Algarve em tempos de miséria

No tempo da miséria – quando em Tavira se comia dentro da gaveta; e em Boliqueime, quem parasse para pedir água, levava tareia – nas encostas do barrocal, os homens emigravam para a Argentina. Esperavam meses, em desespero, por uma carta de chamada.

Alguém, na Argentina, tinha que declarar que precisava de tantos homens para trabalhar e que se responsabilizava por eles.
A carta de chamada chegou e os homens do meu sítio avançaram, sem medo.

Uma noite, já com a viagem preparada, subiram para carroça e desceram a encosta para apanhar o comboio das 23h55 em Boliqueime. Eram uns dez ou doze, sentados nas tábuas laterais do veículo de tração híbrida.
Ao fundo da ladeira dos Matos, a estrada apresenta uma inflexão em cotovelo, ainda hoje perigosa para os automóveis: a famigerada curva de Alfontes.

A trupe descia embalada ao longo da ladeira, e a velocidade parecia aumentar com a euforia da expectativa de cruzar o Atlântico. Ao chegar à curva, a inércia da barca era máxima. O animal matraqueava o chão com os cascos, puxando o peso rodopiante do atrelado com o cachaço, mas a carroça resvalou e embarrancou. Todo o conjunto adornou e o júbilo por ali ficou.

Os retirantes começaram a recompor-se, e dois deles foram ajudar a mula, que não tinha culpa nenhuma, a levantar-se.
Um ou dois desistiram, e voltaram a pé para trás. Aquilo tinha sido um mau começo da viagem, pensaram, um mau prenúncio.
Os outros – entre eles o José Debrúzias e o João Rita – saltaram para cima do carro e gritaram: “Vamos embora”.

E, no meio daquela epopeia, um deles acrescentou, a pulmões cheios: “Eu já nem sei falar português!”.

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