O sorriso

Estavam três mulheres na sala de espera do hospital: avó, mãe e filha. Setenta e tal, cinquenta muito sofridos, e dezoito anos. Foram chamadas duas vezes: uma para a triagem, outra para a consulta. A mãe acompanhou a avó – mãe dela – que se deslocava com dificuldade e com uma canadiana. Passaram por mim. A mãe era a mais triste das três, como é normal nos dias que correm. Extremamente magra e com as feições caídas. Roupa velha, coçada e pobre.

Depois de atendidas, a mãe chamou a filha para amparar a avó, enquanto inseria moedas no telefone público, para tentar chamar um táxi.
As moedas entravam e saíam logo de seguida. Tentou talvez cinco vezes antes de eu me oferecer para telefonar, embora eu tivesse sentido vontade de ajudar, logo no primeiro momento, perante aquela imagem de pobreza, escassez e resignação.

Durante a chamada, eu disse à telefonista: “É para três senhoras, mãe, filha, e…”
“E neta”, atalhou ela. Ela considerava-se a filha. Tão querida…

“E neta”, atalhou ela, quando eu me preparava para dizer “e avó”.
Desliguei o telemóvel e disse-lhe: “chega daqui a pouco, é o carro 48”.
“Quanto é o telefonema?”, surpreendeu-me.
Sorri, com um sorriso emocionado: “É grátis”.

Pôs-me a mão no ombro, agradeceu-me e desejou-me bom natal.

Foi a única vez que a vi sorrir.

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