{"id":23471,"date":"2018-07-13T00:24:54","date_gmt":"2018-07-13T00:24:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23471"},"modified":"2018-07-13T02:59:08","modified_gmt":"2018-07-13T02:59:08","slug":"suspiria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23471","title":{"rendered":"Suspiria"},"content":{"rendered":"<p>Entrei no IST em 1981\/82. No primeiro dia, cheguei mais cedo, e j\u00e1 l\u00e1 estava o Fernando, \u00e0 espera da primeira aula &#8211; de Matem\u00e1tica, com o Campos Ferreira.<\/p>\n<p>O Fernando sofria de parkinsonismo, e tinha uns del\u00edrios, mas tamb\u00e9m uma mente brilhante. No primeiro ano, desenvolveu uma teoria que punha a teoria da relatividade de lado. Apresentou-a ao nosso melhor professor &#8211; o Moura Ramos, professor de Qu\u00edmica &#8211; que o aconselhou a estudar mais e rever as f\u00f3rmulas que tinha escrito. Eu tamb\u00e9m fui um dos revisores, mas aquilo ultrapassava-me &#8211; talvez em paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Entre outras subst\u00e2ncias, o Fernando tomava Leponex &#8211; uma droga que s\u00f3 existia no Hospital J\u00falio de Matos e nos hospitais centrais (o Lexotan e o Xanax [inexistente na altura] eram para meninos de coro) &#8211; que o fazia cair para o ch\u00e3o num minuto. Um dia o Fernando disse-me: &#8220;acabei com a medica\u00e7\u00e3o, deitei os comprimidos todos pela pia abaixo&#8221;. N\u00e3o passou uma semana, come\u00e7ou a tremer, e, pouco depois, j\u00e1 n\u00e3o conseguia escrever, nem pegar numa esferogr\u00e1fica. Come\u00e7ou, inclusive, a ter tend\u00eancias suicidas, quando guiava na autoestrada.<\/p>\n<p>Eu era um f\u00e3 de cinema. Durante dois anos toquei fliscorne (um quase trompete) na banda filarm\u00f3nica da Incr\u00edvel Almadense e tinha livre acesso \u00e0 sala de cinema da associa\u00e7\u00e3o. Entre outras loucuras, vi a &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; quatro vezes no mesmo dia, em sess\u00f5es cont\u00ednuas. Vi tamb\u00e9m um filme\/document\u00e1rio, de culto, do Barbet Schroeder, &#8220;Idi Amin Dada&#8221; (aconselho-vos a lerem a saga da realiza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o deste filme), a &#8220;\u00c1rvore dos Tamancos&#8221; do Ermanno Olmi, entre outras belezas da cinematografia internacional. Em resumo, passava a vida no cinema.<\/p>\n<p>O Fernando n\u00e3o deixou morrer essa minha paix\u00e3o. Era, tamb\u00e9m, um f\u00e3 de cinema, e fui ver, com ele, os filmes mais loucos ao City Cine, ao Quarteto, e em salas improvisadas na noite de Lisboa: &#8220;Sal\u00f3&#8221;, &#8220;Teorema&#8221;, &#8220;Irei Como um Cavalo Louco&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Mais tarde, quando o Fernando desapareceu, continuei a frequentar mais o Quarteto do que as aulas do T\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Mas um dia, ele surgiu com uma hist\u00f3ria estranha. Tinha ido ver o &#8220;Suspiria&#8221;. Lembro-me de ele ter referido as cenas das facadas, do sangue que parecia tinta vermelha, t\u00e3o falso como nos filmes de cowboys dos anos 60, das cenas quase teatrais, a lembrar imita\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias do Manoel de Oliveira&#8230; <\/p>\n<p>Mas o &#8220;Suspiria&#8221; tornou-se um filme de culto. A atriz principal \u00e9 a Jessica Harper, ainda novinha. A Jessica Harper que eu vi no &#8220;Stardust Memories&#8221; do Woody Allen, com a Charlotte Rampling, e que, quando o Woody Allen a convida, ao telefone, para ir dormir com ele, ela responde que n\u00e3o pode porque est\u00e1 com herpes&#8230; nunca mais me esqueci: nem dela, nem do herpes. Mas tamb\u00e9m a vi no filme fant\u00e1stico do Brian de Palma, &#8220;O Fantasma do Para\u00edso&#8221; &#8211; estonteante -, e no &#8220;Inserts&#8221;, passado em tempo real, com o Richard Dreyfuss, e um piano branco, e uma garrafa de whisky, sobre um tipo que filmava intercalados em grande plano, para filmes pornogr\u00e1ficos, no tempo do Clark Gable (que aparece, como personagem, no filme).<\/p>\n<p>Pois&#8230; o &#8220;Suspiria&#8221; passou ontem, 5\u00aa feira, na RTP2, numa c\u00f3pia digital restaurada, a partir de uma pel\u00edcula em mau estado e com fotogramas em falta, fiel \u00e0 cor saturada original. Vale a pena ver. O Fernando tinha raz\u00e3o: as facadas, o sangue, e a encena\u00e7\u00e3o s\u00e3o fraquinhas, mas ainda assim, vale a pena ver. E depois vejam o &#8220;Stardust Memories&#8221; e, principalmente &#8220;O Fantasma do Para\u00edso&#8221;.<\/p>\n<p>Vi o Fernando, muitos anos mais tarde, no s\u00edtio onde morava, muito longe de Lisboa. Congratulei-me por ainda estar vivo. Viva a vida!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrei no IST em 1981\/82. No primeiro dia, cheguei mais cedo, e j\u00e1 l\u00e1 estava o Fernando, \u00e0 espera da primeira aula &#8211; de Matem\u00e1tica, com o Campos Ferreira. O Fernando sofria de parkinsonismo, e tinha uns del\u00edrios, mas tamb\u00e9m uma mente brilhante. 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