Mãe II

Foi sempre muito apegada à mãe; e, com o tempo, esse apego só piorou.
Quando a mãe morreu, ficou com as cinzas, para continuar próximo dela.
Mas isso não lhe chegava.
Foi então que teve uma ideia: engolir as cinzas e conseguir o que, em vida, não tinha conseguido: uma união perfeita.

Encostou o copo aos lábios e sugou um golo daquele leite malhado de cinzento.
A mãe completara-a em vida e completava-a, agora, em morta.
O sabor estranho da mistura fê-la recordar momentos antigos – tão antigos quanto opacos – que se foram, aos poucos, tornando evidentes.
Estava sentada numa mesa, em frente a um prato de sardinhas assadas. Detestava sardinhas, mas naquele dia a mãe obrigou-a a comê-las. Chorou, fez birra, empurrou o prato, mas, por fim, lá colocou um lombo de sardinha na boca.
Era isso: o leite com cinzas fazia lembrar-lhe sardinhas assadas…

A cremação tinha sido de manhã, mas só levantou as cinzas à tarde, depois dos trolhas que pintavam o muro do cemitério terem almoçado e despejado as cinzas do almoço num outro monte que por ali estava e ainda fumegava. Sardinhas assadas em lenha ficam muito mais saborosas do que em carvão.

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