Sítios

Em 86, estava a dar aulas de matemática na Cidade Sol, e fui numa visita de estudo, com as minhas turmas e as profs das áreas sociais.

Rumámos a VNMilfontes para um banho nas praias do rio e tive que ir buscar uma aluna, já em desespero, quase a afogar-se, agarrada a uma boia a gritar. Gordinha, penso que era Sandra, o seu nome.

À volta passámos neste sítio, que me surpreendeu e me deixou amante para sempre.

(foto de junho de 2000, Fuji Velvia 50)

Talho

A minha irmã mais nova foi ao Talho.

O talhante tirou-lhe várias miudezas das entranhas, provavelmente para dar ao cão.

“Minha senhora, está curada”, disse-lhe o talhante.

Voltou para casa uns quilogramas mais leve e curada.

É a medicina que temos e aplaudimos.

As melhores eleições de sempre

As eleições legislativas do próximo 6 de outubro devem ser as melhores eleições de sempre em Portugal. Todos as querem ganhar, o país nunca esteve tão bem, e, na realidade, quase todos merecem o tacho.

Isso deixa o povo numa situação pouco comum: em quem votar afinal?

Votar é um dever, mas, com tantas dúvidas, os eleitores podem decidir ir tomar banhos de sol para as areias quentes das nossas praias. Por isso, para os indecisos – e para os outros também – aqui fica a tradicional ajuda do Chornal: o BOTÃO.

Mais uma vez, o Chornal cumpre a sua missão de entidade de interesse público – que lhe faculta um subsídio chorudo do Estado – e ajuda os eleitores nesta cada vez mais árdua tarefa…

Votar

Votar é importante. Nem que seja para baixar a abstenção e, com isso, motivar os outros no futuro.
A cruz, pouco interessa, nem sequer é uma opção da nossa iniciativa pessoal: os amantes de iogurte votam à direita, os de pão alentejano votam à esquerda.

É um desígnio que está acima da nossa liberdade individual. É o que comemos que aponta para o quadrado onde desenhamos a cruz. É o nosso estômago que vota.

Mas o voto é importante – um voto é importante – porque ninguém vota a dobrar.

Maturidade democrática

“O PS só não forma Governo porque não quer” 06.10.2015
“PS só não é Governo se não quiser” 07.10.2015

As frases de Jerónimo de Sousa, dois e três dias depois das eleições legislativas, que travaram a demissão de António Costa, revolucionaram as ideias no país e mudaram a política da Europa. É a isto que se chama uma revolução.

É claro que uma franja minoritária de fachos ressabiados arrastou-se com azia durante quatro anos, mas o país cresceu na sua consciência cívica e democrática.

Vamos ver o que acontece nas eleições do próximo mês.

Margem Sul

Há três meses atrás, ia eu a chegar à praia (da Mata), e vinha um casal a sair.
E diz ele para ela: “Isto é mesmo margem sul”.

Fartei-me de pensar o que quereria ele dizer com aquilo. Irritou-me e pensei para mim: “Não gostas? Porque não ficas tu com as tuas praias da margem norte? As praias da caca ralinha, como dizia o Herman José? Oeiras, Paço d’Arcos, etc.”

Na semana passada, fui a uma praia mais organizada, em São João da Caparica – que detestei, perceba-se – com sombreiros a imitar coqueiros, espreguiçadeiras enfeitadas com meninas bronzeadas de biquinis brilhantes, cabelos de coiffeur, bebidas exóticas com gelo e palhinha na mão. Lá atrás, no parque de estacionamento, bólides, todos todos eles acima dos cem mil. Nada disto é margem sul.

Percebi, então, o que o outro personagem queria dizer. Um mundo sem significado.

Fim do SNMMP

Pardal Henriques candidato pelo PDR deixa de ser porta-voz dos motoristas (in DN)

São Bento substitui Pardal Henriques e admite retirar pré-aviso de greve (in Público)

A greve anunciada para setembro nunca vai acontecer. O que é que se passou?

Como já tenho vindo a anunciar, o Pardal Henriques era candidato pelo Marinho Pinto e andava a fazer promoção pessoal à conta da credulidade dos motoristas.

Agora que a candidatura dele a deputado foi anunciada, o presidente do SNMMP começou a perceber que se arrisca a perder os clientes todos se mantiver a farsa da greve. E, portanto, vai desconvocar a greve e negociar um acordo igual ao dos outros motoristas, porque os patrões não lhe vão dar mais nada.

Os motoristas vão sentir-se enganados – perderam 20% do ordenado em agosto com esta brincadeira – e vão abandonar este sindicato de farsa.

Notem que este sindicato – o SNMMP – foi criado em novembro de 2018, estrategicamente menos de um ano antes das eleições, com o propósito único de descredibilizar o Governo.

E antes deste sindicato, onde estavam filiados estes motoristas? Não sei, mas é para aí que vão voltar. Este sindicato não dura até outubro.

Coquetails Molotov

Sem acordo “por 50 euros”, diz sindicato.
“Querem impor aumento”, acusam patrões.
(in DN)

Aparentemente, as partes não querem negociar.

O SNMMP (Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas) cancelou a greve anterior, provavelmente porque os motoristas já não aguentavam mais tempo sem trabalhar, e precisavam de equilibrar as contas para o salário que vão receber no fim do mês. Por outro lado, toda a comunicação da parte do sindicato parecia indicar uma abertura à negociação, o que aliviou, um pouco, a imagem negativa que os motoristas estavam a criar na opinião pública.

O sindicato avançou, para esta primeira ronda de contactos com os patrões e o mediador, com algumas precondições e valores mínimos de aumentos pretendidos. Em princípio, essas condições deveriam ser negociadas já em fase de mediação. Ao impor essas precondições, o sindicato mostra que não quer negociar.

Neste momento, e, olhando para trás, fico com a ideia de que o cancelamento da greve foi estrategicamente escolhido para os motoristas poderem respirar um pouco – principalmente no salário – antes de avançarem novamente para a greve, no próximo mês, fazendo pesar sobre o salário do próximo mês, apenas, a continuação da luta.

O objetivo principal é, desde o início, penalizar o governo. Foi isso que fez o Pardal Henriques, não só nas ações, ms também no discurso. Basta ouvri as entrevistas que deu nos 5 primeiros dias da greve que começou dia 12 de agosto: acusava sempre o Governo de ser o culpado, quando o Governo não era nenhuma das partes em conflito.

Se houvesse alguma dúvida sobre as intenções do sindicato, repare-se que foi fundado a 8 de novembro de 2018, a menos de um ano das eleições legislativas, e, em abril, já estava em greve.

Aguardam-nos mais uns dias de fila nos postos de abastecimento, e de jerricans carregados de gasolina. Os jerricans dão uns bons coquetails Molotov.

Nutella, Black Fridays e gasolina

Agora, no rescaldo da greve dos camionistas, pode ser que o pessoal que apelidou o Costa de fascizóide, por causa dos extensos serviços mínimos que decretou, pense um bocadinho. E aqui vai uma ajuda.

Lembram-se do episódio da Nutella, no ano passado em França? Eis uma citação do jornal Le Parisien: “As pessoas lutaram como animais. Alguém estava a puxar o cabelo a uma mulher, outra tinha uma mão com sangue. Foi horrível”. [1]

A Nutella não é caso único, aliás, todos os anos há pancadaria nos saldos da Black Friday.

Na crise de combustível da semana passada, houve também tareia em dois postos de abastecimento. Um deles aconteceu em Almada e foi filmado. [2]

Se o combustível faltasse mesmo – se os serviços mínimos fossem mesmo mínimos – e se os bens e serviços começassem a faltar, seria fácil este tipo de desacatos generalizar-se e espalhar-se por todo o país.

Mísseis na Gronelândia

Trump confirms he is considering attempt to buy Greenland

Comprar a Gronelândia e instalar lá mísseis de médio alcance apontados à Rússia, sai muito mais barato do que manter mísseis de longo alcance nos EUA. E se forem mísseis de propulsão nuclear, como o que rebentou na semana passada na Rússia, é bom que não estejam nos EUA, é bom que rebentem em cima dos esquimós.

Vencidos pelo cansaço

A greve dos transportadores de combustíveis era para fazer estragos ao país, mas o Governo estudou bem o problema e preveniu-se: exigiu serviços mínimos à altura e avisou o país para armazenar o combustível que pudesse. Com estas duas medidas, conseguiu minimizar os efeitos da greve durante uma semana. E ao fim de uma semana, os motoristas estavam exaustos. Os poucos membros do piquete de Aveiras de Cima, que ainda não tinham desistido, choraram hoje em direto na TV: eu vi com os meus olhos.

Pensei que iria haver um “acordo de cavalheiros” para que nenhuma das partes perdesse a face. Mas os patrões quiseram ver o sindicato cair ao chão. Obrigaram o sindicato a cancelar mesmo a greve, e não apenas suspendê-la.

No entanto, o Pardal Henriques, no seu estilo rocambolesco de sempre, saiu airosamente da situação com mais uma mentira: anunciou que o sindicato cancelava a greve, porque o Governo tinha mudado de atitude.

Ninguém está preparado para uma greve por tempo indeterminado, a não ser que lhe paguem o ordenado para ficar em casa. O Steve Bannon podia ter feito isso. Mas deve achar que Portugal é um país insignificante.

Com este revés, os motoristas não aprovam mais nenhuma greve enquanto se lembrarem disto. Pelo menos nos próximos 6 anos.

O Caseiro e a Vaca de substituição

Sindicato disponível para suspensão temporária da greve

Era necessário encontrar uma solução onde nenhuma das partes perdesse a face. E, de repente, um iluminado qualquer – por enquanto anónimo, mas um grande herói – lembrou-se desta figura jurídica: a suspensão da greve.

Bem, a suspensão da greve não é figura jurídica nenhuma, não existe na lei. Mas se todas as partes quiserem fechar os olhos a isso, como forma de acabar com esta greve – que é o que todos querem, inclusive os motoristas, e, consequentemente, o sindicato, que quer continuar a ter clientes – amanhã volta tudo à normalidade.

Mas reforço aqui a intervenção desse herói anónimo que, com a sua varinha mágica – a suspensão da greve -, pode ter conseguido um feito.

Tenho algum receio relativamente à reação da ANTRAM, porque isto não é o terminar da greve, que eles exigiam. Mas cabe ao Governo, agora, obrigar a ANTRAM a aceitar estas condições, onde ninguém perde a face. E o facto da ANTRAM ainda não se ter manifestado é bom sinal.


A suspensão da greve, esta figura jurídica que não existe, faz-me lembrar a história do caseiro e da vaca auxiliar.

Um homem rico, que tinha 3 filhos, morreu e deixou, em testamento, as vacas aos filhos: 1/2 para o mais velho, 1/3 para o filho do meio, e 1/9 para o mais novo. Mas não podiam matar nenhuma vaca, nem parti-la ao meio. Quando morreu, tinha 17 vacas.

Vieram advogados e engenheiros, de todo o país, para ajudar a resolver o problema. Os advogados tentaram dar a volta ao testamento, e os engenheiros esgotaram-se em cálculos. Mas era impossível dar metade de 17 vacas ao primeiro filho, sem partir uma ao meio, e isso não lhes era permitido.

Passaram-se horas até que chegou o caseiro com uma vaca emprestada. “Shôs doutoures, posso ajudar?”
Os doutores, já sem soluções, anuíram.
O caseiro juntou a vaca dele às 17 e ficaram 18. Depois deu metade ao primeiro filho, ou seja, 9 vacas. Deu um terço ao segundo, ou seja, 6 vacas. E um nono ao terceiro, ou seja, 2 vacas. 9+6+2=17. Sobrou uma vaca: a vaca dele.
“Meus senhores, boa tarde.” Pegou na vaca e foi-se embora.

Motoristas e motoristas

O meu vizinho é motorista de pesados da GNR.

É desde sempre, e assumidamente, um opositor radical do António Costa: chama-lhe todos aqueles nomes feios conhecidos, que lhe foram afixados por uma trupe de fachos ressabiados, que não têm espírito democrático, nem percebem como funciona uma democracia parlamentar. Felizmente são uma minoria, caso contrário já não tínhamos democracia parlamentar.

Voltando ao meu vizinho camionista. Todas as semanas faz um ou dois serviços de 24 horas, muitas vezes, sem dormir. É normal na GNR.
Foi ele que transportou o camião cisterna para abastecer as forças de segurança, em Fátima, aquando da visita do Papa, em 2017. E esteve 3 dias a dormir no chão de um barracão, nos arredores de Fátima.

Desde que começou a greve dos camionistas, ainda não foi chamado para transportar camiões cisterna. A GNR tem muitos camionistas com experiência de trabalho nessa área. Curioso, hã? Depois de todas as notícias de desinformação que nos têm chegado pela TV…

Fui, há pouco, falar com ele, que como eu disse acima, detesta esta nossa solução governativa, e tudo o que seja à esquerda do MIRN, para perceber a sensibilidade dele sobre a greve.
Está contra a greve, obviamente. Os camionistas ganham o dobro do que ele ganha. Trabalham o mesmo. Aliás, acha uma hipocrisia eles só quererem trabalhar 8 horas, quando normalmente trabalham 16.
Está orgulhoso que a GNR esteja a aguentar o país a funcionar.
“Felizmente temos a Guarda”, rematou ele no fim.

Como se perde uma guerra?

O Pardal já perdeu. Amanhã ou depois isto termina. Já se veem sinais.
Hoje já apelou à reconciliação entre as partes.
Ele pediu. Só é preciso, agora, que alguém com discernimento, consiga levá-lo à mesa das negociações, sem perder a face. E, provavelmente, o porta-voz da Antram não é a pessoa mais indicada para isso.

O Pardal passou o dia a dizer disparates: incitar os motoristas à desobediência, que não iriam cumprir os serviços mínimos, que não iriam acatar a requisição civil, dizer à comunicação social que a GNR tinha prendido motoristas em casa…
Estaria a tentar forçar o Governo a estender a requisição civil ao país todo? Não conseguiu. Felizmente o Governo é sereno.
O país parece estar a aguentar-se – apesar de haver empresas que já tiveram que mandar os trabalhadores todos para férias, por falta de combustível – e, ao mesmo tempo, o salário dos motoristas em greve está a decrescer: muitas perdas por nada.
Portanto, agora, ao fim do dia, já sem trunfos na mão, o Pardal quer voltar à gaiola, ou melhor à mesa das negociações.
Não o deixem perder a face, para ver se isto vai a bom porto, embora me apetecesse partir-lhe o focinho.

Há pouco, após o acordo conseguido entre a ANTRAM e a FECTRANS, o Pardal deu mais uma conferência a partir de Aveiras de Cima, e, em metade do discurso, acusou o Governo de corrupção, interferência, conluio, etc. Aparentemente, o Pardal tem uma agenda muito bem definida. Está a usar os camionistas para conseguir ser eleito pelo partido do Marinho Pinto em outubro. É um criminoso. Não olha a meios: alguns motoristas vão ser presos, e o custo para o país é enorme.
Depois das eleições, nunca mais se ouvirá falar em greve.