meninos e meninas que fizessem um desenho, e que tinha recebido desenhos absolutamente normais. Exceto um. Mostrou-lhe o desenho do João. Era um cemitério, com uma série de campas espalhadas pela folha.

A Maria fartou-se de rir. A professora Clara pensou: “Meu Deus. Não vou internar um. Vou ter que internar dois.”

Mas a Maria explicou: “Eles jogam um jogo – os SIMs – e têm que os matar para os enterrar e terem campas. Põem-nos na piscina e tiram-lhes a escada. Fecham miúdos na cave. E esperam que eles morram.”

A professora Clara estava boquiaberta, sem reação. E pensou: “Vou ter que internar a família toda…”

O presente

A Maria foi à reunião de pais do João, no fim da primeira classe. Chegou tarde, pediu desculpa, e sentou-se. A professora Clara aproximou-se e pousou-lhe um embrulho, com um lacinho, na mesa. Disse-lhe: “É para si, mas não abra já”.
A Maria olhou para as outras mães, e constatou que elas não tinham presentes. “Porquê só para mim?” interrogou-se. Mas decidiu esperar pelo fim da reunião.

No fim da reunião, já as outras mães saíam da sala, abriu o embrulho, enquanto a professora Clara se aproximava. Eram talvez duas dúzias de pedras da calçada.
“Pedras?”, perguntou ela à professora.
“Sim, são as pedras que tirei dos bolsos do João, sempre que ele entrava na sala.”

Touradas e ‘civilização’

PORTUGAL, AS TOURADAS E A ‘CIVILIZAÇÃO’

(um texto de José Gabriel Pereira Bastos, que publico por estar de acordo com a generalidade das ideias, porque está bem escrito, e mais que isso, porque é lúcido na análise)

O facto de a nova Ministra da Cultura afirmar que prejudicar a tourada à portuguesa é um acto de ‘civilização’ permite constatar o óbvio – há quem ache que a civilização é norte-europeia ou, como dizem os Americanos, é WASP (white, anglo-saxon protestant) e que o Mundo Mediterrânico, polarizadamente católico, não é ‘civilizado’ por ser católico – um mundo de virgens, de santos e procissões, que os protestantes consideram semi-pagão, supersticioso e ‘atrasado’, a necessitar do seu colonialismo civilizacional. Há, por isso, em Portugal, portugueses ‘avançados’, que têm vergonha de serem portugueses e tencionam aproveitar lugares no Aparelho de Estado e no Governo para corrigir o ‘atraso’ civilizacional dos portugueses e nos tornar ‘mais europeus’, isto é, menos diferenciados culturalmente e mais absorvidos pela cultura protestante.
As touradas existem na península ibérica e no sul de França, associadas à pastorícia do gado bovino em liberdade. vigiados por campinos, sobretudo nas margens do Tejo (Ribatejo e Alentejo), originando esse facto cultural que é a tourada à portuguesa.
Têm contra si os que se auto-consideram os mais ‘civilizados’ dos portugueses, um agregado ideológico que forma uma minoria elitista activista, que se sente ‘superior’ aos outros portugueses – os vegan e vegetarianos, que não comem carne, os ecologistas, que são contra o gado bovino, por ser poluente, os ‘protetores dos animais’, que consideram a tourada um ‘divertimento’ marcado pela violência e pela tortura dos touros, algumas feministas, que associam a tourada ao Machismo (como se proibir as touradas acabasse com o machismo) e alguns católicos fanáticos que acham que a tourada é um resíduo dos cultos pagãos que ainda não conseguiram destruir. Uma ‘elite’ sub-cultural, com muito pouca gente, alinhada com a Cultura WASP.
Na Europa, a oposição identitária norte-sul tem uma longa história, a partir da Renascença, Portugal e Espanha (Castela) são cultural e identitariamente muito diferentes e a Tourada à Portuguesa bem diferente e oposta à Tourada Castelhana, que, com os seus Touros de Morte, faz parte de cultos da Morte.que lhe são específicos.
A principal acusação feita contra a Tourada à Portuguesa é o sangue (e sim, há um Culto do Sangue e da tortura nos católicos, associado à cultura do Cristo e dos mártires, desde o Circo de Roma, mas não há um Culto da Morte, há um Culto da Vida que sobrevive apesar dos ataques que lhe são feitos).
Estive em Berkeley, Califórnia, dois meses, em 2003, e a pesquisa que fiz sobre os Portugueses na Califórnia, pôs-me face quer ao Culto do Espírito Santo (um culto comunitário, vindo dos Açores, onde se refugiou quando foi perseguido pela Inquisição no Continente), quer às Touradas à Portuguesa, algo desconhecido dos Californianos (como afirmava, com espanto, uma revista americana local).
Assisti a uma Tourada à Portuguesa num dos 12 recintos de tourada que os Portugueses criaram na Califórnia, sobretudo depois da segunda leva de imigrados, aceites por Kennedy após o drama da irrupção do vulcão dos Capelinhos. Um recinto à cunha com centenas de portugueses (e não só), no Vale de São Joaquim, onde é poderosa a agricultura e a indústria do gado bovino (como é no Texas e noutros Estados do Oeste em que os touros vieram substituir as manadas dos búfalos exterminados), com uma Tourada sem sangue (‘civilizada’), com touros com o dorso protegido por uma almofada coberta de velcro (que pode tornar-se invisível se o touro fôr negro), na qual eram espetadas as bandarilhas, sem que o touro fosse sequer tocado e ainda menos ferido. Consequências: a beleza da Tourada permanece intocada, mas os toureiros e, sobretudo, os pegadores, correm um perigo maior, o que aumenta a dimensão dramática da tourada na encenação dramática da confrontação entre homens e toiros.
Este maior enquadramento da Tourada à Portuguesa na Civilização Americana não deve, provavelmente, à Ministra da Cultura, que, em vez de importar o resguardo do touro avançado pelos Portugueses da Califórnia, pretende, na sua douta ignorância e ‘superioridade’, castigar económicamente a Tourada à Portuguesa, para no futuro avançar na extinção da ‘barbaridade’, tal como pretendida pelo PAN, um partido residual importador da discursividade ideológica e dogmática das minorias extremistas de activistas identitários que pretendem corrigir o ‘atraso’ dos Portugueses.
Proibir Touros de Morte, castelhana, em Portugal, deve ser feito, dado a sua extrema violência, mas proibir a Tourada à Portuguesa, em vex de proteger os touros, levará à sua extinção, porque nenhum ganadeiro continuará a promover manadas de touros em liberdade nas lezírias do Ribatejo (as quais, provavelmente acolherão monoculturas). Pretendem estes fanáticos extinguir os touros em liberdade e as touradas sem sangue e levar os últimos touros para o Jardim Zoológico, ao lado de outros animais em vias de extinção?
Entre o tudo dos ‘adeptos’ (‘bárbaros’ e ‘atrasados’, ‘violentos’ e ‘torturadores’, segundo os opositores) e o nada dos ‘civilizados protetores dos animais’ pode haver o progresso dos inteligentes, promotores de aperfeiçoamentos graduais (sem ‘deitar fora o bébé com a àgua do banho’, como diz o povo, que não perdoa a estupidez e curteza de vistas dos ‘civilizados’ de gabinete).
A BINARIAZAÇÃO (em que um pólo tem que ser derrotado e extinto), É UMA FORMA SUBTIL DE RACISMO E DE IMPERIALISMO (dos ‘civilizados’ contra os seus ‘atrasados’) e, a meu ver, a FORMA SUPERIOR DA ESTUPIDEZ (disfarçada de superioridade).

José Gabriel Pereira Bastos

O segredo da paz

Estive a ouvir este álbum mais uma vez, talvez pela trimilésima vez.
Normalmente isto é classificado como música rock-pop, embora também tenha uma sonoridade de rock psicodélico.

No entanto, o som arrastado do saxofone deste tema cai muito facilmente no caixote do jazz. E a voz da Claire Torry?

Durante anos, várias gerações ouviram e perceberam esta mistura, a arte por trás desta amálgama, e alimentaram-se deste som…
Até há pouco tempo.
O álbum esteve, até hoje, 937 semanas no top da Billboard: mais de metade deste tempo foram semanas consecutivas.

Os novos habitantes deste planeta já não ouvem o Dark Side of the Moon com a mesma frequência que os anteriores, criaram uma descontinuidade na lista dos discos mais vendidos, e, consequentemente, dos mais ouvidos.
O mundo está a mudar, e as novas gerações vão destruir a paz conseguida desde 73, aquando da publicação desta peça única. Vêm aí tempos interessantes.

Pastéis de bacalhau

Estava eu a dormir ferrado, no carro, como faço todas as 2as. feiras a esta hora, num furo de 2 horas entre aulas, com o carro parqueado à frente da escola, com o estacionamento devidamente pago, quando fui acordado, em sobressalto, por dois pares de pancadas no vidro.

Era um tipo fardado. Baixei o vidro.

Era um fiscal da Câmara a cobrar 1 euro de taxa turística de dormida.

Get GUMMed

The Gurus of Unix Meeting of Minds (GUMM) takes place Wednesday, April 1, 2076 (check THAT in your perpetual calendar program), 14 feet above the ground directly in front of the Milpitas Gumps. Members will grep each other by the hand (after intro), yacc a lot, smoke filtered chroots in pipes, chown with forks, use the wc (unless uuclean), fseek nice zombie processes, strip, and sleep, but not, we hope, od. Three days will be devoted to discussion of the ramifications of whodo. Two seconds have been allotted for a complete rundown of all the user-friendly features of Unix. Seminars include “Everything You Know is Wrong”, led by Tom Kempson, “Batman or Cat:man?” led by Richie Dennis “cc C? Si! Si!” led by Kerwin Bernighan, and “Document Unix, Are You Kidding?” led by Jan Yeats. No Reader Service No. is necessary because all GUGUs (Gurus of Unix Group of Users) already know everything we could tell them.

— Dr. Dobb’s Journal, June ’84

(em: Linux Fortune)

Amores

Um dia conheci uma música – ainda me enamorei dela – que era muito crítica quanto a alguns dos artistas que eu ouvia.

Não gostava do Joe Jackson, porque era um artífice; tal como o Winton Marsalis, não gostava do mano Branford porque tocava rock; entre outras construções.

O instrumento preferido dela eram campainhas de porta, mas também sabia fazer sons com os nós dos dedos.

Medronho

Tenho para aqui uns medronheiros, já adultos a produzir medronho, ainda de forma envergonhada, mas já devem dar um litro de aguardente.

Já há dois anos que quero fazer aguardente, mas com 1 kg de medronhos não consigo fazer nada. Este ano devo ter 2 kg, mas vou tentar apanhar mais medronhos fora. Talvez na serra da Arrábida.

E então, vou precisar de um alambique. Mas vou ter que ser eu a construí-lo, caso contrário nem vale a pena tentar. Se não for eu a fazer tudo, não me dá gozo nenhum.

De qualquer forma, já me comecei a informar na net@ de como se faz a aguardente, e quais os elementos importantes no alambique.

Entretanto, o meu tio por afinidade (Manuel Luis Pedrosa Alves) já me enviou algumas dicas: eu, quando ainda na Guiné e vindo nas férias comprei um alambique numa loja de ferragens à entrada da rua das Portas de Santo Antão e na guiné mandei comprar mangas, cajú, laranjas e mais não me lembro e tudo num grande balde até estar no ponto da destilação, para isso comprei um pesa mostos , para verificar quando estivesse no ponto. Destilei num fogareiro de serradura e fiz 4 litros que parecia pólvora . Depois de jantar ia até à esplanada do grande hotel levando uma garrafa que por lá se bebia e por lá ficava a garrafa vazia, as 4 garrafas foram assim consumidas. Depois acabei por vender o alambique pelo mesmo preço que tinha comprado.

O tao, também está preocupado com o assunto e disse-me: Acho que tens de ter cuidado porque o primeiro alcool que sai não presta, ouvi isso algures, não sei se o primeiro alcool é metílico, se for isso é perigoso mesmo. Confirma.

Vou estar atento. Vou dando notícias.