Cagada em três atos

ATO I

A Francisca, muito provavelmente pressionada pelo António, que quer desbloquear as relações com Angola – agora aparentemente renovada – e sabendo que um diplomata de outro estado nunca cumprirá pena de prisão em Portugal, mesmo que seja culpado, ameaçou a saída da Joana, com uma leitura artística da Constituição.

Jorge, um constitucionalista incontroverso – meu colega numa escola de Lisboa e que vai a banhos numa praia do norte, como eu de vez em quando – veio refutar a opinião da Francisca, indicando que a Constituição não impõe limites, e, consequentemente, não há limites para a permanência no cargo.

O António calou-se e a Francisca não abriu mais a boca.

Ato II

“Isto não é a da Joana” – é um dito popular muito ouvido. Mas a Joana acha que sim, que é dela. E, vai daí, decidiu fazer-se ouvir e marcar pontos. Escolheu o Mário, que é, aparentemente, o mais frágil e o mais infantil do grupo, e aquele que poderia fazer desmoronar a construção.

O caso mais fácil era um frasco de Nutella que o Mário comprara num hipermercado, e do qual havia imagens de videovigilância. “São 4,99” disse a empregada. O Mário puxou de uma nota de 5 euros e disse “pode ficar com o troco”. A Joana tinha duas hipóteses: acusava-o de suborno de uma empregada do hipermercado, mas faltavam-lhe os benefícios, e, além disso, um cêntimo poderia parecer ridículo, aos olhos da opinião pública; ou então acusava-o de exibicionismo, por dar gorjeta, num clima de tanta precariedade laboral.

O outro caso era mais difícil: os bilhetes do Benfica. O camarote presidencial não tem preço, e isso poderia ser um pau de dois bicos: não tem preço, é “priceless”, ou seja, tem um valor incalculável; ou então, como não se vende, tem preço zero, e era pior ainda que a gorjeta de um cêntimo na compra da Nutella.

Optou por este último, criando algumas sessões de riso por esse mundo fora, quando o objetivo do país é o oposto.

Ato III

O caso chegou, caricatamente ao parlamento europeu, onde o Mário foi defendido, com unhas e dentes, por todo o espetro político português no hemiciclo – bem hajam -, e a Joana, envergonhada, mas saciada de sangue, arquivou o processo.

Não sei o que dizer.

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2918-02-05
O curioso é que ainda ninguém percebeu isto. Ou se percebeu, calou-se. Ontem, no “Eixo do Mal”, um dos participantes – Pedro Marques Lopes – dizia que normalmente o Ministério Público, quando começa uma investigação, informa o Correio da Manhã para que este divulgue ao país. Mas desta vez, segundo ele, foi ao contrário: foi o Correio da Manhã que lançou a dúvida sobre a ida à bola do ministro, e depois o Ministério Público investigou.
Ó Pedro, será que estás a ver bem as coisas? Não terá sido novamente o Ministério Público a pedir ao Correio da Manhã para lançar a primeira bomba?

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