{"id":23346,"date":"2017-12-23T02:12:02","date_gmt":"2017-12-23T02:12:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23346"},"modified":"2017-12-23T18:48:24","modified_gmt":"2017-12-23T18:48:24","slug":"abril-de-74","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23346","title":{"rendered":"Abril de 74"},"content":{"rendered":"<p>Umas semanas mais tarde, o meu pai voltou definitivamente para casa. Deixou a vida de embarcadi\u00e7o e foi trabalhar para a Lisnave, como chefe de servi\u00e7os. Todos os meses viajava para fora, para fazer um or\u00e7amento de repara\u00e7\u00e3o de um navio que viria a ser reparado mais tarde. No dia 25 de abril de 74, o meu pai chegou \u00e0 1h da manh\u00e3 ao aeroporto, vindo de Londres, de mais um or\u00e7amento. De manh\u00e3, por volta das 8h, a minha irm\u00e3 Carolina saiu para a escola, enquanto eu ainda dormitava. Entr\u00e1vamos os dois \u00e0 mesma hora na Escola Preparat\u00f3ria Dom Ant\u00f3nio da Costa, mas eu &#8211; que constru\u00eda uma pregui\u00e7a crescente desde o in\u00edcio do ano &#8211; sa\u00eda de casa s\u00f3 no \u00faltimo momento, para dormir o m\u00e1ximo que podia sem chegar atrasado \u00e0 escola.<\/p>\n<p>A minha irm\u00e3 desceu os degraus, do segundo andar onde mor\u00e1vamos e, no primeiro andar, o vizinho Laranjeira abriu a porta e pediu-lhe para chamar o pai. A minha irm\u00e3 &#8211; respondona desde que nasceu &#8211; perguntou-lhe porqu\u00ea. Mas o vizinho Laranjeira &#8211; dono de uma espingardaria em Almada &#8211; era mais respond\u00e3o do que ela e obrigou-a a subir. <\/p>\n<p>A minha irm\u00e3 corrigiu-me, entretanto: &#8220;O vizinho Laranjeira disse-me que eu n\u00e3o podia ir \u00e0 escola porque tinha havido um golpe de estado. Eu, como n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia o que era um golpe de estado, refilei com ele a dizer que ia sim. a\u00ed, ele insistiu para ir buscar os meus pais, e a\u00ed, sim, a hist\u00f3ria \u00e9 como tu contas&#8221;.<\/p>\n<p>Foi a minha m\u00e3e que foi \u00e0 porta e ouviu a not\u00edcia: &#8220;houve um golpe de estado, \u00e9 melhor os seus filhos ficarem em casa&#8221;. Recebi a not\u00edcia com uma felicidade sem par: podia continuar na cama, n\u00e3o tinha que me levantar. Mas pouco depois, est\u00e1vamos todos \u00e0 frente de TV e a ouvir r\u00e1dio \u00e0 espera de not\u00edcias.<\/p>\n<p>Foram uns dias estranhos: as not\u00edcias eram apresentadas por homens com barba e sem gravata. No dia 25 passou m\u00fasica em cima da mira t\u00e9cnica, est\u00e1mos \u00e0s escuras, mas sentia-se uma esperan\u00e7a enorme que foi morrendo com o passar dos anos.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o quente de 75, o meu pai teve que ir a Copenhaga para mais um or\u00e7amento, e pediu-me para ir a Cacilhas buscar um t\u00e1xi. N\u00e3o t\u00ednhamos telefone &#8211; a atribui\u00e7\u00e3o de telefones novos esteve bloqueada em Almada durante anos &#8211; e toda a comunica\u00e7\u00e3o era feita a p\u00e9: pelos meus p\u00e9s.<\/p>\n<p>Era meio dia, e lembro-me que fiz birra, n\u00e3o quis ir. N\u00e3o me lembro dos motivos. O meu pai ficou chateado comigo, na altura, mas pegou na mala e foi a p\u00e9 at\u00e9 Cacilhas para apanhar um t\u00e1xi para o aeroporto. Mais tarde, confessou-me que se sentiu aliviado por eu me ter recusado.<\/p>\n<p>Cacilhas estava tomada pelo COPCON. Havia militares com metralhadoras por todo o lado. O meu pai entrou num t\u00e1xi, com a mala de viagem, e saiu a caminho de Lisboa. Tinha andado talvez vinte metros quando algu\u00e9m gritou: &#8220;vai ali um a fugir&#8221;. Os militares apontaram as metralhadoras e mandaram parar o t\u00e1xi&#8230;<\/p>\n<p>Somos um pa\u00eds de brandos costumes? Ou somos uns tipos sensatos e conscientes? O que eu sei \u00e9 que n\u00e3o dispararam sobre o meu pai e, depois dele explicar o que ia fazer, deixaram-no ir embora.<\/p>\n<p>Se tivesse sido de outra forma, talvez eu me tivesse tornado jornalista n&#8217;O Diabo, e, em vez do Paulo Portas &#8211; um puto da minha idade -, teria sido eu o presidente do CDS, ou dum movimento qualquer mais \u00e0 direita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Umas semanas mais tarde, o meu pai voltou definitivamente para casa. Deixou a vida de embarcadi\u00e7o e foi trabalhar para a Lisnave, como chefe de servi\u00e7os. 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