Eusébio

Então ontem, a senhora, já com a respeitável idade de 95 anos, reformada dos CTT, contou:
-Naquela noite estava de serviço como telefonista, quando, altas horas, me pediram para ligar para Direcção Geral dos Desportos por causa de um tal Eusébio, que eu nunca tinha ouvido falar.
Enganei-me e liguei para a presidência do Conselho de Ministros. Conheci-lhe logo a voz, verdadeiramente salazarenta: “Boa noite”. Atendeu-me o Salazar, nem mais!
Fiquei toda nervosa, cheia de medo e a pensar “Mas como é que me fui enganar assim? O que é que ele vai pensar de mim? O que irá acontecer?”
Desfazia-me em desculpas pelo engano quando ele, com o seu jeito de estar na vida, me interrompeu e disse:
“Minha senhora, não tem nada de me pedir desculpas.
A estas horas só poucos como nós é que trabalham. E se a senhora estiver tão cansada como eu é natural que cometa enganos. Eu é que lhe agradeço por estar a trabalhar. É de trabalho que este país precisa.”
Não foram estas as palavras exactas e emocionadas com que ela o contou, mas o sentido era mesmo este, com o rigor com que o consigo escrever.

Dá que pensar:
Ele atendeu porque não estava lá mais ninguém?
Mas o homem era um workaholic?
E a resposta é tão ideológica, tão dele…

Enfim, tal como o Eusébio, está a morrer toda uma época, toda uma geração, todo um sistema de crenças.

E agora Portugal?
Um líder dá sempre jeito, mas vais ter de te safar com ou sem ele.

Cada um jogava no seu campo
Uma época

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *