Histórias do Algarve II

Na extremidade oeste da Ria Formosa, um casal chega à praia. Ele, com um ar distinto, de doutor em Direito, e ela calma e assertiva, talvez investigadora científica, ou mesmo chefe de algum centro de investigação. Com alguma dificuldade, ele espeta o chapéu de sol na areia, percebe-se que as habilidades manuais não são o seu forte – nem forte, nem fraco, nem nada – e o chapéu pode cair a qualquer momento.

Pouco depois, chega o filho, atarracado, como o pai, também com cabelo curto, preto e encaracolado, com uma cadeira desmontável, de metal e pano, debaixo de um braço, e um livro, com muitas folhas, na outra mão. Não terá mais de 12 anos – ou talvez uns 14 mal crescidos. Monta a cadeira e senta-se, de calções e polo, à sombra do chapéu instável montado pelo pai, a ler a Guerra e Paz, do Leão Tolstoi, volume I. Na praia, todas as outras crianças chapinham, de calções de banho, à beira da água.

Numa outra ilha da ria, 30 km a leste, dois caminhantes chegam à extremidade nascente e sentam-se à espera da maré vazia para passarem a nado para a ilha seguinte. O sol está a pôr-se e a luminosidade do dia cai a cada instante.

Uma mulher de cabelos pretos desgrenhados, com algumas cãs, e cara com traços vincados, envergando um vestido roxo, de algodão, comprido, surge junto à costa e contorna a extremidade da ilha à frente dos caminhantes. Atrás dela, um miúdo com aspeto enfezado, aparentando ter 12 anos, mas provavelmente com 14 anos mal nutridos, vestido com uma camisola e calças compridas, arrasta uma caixa de madeira vazia – daquelas onde se vende fruta – puxada por uma corda, com os dois braços atrás das costas. E a mulher anuncia, sem parar, mas deslocando-se pesadamente: “O Miguel está disponível para amar”.

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