Provadora de crematórios

Conheci a Cindra há muitos anos atrás. Era uma miúda de ar pacato, simples, cabelo castanho, liso e comprido, sempre de blusa, saia e chinelos.
Tinha, no entanto, uma profissão pouco comum, insólita mesmo: era provadora de crematórios.
Uma coisa tão fora do normal, que um dia tive que lhe perguntar: “Isso é o quê, afinal?”
“Então!? Deito-me na passadeira do crematório, sou transportada até ao interior do forno, onde me lançam fogo e ardo.”
A Cindra provava, não apenas crematórios por estrear, mas também fornos que, após reparação, necessitavam de prova de que, efetivamente, estavam reparados e a funcionar.
Perdi o contacto com ela e só voltei a encontrá-la no ano passado, quando, após uma grande vaga de mortos por uma enfermidade contagiante, fui a três ou quatro funerais e, num deles, lá estava a Cindra a avaliar um crematório que sofrera danos por excesso de calcinações.
Tinha o mesmo aspeto calmo, jovem e sem mácula de anos antes. Seria o fogo que lhe dava aquele ar de juventude sem fim?
Roo-me de curiosidade em perceber, mas nunca lhe perguntei, como o tempo passa e ela fica.

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