Perú de Natal

Quando eu era puto, não havia perú de natal. Penso que comíamos batatas cozidas… sem casca, porque era festa.
Um dia, o meu pai, que andava no mar, enviou um carbograma à minha mãe: “Compra um perú”. E a minha mãe lá foi à procura de um perú de natal.

Encomendou-o por carta – que na altura não havia telefones – e lá fomos para Lisboa buscar o perú. Saímos cedo no dia anterior, que o caminho ainda era longo. A maior parte do caminho foi a pé, mas às tantas lá apanhámos um táxi – um Ford T, um dos poucos que já circulava pelo macadame da capital.

O perú era coisa de senhoras de Lisboa. Na família, só a minha tia é que já tinha comido perú. Talvez tenha sido por isso que o meu pai cometeu a loucura de encomendar um: não queria ficar atrás.

Não me lembro do sítio exato, talvez Caneças, talvez Pontinha, mas entrámos num edifício escuro e esconso com perús a gorgolejar pelo meio dos semimuros de alvenaria forrados a caca de galináceo: um autêntico aviário do meio do século passado.

A minha mãe entregou a senha e recebeu o perú: o homem, com botas de borracha, com cano pelo joelho, avançou pela merda de perú adentro e trouxe de lá um pelas asas, e foi assim que a minha mãe o recebeu: pelas asas, vivo.

Voltámos para Cacilhas com o perú vivo preso pelas asas, na mão da minha mãe. Metade do caminha a pé, metade de Ford T, metade de barco.

Só chegámos no dia seguinte. O perú cantou e cagou durante todo o tempo. Mas tínhamos perú. Já não éramos plebe: até encomendámos um brazão… com um perú bem ao centro!

Perú de Natal

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