Mãe II

Foi sempre muito apegada à mãe; e, com o tempo, esse apego só piorou.
Quando a mãe morreu, ficou com as cinzas, para continuar próximo dela.
Mas isso não lhe chegava.
Foi então que teve uma ideia: engolir as cinzas e conseguir o que, em vida, não tinha conseguido: uma união perfeita.

Encostou o copo aos lábios e sugou um golo daquele leite malhado de cinzento.
A mãe completara-a em vida e completava-a, agora, em morta.
O sabor estranho da mistura fê-la recordar momentos antigos – tão antigos quanto opacos – que se foram, aos poucos, tornando evidentes.
Estava sentada numa mesa, em frente a um prato de sardinhas assadas. Detestava sardinhas, mas naquele dia a mãe obrigou-a a comê-las. Chorou, fez birra, empurrou o prato, mas, por fim, lá colocou um lombo de sardinha na boca.
Era isso: o leite com cinzas fazia lembrar-lhe sardinhas assadas…

A cremação tinha sido de manhã, mas só levantou as cinzas à tarde, depois dos trolhas que pintavam o muro do cemitério terem almoçado e despejado as cinzas do almoço num outro monte que por ali estava e ainda fumegava. Sardinhas assadas em lenha ficam muito mais saborosas do que em carvão.

Mãe I

Em miúdo, desfolhava os cravos dos canteiros da minha mãe até ficarem nus.
Eram cor-de-rosa com traços brancos ocasionais e, cada folha que arrancava, deixava o ar saturado de perfumes.
Despia-os das folhas, até chegar ao ovário – sempre fresco – na esperança de encontrar grãos para semear e espalhar aqueles cheiros por todo o lado.
Hoje, acabaram-se os cravos e acabou-se a mãe.

Bélinha

A Bélinha era uma mulher com as carnes bem organizadas.

Conheci a Bélinha muito antes de a ver pela primeira vez. Toda a gente – os homens – falava dela e eu vivi meses de desespero até que a vi, pela primeira vez, num corredor do IST, enquanto aguardava na fila da secretaria.

Alta, de minissaia, blusa quase transparente, assente sobre o volume imenso do peito. Lábios bem vermelhos, cabelo preto escorrido, e um andar pausado – de manequim – sobre um par de sapatos altos, tão altos, quase tão altos como ela.

Vi-a uns meses depois, no Rossio, numa tarde em que o trânsito parou – por segurança – para a Bélinha passar.

Era uma estátua grega; na versão feminina, porque os gregos antigos eram uns maricas.

Os anéis de Saturno

Saturno está a perder os seus anéis

No início, quando o sol se começou a formar, e ainda era um planeta, tinha esse aspeto: uma massa central, cincundada por um disco de detritos, poeiras e gases.

Depois, à medida que atraía mais poeiras do anel, começou a aumentar de massa, a fundir hidrogénio em hélio, a produzir energia, e transformou-se numa estrela.

As poeiras continuaram a rodar em torno do sol, e foram-se aglomerando dando origem a planetas, que continuaram a rodar em torno do sol.

Alguns planetas mais afastados, que, por estarem afastados, eram mais gasosos e maiores, atraíram algumas dessas poeiras, que se mantiveram na sua órbita, em forma de discos e anéis. É assim que o nosso universo funciona.

Mas esses anéis, mesmo nos planetas gasosos e distantes, vão dando origem a pequenos planetas (os chamados satélites) que continuam a rodar em torno do planeta mãe.

Foi assim que a Lua se formou também. A Lua não se formou a partir de um bloco de massa que se escapou da Terra, como “a Ciência” afirma atualmente, numa imagem quase bíblica de maternidade astronómica. Que ideia mais medieval… Que vergonha de raciocínio, diria eu.

E, assim, Saturno vai perder os “anéis” todos. Mas vai ganhar mais planetas satélites.

Justiça de elites

Não há justiça em Portugal.

A justiça que existe – e vai com minúscula porque não é universal – é apenas para as elites. As pessoas comuns não têm acesso à justiça. E não têm acesso porque esse acesso foi-lhes cortado, estrategicamente, com custas exorbitantes e inalcançáveis.

Há uns anos, uma operadora de telecomunicações mudou de mãos e, no meio de papeladas perdidas, recebi um processo em casa. Não havia motivo nenhum para aquele processo, onde me acusavam de uma dívida de umas centenas de euros.

Telefonei para a empresa – do Belmiro – e não consegui que me ouvissem. Para poder apresentar defesa em tribunal – em minúsculas pelo motivo anterior – tive que pagar 97 euros. Caso contrário, era considerado um processo sumário e eu passava automaticamente a condenado.

Depois de quase trezentos euros pagos ao tribunal, telefonou-me a advogada do Belmiro a perguntar porque é que eu me queria defender. Expliquei-lhe e eles retiraram o processo.

Telefonei, depois, para o Tribunal e disseram-me que me iriam devolver o dinheiro. Já passaram 10 anos.

Onde está a Isabel do Carmo?

B12 e agriões

Aparentemente, a vitamina B12 pode ser fornecida por plantas (Lepidium sativum, garden cress, comestível e geneticamente parecida com o agrião e a mostarda). Na realidade, um estudo publicado pela revista Cell defende que a vitamina B12 é sintetizada por bactérias, ao invés de ser produzida por animais (de maior porte) como era pensado até agora.

A ver vamos.

Pelo sim, pelo não, vou passar a criar agrião aqui em casa. 🙂

Remover um serviço no Windows

É muito fácil 🙂

Mas vamos por passos. Saquei a informação deste sítio.

  1. Ir a: Control Panel -> System and Security -> Administrative Tools -> Services
  2. Sobre o serviço pretendido, premir o botão direito do rato
  3. Escolher Properties
  4. Copiar o nome do serviço
  5. Abrir uma consola (cmd) como administrador
  6. Executar o comando sc delete <nome do serviço>
  7. Por exemplo: sc delete AdobeARMservice

Et voilà, acabaram-se os updates da Adobe!


PS: Se se enganarem e removerem um serviço importante… chamem os bombeiros. 🙂

Azeitonas

As azeitonas em água e sal, até março.

A guerra que foi, para fazer esta foto. Escolher o ângulo para tirar o brilho no vidro; tapar a luz com um guardanapo preso na mão esquerda e nos dentes, enquanto fotografava com a direita; escolher um filtro que salientasse as azeitonas, pois a melhor das fotos estava uma merda…

Mas lá consegui que, em metade da foto, se vissem as azeitonas.

Na serra…

Visto de cima, isto parecia uma tampa de garrafa, no chão, ao lado de uma raiz de pinheiro. Fiz pelo menos 10 fotos até conseguir esta aldrabice. Tive que enterrar o telemóvel no chão e pôr flash, senão via uma mancha preta com o céu azul lá em cima.

Parece uma coisa maravilhosa, não parece? Mas, para quem fosse a passar – distraído – era só uma mancha castanha no chão… que é castanho também.

Presidências

marcelo
“Dois anos, hei de cumpri-los bem. Mas mais cinco? Não sei…”

Marcelo, um presidente que não envergonha o país, nem os portugueses, exceto quando se baba em frente ao presidente da China.

Se já se baba, ao fim de dois anos, o que não fará daqui a dois ou três? Urinar-se pelas pernas abaixo? Arrear as calças e soltar uma poia, em público?

O anterior ainda era pior. Quando chegou, já era uma múmia. Morreu uma vez a discursar. Bem podiam não tê-lo resuscitado. Não valia o esforço. Era uma vergonha para Portugal e para os portugueses. O que vale é que nunca saía de casa, não fazia nada; ninguém sabia que ele existia. E quando falava, parecia que se estava a peidar, tal era a merda.

Os coletes amarelos

Muitos queriam ver isto tudo partido – porque se sentem desconsiderados pela Justiça, pelo patrão, pelo governo – mas não queriam ser eles a partir. Preferiam ver a cena pela TV. Enviaram vídeos e cartazes aos amigos, durante dias a fio. E continuaram a arfar enquanto os poucos mobilizados estrelavam na TV…

– “Minha senhora, pode-me dizer o que acha da manifestação?”, perguntou o repórter a uma senhora que segurava um cartaz.
– “Eu não percebo nada disto. Vim só ajudar”, respondeu a senhora, empunhando o cartaz – amarelo como o colete – ainda mais alto.

Que mais pode almejar uma vida cinzenta e aborrecida do que trinta segundos de estrelato?

E tu, que ainda não levantaste o rabo do sofá, mas que te arrependes de não ter sido tão ou mais amarelo que a senhora do cartaz, tu ainda estás a tempo de vestir o colete. Nem que seja em casa. Se não vestes ficas aguado durante semanas. Eu cá já vesti. Fechei-me na casa de banho – para os outros não verem – e às escuras – para eu não ver também – não fosse ficar traumatizado para o resto da vida. 🙂

O melhor filme de sempre

Ao Correr do Tempo Anúncio no jornal, de quando fui ver isto ao Quarteto

Porque é que volto a escrever sobre o melhor filme de sempre?
Porque é o melhor filme de sempre, claro.

Se tiverem oportunidade, vejam o “Ao Correr do Tempo”. O nome original é: “Im Lauf der Zeit”, e em americano: “Kings of the Road”. Bem, em americano perde a beleza toda, perde a magia toda, mas é o melhor filme que alguma vez já vi.

Vi-o há 30 anos e, nem para trás, nem para a frente vi alguma coisa assim.

Vi-o no Quarteto. Quando acabou já me doía o rabo de estar sentado: foram três horas. Não sabia se havia de chorar, ou se havia de rir. Nunca me senti assim num filme, e estou farto de chorar em filmes e de rir também.

Mas este é… o melhor filme de todos os tempos.

Natália Correia

Cosmocópula

I

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras

II

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.

Natália Correia
(prima do meu grande amigo José Correia)

Putin e o colete amarelo

Somos cada vez maiores!

Até nós – portugueses – já somos alvo do movimento russo para destruir a Europa.

Anda para aí a circular uma convocatória fantasma para parar o país no dia 21. O DN diz que é a extrema direita. Para mim tanto faz o nome que lhe dão: a Rússia é um fascismo como outro qualquer.

Há quem diga que é o Trump, mas acho que o gajo é um banana. Quem tem o Know How disto – de mobilizar os parvalhões nas redes sociais – é a Rússia.