A ciência ao serviço das trevas

Antes de ontem, no rescaldo do fogo de Monchique, vi um programa de informação na TV, onde estavam dois comentadores. Um deles era cientista, o outro não sei.

O cientista falava bem, de forma segura e convincente, mas era um aldrabão, um aldrabão científico. Um aldrabão que pôs a Ciência ao serviço das trevas.

Começou por dizer que a percentagem de eucaliptos na zona era de 45%, e não da ordem dos 70% como se tinha falado. Mas não disse a que zona se estava a referir, Se à zona ardida, se aos concelhos afetados, à totalidade dos concelhos incluindo o barrocal e o litoral, ou apenas à zona de serra, ou a todo o Algarve.

Depois disse que as várias espécies arderam na mesma proporção que existem no terreno, ou seja, das espécias ardidas, os eucaliptos eram exatamente 45%. E disse-o, enfatizando o facto de que as outras espécies também ardem. Nomeadamente, e isto digo eu, azinheiras, medronheiros, etc. Não falou dos pinheiros, que são resinosas e ardem tão depressa como os eucaliptos. Se tivesse apresentado a soma das percentagens das duas espécies, a coisa teria sido diferente.

Nas imagens que vi na TV durante toda a semana do incêndio, quando mostravam fogo, só vi eucaliptos e pinheiros. São os precursores do fogo: sem eles não há fogo, ou, pelo menos, não há fogo que resista aos bombeiros.

Mas voltando ao “cientista”. Também não falou da rapidez com que umas e outras árvores ardem. Estava nitidamente a defender os eucaliptos. Um fogo com eucaliptos e pinheiros move-se mais depressa, propaga-se à distância.

As folhas dos eucaliptos voam a arder para pegar fogo mais longe. O meu tio, que mora junto da albufeira de Castelo de Bode, viu folhas de eucalipto a voarem em chamas e a passarem a albufeira de um lado ao outro, cerca de 500 metros, levando o fogo à outra margem.

Ainda hoje foi publicada uma notícia no DN que diz que os bombeiros em Marvão usaram folhas de castanheiro, como tapete, para taparem o fogo e passarem por cima dele. “Custam mais a arder”, referiu Paulo Fernandes, docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Havemos de ultrapassar esta tragédia dos fogos intermináveis. Mas precisamos de “exportar” os cientistas vergohosos para um deserto qualquer, para se liofilizarem.

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