{"id":23337,"date":"2017-12-20T19:21:16","date_gmt":"2017-12-20T19:21:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23337"},"modified":"2017-12-21T08:19:04","modified_gmt":"2017-12-21T08:19:04","slug":"maio-de-73","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=23337","title":{"rendered":"Maio de 73"},"content":{"rendered":"<p>Primeiro de maio de 1973. Sa\u00ed da escola &#8211; a preparat\u00f3ria Dom Ant\u00f3nio da Costa, em Almada &#8211; e, do outro lado da estrada, o descampado seco e ocre &#8211; onde hoje \u00e9 o F\u00f3rum Romeu Correia -, por entre as poucas papoilas e malmequeres, estava salpicado por folhetos de papel branco, de tamanho A6, com conte\u00fados subversivos, mas disso eu n\u00e3o me apercebi na altura.<\/p>\n<p>Havia quatro vers\u00f5es diferentes; eu era um colecionador &#8211; ainda n\u00e3o me livrei completamente desse h\u00e1bito &#8211; e recolhi-as todas. J\u00e1 n\u00e3o tenho os folhetos, n\u00e3o vos posso mostr\u00e1-los, mas diziam algo do tipo &#8220;independ\u00eancia das col\u00f3nias&#8221; ou &#8220;liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As col\u00f3nias s\u00e3o nossas&#8221;, pensei eu, na minha ingenuidade de pouco mais de dez anos e meio, num tempo em que a televis\u00e3o era uma uma atividade artesanal, os autom\u00f3veis s\u00f3 para os ricos, e n\u00f3s jog\u00e1vamos \u00e0 bola, ao alho, e ao berlinde \u00e0 vontade, na rua, enquanto as ovelhas pastavam numa calmaria silenciosa, nos montes em frente a casa, logo ali.<\/p>\n<p>Meti os folhetos na mochila, que era uma pasta de cabedal pendurada, com al\u00e7as, nos ombros, e segui para casa com os meus colegas. <\/p>\n<p>O percurso at\u00e9 casa eram cerca de novecentos metros. Pelo caminho, iam ficando alguns colegas, e o  An\u00edbal, que morava na Rua Comandante Ant\u00f3nio Feio, era o \u00fanico que me acompanhava, \u00e0quela hora antes do almo\u00e7o, quando se ouviu um estrondo enorme, vindo de Lisboa.<\/p>\n<p>&#8220;Foi o meu irm\u00e3o&#8221;, disse ele, &#8220;foi p\u00f4r uma bomba a Lisboa&#8221;. Bombas, folhetos subversivos, eram s\u00f3 novidades para mim. O An\u00edbal era mais velho que eu um ano, e de uma fam\u00edlia com dificuldades. O irm\u00e3o j\u00e1 tinha sido preso por mot\u00edvos pol\u00edticos e nunca lhe vi o pai. Era repetente, e a professora de portugu\u00eas &#8211; a diretora de turma, L\u00facia Farrusco &#8211; tinha-me incumbido de lhe dar explica\u00e7\u00f5es de matem\u00e1tica, o que eu fazia uma tarde por semana. Morava num pr\u00e9dio velho que j\u00e1 n\u00e3o existe numa rua de Cacilhas, num primeiro andar, cujo acesso era feito por uma escada de pedra exterior e muito estreita.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?attachment_id=23338\" rel=\"attachment wp-att-23338\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2017\/12\/anibal-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"630\" class=\"aligncenter size-large wp-image-23338\" srcset=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2017\/12\/anibal.jpg 1024w, http:\/\/www.inacreditavel.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2017\/12\/anibal-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.inacreditavel.pt\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2017\/12\/anibal-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um dia, o An\u00edbal vendeu-me uma caneta de ouro por vinte escudos. Tirei o dinheiro do mealheiro e levei-lho no dia seguinte. A caneta era mesmo bonita, nunca tinha tido nada assim. Levei-a para a escola e passei a escrever com ela nas aulas. Numa aula de portugu\u00eas, enquanto escrevia, o Viana levantou-se e tirou-me a caneta da m\u00e3o. Reclamei. a professora interveio e esclareceu as coisas.  An\u00edbal tinha roubado a caneta ao Viana e vendeu-ma. Ficou determinado que o An\u00edbal me deveria devolver o dinheiro. Na aula seguinte, a professora perguntou-me se ele j\u00e1 me tinha devolvido os vintes escudos. Eu disse que sim, mas nunca os recebi.<\/p>\n<p>Cheguei a casa e mostrei os folhetos sobre a liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias \u00e0 minha m\u00e3e. O meu pai era embarcado e s\u00f3 vinha a casa de seis em seis semanas. A minha m\u00e3e era uma miudinha, com ar ing\u00e9nuo, tinha estudado num col\u00e9gio de freiras, e tinha que aguentar a casa, comigo e mais os meus tr\u00eas irm\u00e3os, na aus\u00eancia do meu pai. Mostrei-lhe os folhetos e ela disse: &#8220;deita j\u00e1 isso fora&#8221;. A rea\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o brusca e exaltada que eu fiz-lhe a vontade. N\u00e3o foi logo, porque eu queria guardar aqueles achados t\u00e3o estranhos, provocat\u00f3rios e incompreens\u00edveis, e ainda os tive no quarto at\u00e9 ao fim do dia. Mas ao cair da noite fui p\u00f4-los no balde do lixo.<\/p>\n<p>Nesse dia, enquanto jant\u00e1vamos, ouviu-se o estrondo de mais uma bomba que rebentou em Lisboa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro de maio de 1973. 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