A Night at the Opera?

“Aqui ganhas 10 mil por ano, enquanto que nos EUA ganham 15 mil por mês”, dizia o vigilante ao cego, quando eu cheguei para saber do M. que tinha ido fazer uma radiografia.
“Ele falou comigo. Foi ver se era no rés-do chão, ou no primeiro andar. Olhe, ali está ele. Afinal é no primeiro andar.”
“Ok, eu espero cá fora”, disse-lhe.
O vigilante e o cego continuaram: “E a moeda do Canadá – o dólar canadiano – quanto é que isso vale? Nunca ouvi falar dele…”
“J3?”, ouviu-se no walkie talkie do vigilante, “o Dr. Saraiva quer sair com o carro”. O vigilante afastou-se. O cego aproveitou para se esfumar.
Um carro aproximou-se, subiu o passeio, e deixou uma passageira, que saiu de chinelos e manta sobre o corpo. Caminhou pesadamente para barlavento, o que me deixou intranquilo, pois os aerossóis propagam-se com o vento. Encostei-me ao pilar, onde o vento não corria e esperei.
Lá ao fundo um cambaleante anunciava-se com uns sons incompreensíveis.
A porta do edifício abriu-se e saiu uma paciente de robe rosa, salpicado por penas de pato brancas. Calçava chinelos e trazia as pernas – muito brancas e bem depiladas – ao léu. Na mão, um saco de plástico enorme, mas leve, aparentemente cheio de roupa. Encostou-se à maior parede que dava proteção do vento. Não a usei porque foi a parede onde tinham estado o cego e o vigilante, e Deus sabe os ares que por lá ainda pairavam.
Abriu o saco, procurou freneticamente, e tirou de lá – do meio da roupa, que entretanto se conseguiu ver – um maço de tabaco. Gigante, Maior que o SG Gigante do meu tempo de fumador. Retirou um cigarro, acendeu-o, e, enquanto o acendia, ligou a uma familiar com uma voz mais doce do que a dela: estava em altavoz.
Acabei por perceber que, a enfermeira, que esperava no vestíbulo, tinha vindo acompanhá-la, com receio que fugisse, de robe e pernas ao léu, naquela noite em que eu tremia atrás do pilar que me protegia do vento.
Acendeu o segundo cigarro no borrão do primeiro e continuou a conversa, na mesma toada sarcástica com que proferiu a primeira frase.
O vigilante que regressou, entretanto, juntou-se a outros três colegas que saíam de turno. Era a hora de troca de turnos. Enfermeiras, de minissaia, entravam e saíam para o deleite dos meus olhos, e ajudavam-me a aguentar o vento gélido da noite, num dia que, horas antes, tinha lembrado o verão. Agradeci, às “nossas” profissionais de saúde, o facto de não terem termómetro em casa, e de virem quase nuas para a rua.
Os vigilantes, continuavam a discutir futebol e salários de países sem apoios sociais, quando se aperceberam do sem-abrigo que se aproximava, agora mais perto e cambaleante, no meio de um discurso ininteligível.
Responderam-lhe com grunhidos. Mas calaram-se à sua chegada. Por respeito à liberdade do indigente? Ou por falta de sentido da própria existência?
A segunda ponta de cigarro da mão da estranha senhora do robe rosa acabou abandonada no topo de um recipiente de lixo. E assim terminou a minha experiência de hoje, fora do meu casulo de conforto.

 

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