Dubai

Sobre o Dubai, nem me passa pela cabeça passar por lá. Aquilo é o expoente maior de um “Não Lugar”, tal como Marc Augé o definiu e descreveu. É um sítio que não tem nada. É um amontoado de clichés, ou seja, de nada.
Tem alguma tasca típica, com 50 ou 100 anos? Consegue-se ver, e falar com, algum residente tradicional? Consegue sentir-se e viver o ambiente tradicional e histórico da região?
Claro que não. Repito. Claro que não.
Aquilo é um amontoado de clichés. Um conto de fadas até. Um cliché.
Nunca comentei as visitas dos meus amigos ao Dubai, porque eles fazem publicações com um ar tão feliz, que me custa desancar em cima de todo aquele deslumbramento. Não o farei.
Mas nunca me vão ver no Dubai.
Se me quiserem encontrar, procurem-me numa tasca das ruas mais pobres de Yaoundé ou Bamako.

Deus e a Ciência

Acreditar na Ciência é crer numa coisa que não se conhece: é tão mau como crer em Deus.
(Estive para rescrever a frase anterior e tirar o “tão mau”, mas é mesmo mau acreditar ou crer em algo só porque sim. Por isso mantive a expressão.)
Mas a Ciência está errada? Não foi isso que eu disse, embora quase sempre a Ciência esteja errada: faz parte do processo de evolução do conhecimento científico. Mas ainda assim, apesar da Ciência estar quase sempre errada (alguém conhece algum facto científico que seja universal, imutável, etc., essas coisas em que os crentes gostam de acreditar? se sim, digam em comentário, por favor), apesar da ciência estar quase sempre errada, dizia eu, acerta muitas vezes. E porquê?
A Ciência é quase toda estatística, atualmente. A investigação científica define modelos que explicam a realidade. Quando as poucas variáveis (porque são sempre poucas e redutoras) do modelo se aproximam da realidade, com uma percentagem superior ao acaso, esse modelo é considerado uma imagem da realidade,e isso é Ciência.
Mas voltando às crenças: não se fiem, cegamente, em cientistas ou párocos, nem em ciências ou religiões. Estudem, desenvolvam um raciocínio lógico e dedutivo, leiam muito, pensem e sejam livres.

Olga Prats para sempre

Conheci-a, durante muito tempo, como a pianista que tocava Piazzolla. Vi-a, uns anos mais tarde, a tocar fado, também ao piano. E, mais tarde ainda, a tocar Bach, para 4 pianos. Morreu ontem.

Transcrevo, abaixo, o texto do DN – não vá entretanto desaparecer, com alguma remodelação do jornal – para os que gostam de saber a história dos artistas.


Pianista Olga Prats morre aos 82 anos. Uma carreira distinta na divulgação da música portuguesa

Ao longo dos quase 70 anos de carreira, Olga Prats privilegiou a música de câmara, destacando a produção contemporânea. Morreu esta sexta-feira, aos 82 anos, na sua residência na Parede, vítima de doença oncológica.

A pianista Olga Prats morreu esta sexta-feira, aos 82 anos, na sua residência na Parede, concelho de Cascais, vítima de doença oncológica, disse à Lusa o compositor Sérgio Azevedo, que era seu amigo.

Com uma carreira de 69 anos, Olga Prats foi a primeira pianista a tocar e a gravar o argentino Astor Piazzola em Portugal e a divulgar o fado ao piano, nomeadamente as partituras de finais do século XIX e primeiras décadas do século XX de compositores como Alexandre Rey Colaço ou Eduardo Burnay.

Olga Prats começou a tocar piano aos 6 anos, tendo sido aluna particular de João Maria Abreu e Motta. Numa entrevista à Lusa, recordou que “havia sempre música em casa”.

Deu o seu primeiro recital, aos 14 anos, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, a 5 de maio de 1952.

Maria Olga Douwens Prats, de seu nome completo, nasceu em Lisboa a 4 de novembro de 1938, fez o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional, que apontou à Lusa como “a sua segunda casa”, e onde tinham sido alunas a sua mãe e uma tia, e um bisavô professor.

Terminado o curso, em 1957, prosseguiu os estudos em Colónia, na Alemanha, onde foi aluna de Gaspar Cassadó e de Karl Pillney, e em Friburgo, na Suíça, estudou com Carl Seeman e Sándor Végh.

Olga di Robilant Álvares Pereira de Melo (1900-1996), Marquesa de Cadaval, foi “a patrona mais importante para a Olga Prats”, segundo o seu biógrafo e amigo, o compositor Sérgio Azevedo, que disse à Lusa “que o nome da pianista foi uma homenagem à aristocrata”, que durante anos patrocinou os Festivais de Sintra.

Uma das fundadoras do Opus Ensemble, em 1980, e do ensemble de teatro musical Grupo ColecViva, em 1975

A intervenção da Marquesa de Cadaval foi essencial para a família de Olga Prats lhe comprar o primeiro piano. “Sem a Marquesa de Cadaval, a Olga Prats não teria tido todas aquelas oportunidades que teve de estudar e conhecer músicos na infância e adolescência”, disse Sérgio Azevedo.

Na Alemanha, onde foi bolseira do Governo alemão em parceria com a Fundação Gulbenkian, Olga Prats tocou com várias orquestras e recebeu elogios da crítica musical, tendo, em 1958, sido distinguida com o prémio para melhor estudante estrangeira.

Em 1960, regressou a Portugal, tendo continuado a estudar com a pianista Helena Sá e Costa (1913-2006).

O seu talento não passou despercebido nos meios académicos internacionais, tendo sido convidada para ser professora de piano nas classes de música de câmara de Paul Tortelier, Ludwig Streicher e Karen Georgian.

Olga Prats tocou com diversas orquestras, desde logo a da ex-Emissora Nacional, a da Gulbenkian, e a do Porto, mas também a Orquestra de Câmara do Festival de Pommersfelden ou a Sinfónica de Buenos Aires.

Ao longo da sua carreira, privilegiou a música de câmara, destacando a produção contemporânea. Este seu gosto foi passado a outras pianistas, designadamente a Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura.

Além de Lopes-Graça, foi também colaboradora próxima de outros compositores, como Constança Capdeville e Victorino d’Almeida, os quais lhe dedicaram várias peças.

Lecionou no Conservatório Nacional e na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) até novembro de 2008.

Olga Prats foi uma das fundadoras do Opus Ensemble, em 1980, e do ensemble de teatro musical Grupo ColecViva, em 1975.

No Opus Ensemble, que formou com o oboísta e maestro Bruno Pizzamiglio, a violetista Ana Bela Chaves e o contrabaixista Alejandro Erlich Oliva, atuou em várias salas de concerto internacionais levando sempre partituras de compositores portugueses como Croner de Vasconcelos, Armando José Fernandes, Ivo Cruz, Sousa Carvalho, Carlos Seixas e, naturalmente, Lopes-Graça e C. Capdeville.

À Lusa afirmou que participar no grupo lhe tinha “aberto horizontes”.

Comendadora da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada

Olga Prats foi jurada desde a sua criação, do Prémio José Afonso, que anualmente, distingue um álbum inédito de música portuguesa, e foi também jurada em concursos de música erudita, tanto em Portugal, como no estrangeiro.

Em 2008, o Estado português reconhece a excecionalidade da sua carreira e o seu contributo para a Cultura portuguesa, tendo-a feito feita Comendadora da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

O compositor Sérgio Azevedo é autor da única biografia publicada da pianista, “Olga Prats – Um Piano Singular”(Bizâncio, 2007). De Sérgio Azevedo, Olga Prats estreou várias obras, quer a solo quer com o Opus Ensemble, e com ele gravou também um disco.

No ano passado, celebrando 68 anos de carreira, Olga Prats juntou-se, num concerto, em janeiro, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a Artur Pizarro, seu amigo, Jorge Moyano, e ao britânico Nick van Bloss, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa para interpretarem os concertos para dois, três e quatro pianos, de Bach, projeto que o CCB apresentou como “uma autêntica festa pianística”.

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Jaquinzinhos fritos

Um tipo que eu cá conheço, um dia em conversa de petiscos, disse-me: “Lá em casa não comemos fritos”.

Deve ter pensado “os fritos são para os pobres, ou pobres de espírito”, e como ele anda sempre em bicos de pés, porque é baixinho, saiu-se com esta.

Uns anos mais tarde, convidou-me para almoçar em casa dele: pataniscas fritas.

Gosto de tipos que reveem os seus princípios de vida.

Vacinação COVID?

Vacinação COVID obrigatória?
Os que pedem isso, por medo ou outro motivo qualquer, fazem-no quase sempre por hipocrisia.
As duas principais causas de morte no mundo têm origem em problemas cardíacos.
Outras grandes causas de morte são o cancro e diabetes.
Ver a Organização Mundial de Saúde.
E estas causas de morte têm uma origem reconhecida: má alimentação; muitas carnes vermelhas e proteínas animais.
Portanto, quem morre de coração, cancro ou diabetes tem que ser responsabilizado por isso.
Estes doentes têm custos enormes no Sistema Nacional de Saúde. Ocupam grande parte das camas de cuidados intensivos, e gastam enormes recursos humanos e financeiros pagos pelos impostos de todos os contribuintes.
São um grande problema de saúde, mas também económico e financeiro.
E é um problema sem fim. Uma pandemia, diria eu. Ou será um problema endémico?
E alguém ouviu alguma vez falar de limitar o consumo de carne a 100 gramas por semana, por pessoa?
Ou o consumo de laticínios a 200 gramas por semana?
Alguém quer fazer o esforço de não pesar tanto no meu orçamento?
Ou estou a falar para uma plateia de negacionistas?

O R e a pandemia

Sobre o R.
O R, também conhecido por Érretê– para o poderem designar de risco de transmissão, e justificarem a sua utilização nos discursos à população -, é a razão da progressão geométrica (conceito matemático) do número de infetados.
Comecemos, então, pelo início.
O número total de infetados é uma grandeza que cresce sempre, nunca diminui. Começou em zero e vai sempre aumentando.
Para levar a cabo aquilo que quero transmitir, vou fazer a analogia entre a pandemia e os kms percorridos por um automóvel. Assim, o conta quilómetros mede o número de infetados, ou seja, a distância percorrida.
Todos os dias é-nos comunicado o número de novos infetados. O número de novos infetados é a diferença entre o número total de infetados hoje e o número total de infetados ontem.
Os números de novos infetados que nos vão fornecendo diariamente, dão-nos a indicação da velocidade da pandemia. Correspondem, no automóvel, ao velocímetro.
Há uma diferença importante entre os dois: o número de novos infetados é uma grandeza discreta, fornecida dia a dia; enquanto que a velocidade do automóvel é uma grandeza contínua, pois varia a cada instante.
Mas podemos pensar no conceito de Newton – diferenças finitas (neste caso, as diferenças entre o número de casos hoje e o número de casos ontem) – e pensar que, no limite, essas diferenças constituem a velocidade de ocorrência de número de infetados. E, notem, que esta assunção é 100% válida.
Portanto, nesta analogia da pandemia com a Cinemática (secção da Física que estuda o movimento) já temos distância e velocidade.
Será que se pode falar de aceleração? Sim. A aceleração é o R. O R é o cociente entre o número de novos infetados hoje e o número de novos infetados ontem. Corresponde à segunda derivada do total absoluto de número de infetados desde o início.
Bem… tínhamos visto que o número total de infetados, e as suas variações, não eram variáveis continuas e, por isso, não podemos aplicar-lhes derivadas. Mas podemos fazer como Newton, e aplicar um procedimento de diferenças finitas de 2a ordem que, no limite, é a aceleração.
Portanto, o R mede a aceleração da pandemia.

Agora aproveito para desvendar o que me trouxe aqui.
Hoje, nos telejornais da hora do almoço – que vejo religiosamente, porque sou um cientista (apesar de os seguir como um religioso 🤣) – apresentaram, de forma muito preocupante, um gráfico da variação do R.
UAU‼️ A variação do R é a 3a derivada do número total de infetados. Não existe equivalência na Cinemática. Podemos calculá-la, obviamente, mas, se fosse importante, se fosse útil, existia na Cinemática.

O que é que disseram nos telejornais? Que o R já foi de 0,67 na semana passada (um valor fantástico, uma queda livre, uma queda abrupta do número de novos infetados), mas que agora está acima de 0,8.

Qualquer valor abaixo de 1 significa que o número de novos casos é sempre inferior ao do dia anterior.
Todos quereríamos que o número de novos casos, assim como o de ainda infetados, chevasse a zero. Mas existe um tipo de cidadão que, por motivos ainda não identificados, continua a propagar o vírus. Por esse motivo, a curva do R vai cair, assintoticamente, não para 0, mas para 1.

Nota posterior: o R não é exatamente a aceleração. Mede a variação da velocidade, mas de forma relativa, ou seja, quando a velocidade não muda, o R é 1 (a aceleração clássica seria 0). A aceleração é uma grandeza absoluta, e é a diferença de velocidade por unidade de tempo. O R não é exatamente a aceleração da Cinemática, embora seja uma medida (relativa) de aceleração. Tudo o resto está OK.

Ventura, os ciganos e os tolos

Ventura, os ciganos e os tolos.
Ventura acena aos tolos com os ciganos
E com os subsídios de inserção.

Ventura sabe que está errado, omite informação, mas não lhe interessa: os apoiantes são tolos.
Ventura não diz que os ciganos só recebem o subsídio de inserção se puserem os filhos na escola. Assim que os filhos faltem à escola, é-lhes retirado o subsídio.

Agora, se não são tolos, pensem: cada subsídio são 180 €; se os miúdos se mantiverem na escola, daqui a uma geração tudo muda: uns serão engenheiros, outros advogados, outros médicos, canalizadores, mecânicos e sapateiros.

O custo para o país é mínimo, o ganho é enorme: os ciganos vão poder integrar-se.

Quem arquitetou isto é enorme, é genial.

Classic Editor

Sempre (ou quase sempre) que atualizo o WordPress, o editor clássico desaparece e é substituído pelo editor de blocos.

O editor de blocos é a coisa mais asquerosa que podiam ter criado. Não permite editar o código HTML, ou pelo menos, ainda não descobri como se faz. E, nalguns casos, isso para mim é fundamental. Nomeadamente quando quero inserir código de linguagens de programação, ou de comandos, embebidos no texto.

Portanto, sempre que instalo uma nova versão do WordPress, tenho que instalar o plugin Classic Editor, que desaparece sem ser a pedido.

Windows 10 não arranca

O Windows 10 não estava a arrancar. Estive mais de um dia a tentar soluções da net@, mas só esta funcionou.
Estou imensamente agradecido a este tipo que fala inglês com um sotaque indiano
Bem Haja!

1) Type “Diskpart” and hit enter

2) Type “Lis Disk” and hit enter

3) Select the disk by typing “sel disk (Disk Number)” and hit enter

4) Now type “Lis Vol” and hit enter

5) Select the system reserved/EFI Partition by typing “Sel vol (Volume Number)” ( you can identify It by its drive size which will be around 500+ MB & It will have a label as system reserved / EFI)

6) Type “assign letter=M:” and hit enter

7) Type “Exit” and hit enter

8) Type “M:” and hit enter

9) Type “format m: /FS:FAT32” and hit enter

10) Type “Y” If prompted (Twice)

11) Type “bcdboot d:\windows /s m: /f all” (Where d is the drive letter of the c drive) and hit enter

12) Type Exit and hit enter and reboot your computer.

Palhete

Saiu palhete.
E palhetes há muitos.

Um dia, a minha avó pediu-me para ir comprar vinho branco à taberna. Subi a rua, e não, não foi nesse dia que fui mordido por um cão, e que fui ao Instituto Pasteur para tomar 12 injeções na barriga contra a raiva…

Subi a rua, dobrei a esquina e entrei na taberna.
Levava a garrafa na mão. Não havia garrafas – desperdícios – assim, a nosso bel prazer, como há agora, para oferecer. Tínhamos que levar depósito.
Entreguei a garrafa ao taberneiro, por cima do balcão, que ficava lá em cima. Eu não conseguia sequer ver as pipas, de tão alto que era.

“Quero um litro de vinho branco”, disse-lhe.
Pareceu-me que ele estava a encher a garrafa, do tonel do tinto. E lembrei-o: “É vinho branco”.
“Ah! Não há problema”, retorquiu o taberneiro.
Retirou a tampa superior da pipa e vazou a garrafa, cheia de tinto, até meio. Depois encheu o resto com água, agitou, pôs-lhe a rolha, e colocou-a no balcão.
Nem sequer fez desconto.

A minha avó e o meu pai não acreditaram na história. Mas também não eram escanções.

Palhetes há muitos.

Salmão sueco

No tempo da Pipi das Meias Altas, uns suecos ofereceram um salmão fumado, com três quilos, ao meu pai.
Não era salmão às fatias, era um pedaço inteiro.
Os tempos eram outros.

Pela janela, o sol brilhava de forma estranha. Se havia sol, não havia céu, se havia céu, não havia pássaros. Uma névoa escondia o horizonte.
O vinte cinco de abril ainda nem sonhava com os capitães.
O povo era pobre, e o país, de poucos.

Comemos salmão durante um ano inteiro. Mas sempre segundo a receita que os suecos nos confiaram.
Uma fatia de pão, uma película de manteiga, uma folha de alface, uma camada de ovo mexido, e uma fina coberta de salmão que retirávamos do lombo com uma faca muito afiada.

O milagre sueco

O milagre sueco.

Os suecos deixaram os velhos morrer. No Eixo do Mal de 5ª feira passada, a Clara Ferreira Alves foi mais longe e disse mesmo: os suecos mataram os velhos.
Porque se fala tanto da Suécia aqui em Portugal? Porque temos a mesma população e, por isso, somos comparáveis.

No dia de hoje, temos quase o mesmo número de infetados declarados, mas a Suécia tem quase o triplo dos mortos, e apenas 60% do nosso número de testes. Aliás, aparentemente a Suécia não testa: despreocuparam-se; não querem saber do COVID; não controlam o número de recuperados, nem sabem o número de casos ativos; e, consequentemente, serão os números deles fiáveis?

Admitamos que o número de mortos suecos é real, ou seja, que todos os mortos por COVID na Suécia são apenas os 5.918 de hoje. Na Suécia, morrem em média por dia cerca de 5 pessoas, atualmente, depois da grande mortandade dos primeiros meses. O que é que isso significa?
Que os mais fracos foram extreminados na primeira vaga, em casa e nos lares, sem sequer saturarem os serviços de saúde, nem pararem a economia?
Que os que ainda estão vivos são os mais fortes e que, em geral, vão ultrapassar esta crise? Que poucos mais vão morrer? Isso leva-nos a uma percentagem de 0,059% de fatalidades por COVID na população sueca, que poderíamos extrapolar para outras populações – esquecendo diferenças genéticas, culturais, de densidade populacional, climáticas ou de alimentação – nomeadamente para a população portuguesa. Se assim for, quando chegarmos às 6 mil mortes, a curva das baixas começa a aproximar-se da horizontal.

Mas há 14 países com uma taxa maior de mortos que a Suécia, e o maior – tirando o caso particular de São Marino – é o Perú com quase o dobro da percentagem de mortos sobre a população: 0,1%. Mas neste caso, a explicação, se a houver, pode estar nas diferenças culturais ou climáticas.
Vamos ver o que este inverno nos traz.

https://www.worldometers.info/coronavirus/

Algarve em tempos de miséria

No tempo da miséria – quando em Tavira se comia dentro da gaveta; e em Boliqueime, quem parasse para pedir água, levava tareia – nas encostas do barrocal, os homens emigravam para a Argentina. Esperavam meses, em desespero, por uma carta de chamada.

Alguém, na Argentina, tinha que declarar que precisava de tantos homens para trabalhar e que se responsabilizava por eles.
A carta de chamada chegou e os homens do meu sítio avançaram, sem medo.

Uma noite, já com a viagem preparada, subiram para carroça e desceram a encosta para apanhar o comboio das 23h55 em Boliqueime. Eram uns dez ou doze, sentados nas tábuas laterais do veículo de tração híbrida.
Ao fundo da ladeira dos Matos, a estrada apresenta uma inflexão em cotovelo, ainda hoje perigosa para os automóveis: a famigerada curva de Alfontes.

A trupe descia embalada ao longo da ladeira, e a velocidade parecia aumentar com a euforia da expectativa de cruzar o Atlântico. Ao chegar à curva, a inércia da barca era máxima. O animal matraqueava o chão com os cascos, puxando o peso rodopiante do atrelado com o cachaço, mas a carroça resvalou e embarrancou. Todo o conjunto adornou e o júbilo por ali ficou.

Os retirantes começaram a recompor-se, e dois deles foram ajudar a mula, que não tinha culpa nenhuma, a levantar-se.
Um ou dois desistiram, e voltaram a pé para trás. Aquilo tinha sido um mau começo da viagem, pensaram, um mau prenúncio.
Os outros – entre eles o José Debrúzias e o João Rita – saltaram para cima do carro e gritaram: “Vamos embora”.

E, no meio daquela epopeia, um deles acrescentou, a pulmões cheios: “Eu já nem sei falar português!”.

Blade Runner

Eu sabia que não valia a pena.
Preconceito, ou experiência?
É impossível igualar o Philip K. Dick.
É impossível igualar o Ridley Scott.
É impossível igualar o Vangelis.

O problema dos filmes de ficção científica é a secura dos ambientes. O Blade Runner não sofre desse problema, portanto não parece falso. Este está pejado de aridez.
Os planos de câmara são péssimos, o 3D é medíocre
Não há alma, não há magia.

No outro, todos os planos são ricos em conteúdos. Este é de uma aridez insuportável.

Há partes do argumento deste que parecem saídos de um filme de categoria Z. Por exemplo: aquele momento em que os andróides estão a anunciar que vão fazer “a revolução”.
“A revolução”? Por amor de deus. Foi essa banalidade que o Ridley Scott eliminou do filme, quando criou a palavra Replicant, para substituir Andróide.
Banalidade e obra prima vivem em cantos completamente opostos da casa.