{"id":328,"date":"2007-01-01T17:58:28","date_gmt":"2007-01-01T17:58:28","guid":{"rendered":"http:\/\/inacreditavel.ioio.info\/?p=328"},"modified":"2007-01-01T17:58:28","modified_gmt":"2007-01-01T17:58:28","slug":"the-pink-penguin-iniciando-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=328","title":{"rendered":"The Pink Penguin &#8211; Iniciando 2007&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><strong>The pink penguin.<br \/>\n<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Dedicado ao Borges e \u00e0 Ursula<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A conversa tinha escapado ao meu controle, e tive de o admitir:<\/p>\n<p>-Sim, \u00e9 verdade! Vim \u00e0 consulta para ver se o Sr. Dr. me impedia de dormir. \u00c9 que eu n\u00e3o posso dormir. Se n\u00e3o, n\u00e3o sei o que pode acontecer.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 muito curioso. N\u00e3o me quer dizer mais nada?<\/p>\n<p>Pronto! J\u00e1 estava. Mais outro que n\u00e3o queria acreditar em mim. Mais outro que n\u00e3o me percebia. Come\u00e7avam com estas falinhas mansas e depois procuravam curar-me de doen\u00e7as mentais obscuras, que s\u00f3 eles conheciam, ou piores que essas. Como explicar-lhes que n\u00e3o podia dormir? Como demonstrar-lhes que era um perigo para toda a gente se eu adormecesse novamente. J\u00e1 tinha tentado tudo e mais alguma coisa. Mas que mais podia eu fazer?<\/p>\n<p>De obscuro jovem esot\u00e9rico tinha-me desenvolvido vertiginosamente. Calcorreei paisagens intelectuais desconhecidas de quase todos. Penetrei segredos virgens. Quanta emo\u00e7\u00e3o. Quanta alegria. Que prazeres intelectuais n\u00e3o fru\u00ed nessas vit\u00f3rias antigas. Mas agora, que sufoco. Tinha de conviver com as felizes mem\u00f3rias desses remotos sucessos, e concili\u00e1-las com as amargas responsabilidades das consequ\u00eancias das minhas \u00edntimas descobertas. Tinha-me transformado num consumado heresiarca, perseguido por todas as divindades, concorrente com elas. Nada a minha origem. Tudo o meu destino. O fardo a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sonhar \u00e9 criar, \u00e9 alterar a realidade. Comuto sonhos. E a realidade presente \u00e9 apenas um deles. Quando sonho, o sonho passa a realidade, e a realidade passa a eco long\u00ednquo, sonho componente do novo sonho, da nova realidade emergente. A realidade nasce dos sonhos e aos sonhos \u00e0 de voltar. Como me meti nisto? Como isto me aconteceu?<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou, foi sem querer. Apenas racionalizava a cria\u00e7\u00e3o, a cosmogonia, o Big-Bang. Como apareceu o Universo? O que havia antes? \u00c9 que antes do tempo n\u00e3o havia antes. A cria\u00e7\u00e3o teve de ser um acto ef\u00e9mero de uma divindade eterna, O universo era apenas um ef\u00e9mero, consequente de um eterno. E mais nada! O peso cultural oprimia-me. Legi\u00f5es de antepassados tinham procurado provas da exist\u00eancia do Deus, do Criador, do Garante da exist\u00eancia. O criador eterno. O eterno criador. Sempre a criar.<\/p>\n<p>O segredo era o que todos sab\u00edamos, mas n\u00e3o lig\u00e1vamos. Que o futuro e o passado n\u00e3o existem, s\u00e3o apenas sonhos, mem\u00f3rias, ilus\u00f5es. \u00c9 sempre presente. Estamos sempre no presente. Estamos condenados a existir no presente. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 eterna. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 constante.<\/p>\n<p>O mundo, tudo o que nele existe, todos os f\u00f3sseis, todas as bibliotecas, todas as mem\u00f3rias, todo o universo, foi criado h\u00e1 um instante por uma divindade eterna, intemporal, omnipotente. Tudo o que penso, projecto, recordo, emana desse instante onde tudo acontece, aconteceu e acontecer\u00e1. \u00c9 por isso que s\u00f3 existe presente. Esse \u00e9 o primeiro segredo, que todos sentimos, todos sabemos, mas n\u00e3o ligamos.<\/p>\n<p>O segundo deriva da racionalidade triunfante, que tudo explica. Se tudo \u00e9 causado, se tudo \u00e9 provocado, se tudo se articula de forma determinada, onde est\u00e1 a liberdade? N\u00e3o pode existir, num universo completamente causal. Mas se um fen\u00f3meno, um evento, n\u00e3o \u00e9 causado, como pode acontecer? Como emerge o espont\u00e2neo? Tem de ser criado a partir do nada! Mas isso n\u00e3o pode ser. Isso n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica. Isso \u00e9 um dos atributos do divino. E quanto a n\u00f3s, humanos? Ser\u00e1 que \u00e9 tudo uma fatalidade, pr\u00e9 destinada a acontecer? Ou ser\u00e1 que podemos controlar o destino? Onde est\u00e1 o nosso livre arb\u00edtrio? Ou n\u00e3o existe, ou no mais profundo de n\u00f3s t\u00eam que existir uma centelha do divino, pois de outra forma n\u00e3o poder\u00edamos criar, decidir livremente.<\/p>\n<p>Os segredos s\u00e3o estes. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 constante e eterna, e n\u00f3s podemos participar. Estes s\u00e3o os mist\u00e9rios que nos esperam quando se viaja at\u00e9 ao \u00e2mago.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Desenvolvi-me. Transformei-me num heresiarca, herege supremo para as tristes religi\u00f5es que apenas conhecem a sua verdade. Mas aprofundei o meu dom\u00ednio dos mist\u00e9rios. Desenvolvi aptid\u00f5es, conceitos, termos, linguagens novas. N\u00e3o para comunicar com algu\u00e9m, mas para controlar a cria\u00e7\u00e3o. Escrevi as secretas equa\u00e7\u00f5es onde aparece o f, a probabilidade de cria\u00e7\u00e3o, a constante mais poderosa de toda a f\u00edsica, e que permite deduzir todas as outras, c, h, e<sub>0<\/sub>&#8230;<\/p>\n<p>E onde cheguei? Ao portal dos sonhos. O sonho comanda o desejo, e o desejo \u00e9 a chave do querer, da vontade, do ser.<\/p>\n<p>Sonhei que os pinguins j\u00e1 n\u00e3o eram cor-de-rosa, e pronto. Nunca houve pinguins cor de rosa. Sempre foram de outra cor. Como toda a gente sabe. Sonhei que as zebras tinham riscas, e quando acordei, sempre tinha sido assim, todas as bibliotecas, mem\u00f3rias, culturas, registos o provavam. Alterava a realidade. Deixei, como todos os outros, de apenas alterar a realidade em cada decis\u00e3o, para passar a submet\u00ea-la aos meus sonhos. O universo \u00e9 um dos meus sonhos. E enquanto mantive o equil\u00edbrio on\u00edrico, a harmonia reinou. Tinha roubado o fogo aos deuses.<\/p>\n<p>Mas fui-me cansando. E j\u00e1 n\u00e3o controlo o que sonho. S\u00f3 acordando. Especialmente nos pesadelos. Ultimamente ando com pesadelos. Guerras, cat\u00e1strofes, coisas horr\u00edveis. Mas acordo antes. Ou antes, acordava. Mas os pesadelos est\u00e3o recorrentes, pegajosos, imposs\u00edveis de dissipar. Sonhei com Hitler, com toda uma guerra horr\u00edvel. E n\u00e3o acordei. Ou antes, acordei tarde de mais, como sabem, se acreditam em mim, voc\u00eas que s\u00e3o um produto do meu del\u00edrio. Agora tenho medo de sonhar, de dormir. Quanto mais cansado, piores os pesadelos.<\/p>\n<p>Outros sonham, outros poderes procuram dominar a realidade. Mas \u00e9 o que eu sonho que se torna real. Mas eu n\u00e3o dirijo o que sonho. Apenas o pade\u00e7o, quando n\u00e3o acordo a tempo de o evitar. Quem dirige os meus sonhos? Quem o faz? Quem me controla a mim, criador de realidades?<\/p>\n<p>Outros, que sonham mais forte que eu? Outros, mais l\u00facidos que eu? Mas ser\u00e1 que tamb\u00e9m eles sonham? Ou ser\u00e1 que eles s\u00e3o apenas sonhos, ilus\u00f5es minhas?<\/p>\n<p>Isso j\u00e1 n\u00e3o interessa. Se n\u00e3o sonhar, tudo se evita. A ang\u00fastia do que quero evitar dissipar-se-\u00e1. Estou possu\u00eddo por um pesadelo recorrente, que n\u00e3o me abandona, que n\u00e3o posso ter. \u00c9 a guerra. Vem a\u00ed, como uma chuva fraca e insidiosa que se transforma numa tempestade impar\u00e1vel. \u00c9 como se todo os sonhadores se unissem para me fazer sonhar o que n\u00e3o quero, o que n\u00e3o desejo. Mas estou cansado. Tenho de ir dormir. N\u00e3o sei o que acontecer\u00e1 se n\u00e3o acordar a tempo.<\/p>\n<p>Aqui fica um projecto de sonho. Sonhem-no para ganhar. Ou antes, vou procurar sonhar com ele, quando dentro do pesadelo sonhar que estou a sonhar.<\/p>\n<p>\u00c9 a Lua, est\u00fapidos, a Lua! Sim, a Lua. Quem ganha a guerra \u00e9 quem controla a mobilidade. Houve um tempo que era a p\u00e9. Quem n\u00e3o era detido, quem detia o outro, ganhava. Depois, tivemos a ajuda dos cavalos. Mas tudo cresceu. Os cavalos j\u00e1 n\u00e3o iam a todo o lado. Barcos, a mobilidade era a navega\u00e7\u00e3o. Mas essa \u00e9poca j\u00e1 l\u00e1 vai. Agora \u00e9 preciso controlar os c\u00e9us. Quem os controla, n\u00e3o deixa ningu\u00e9m mexer c\u00e1 em baixo. As \u00f3rbitas ser\u00e3o o pr\u00f3ximo passo, engolido de imediato pela Lua. Quem controlar a Lua, controla as \u00f3rbitas. Quem controlar as \u00f3rbitas controla os c\u00e9us. E quem controlar os c\u00e9us ganha a guerra. Aquela que quer ser sonhada, mas que eu recuso.<\/p>\n<p>Mas estou t\u00e3o cansado&#8230;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The pink penguin. \u00a0 Dedicado ao Borges e \u00e0 Ursula \u00a0 A conversa tinha escapado ao meu controle, e tive de o admitir: -Sim, \u00e9 verdade! Vim \u00e0 consulta para ver se o Sr. Dr. me impedia de dormir. \u00c9 que eu n\u00e3o posso dormir. 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