{"id":19346,"date":"2012-11-10T17:31:20","date_gmt":"2012-11-10T17:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=19346"},"modified":"2012-11-10T17:38:22","modified_gmt":"2012-11-10T17:38:22","slug":"mitt-romney-e-a-realidade-dos-factos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=19346","title":{"rendered":"Mitt Romney e a realidade dos factos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/publico.pt\/ProjectSyndicate\/Jonathan%20Schell\/mitt-romney-e-a-realidade-dos-factos-1571733\"><strong>Mitt Romney e a realidade dos factos<\/strong><br \/>\n<\/a><br \/>\n Por Jonathan Schell<\/p>\n<p>Est\u00e1 actualmente em curso nos Estados Unidos uma esp\u00e9cie de guerra entre a realidade e a fantasia. A reelei\u00e7\u00e3o do Presidente Barack Obama marcou uma vit\u00f3ria, limitada mas inconfund\u00edvel, da realidade dos factos.<\/p>\n<p>Nos dias que antecederam as elei\u00e7\u00f5es presidenciais dos Estados Unidos, os acontecimentos proporcionaram uma imagem dram\u00e1tica da luta. Os assessores principais do candidato republicano Mitt Romney estavam convictos de que este estava na imin\u00eancia da vit\u00f3ria. Esta opini\u00e3o n\u00e3o tinha por base os resultados das sondagens. No entanto, a convic\u00e7\u00e3o tornou-se t\u00e3o forte que os assessores de Romney come\u00e7aram a trat\u00e1-lo por &#8220;Sr. Presidente&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o facto de desejarem que esse facto fosse verdade n\u00e3o foi o suficiente para torn\u00e1-lo numa realidade. Isto foi o mais pr\u00f3ximo que Romney esteve de ser Presidente e, ao que parece, o candidato quis aproveitar a situa\u00e7\u00e3o enquanto p\u00f4de, ainda que prematuramente. Ent\u00e3o, na noite das elei\u00e7\u00f5es, quando as redes de televis\u00e3o previram a derrota de Romney em Ohio e, por conseguinte, a reelei\u00e7\u00e3o de Barack Obama, a campanha de Romney, continuando a negar a realidade, recusou-se a aceitar o resultado. Passou-se uma hora &#8220;dif\u00edcil&#8221; at\u00e9 que o candidato aceitasse a realidade e fizesse um af\u00e1vel discurso de concess\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta nega\u00e7\u00e3o da realidade tem sido a imagem de marca n\u00e3o s\u00f3 da campanha republicana, como de todo o partido republicano, nos \u00faltimos tempos. Quando, em Outubro, o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou um relat\u00f3rio, que indicava que a taxa de desemprego nacional se mantinha &#8220;num valor praticamente inalterado de 7,9%&#8221;, os agentes republicanos tentaram desacreditar o altamente conceituado BLS. Quando as sondagens mostraram que Romney estava a ficar para tr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao Presidente Barack Obama, tentaram desacreditar as sondagens. Quando o Servi\u00e7o de Investiga\u00e7\u00e3o do Congresso (SIC), uma entidade n\u00e3o partid\u00e1ria, informou que um plano fiscal republicano em nada contribuiria para promover o crescimento econ\u00f3mico, os senadores republicanos for\u00e7aram o SIC a retirar o seu relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Esta recusa em aceitar as evid\u00eancias reflecte um padr\u00e3o ainda mais amplo. Cada vez mais, o Partido Republicano, em tempos um partido pol\u00edtico bastante normal, arroga o direito de viver numa realidade alternativa \u2013 um mundo no qual George W. Bush encontrou realmente as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa que julgava estarem no Iraque; as redu\u00e7\u00f5es dos impostos acabam com os d\u00e9fices or\u00e7amentais; Obama, al\u00e9m de ser mu\u00e7ulmano, nasceu no Qu\u00e9nia e, portanto, dever\u00e1 ser exclu\u00eddo da presid\u00eancia e o aquecimento global \u00e9 uma farsa inventada por um bando de cientistas socialistas. (Os democratas, por sua vez, tamb\u00e9m puseram um p\u00e9 no plano do irreal.)<\/p>\n<p>De todas as convic\u00e7\u00f5es irrealistas dos republicanos, a nega\u00e7\u00e3o completa das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas devido \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do homem foi certamente a que teve consequ\u00eancias mais s\u00e9rias. Afinal de contas, se n\u00e3o for devidamente controlado, o aquecimento global tem potencial para degradar e destruir as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que est\u00e3o na base e que tornaram poss\u00edvel a ascens\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o humana ao longo dos \u00faltimos dez mil\u00e9nios.<\/p>\n<p>Enquanto governador de Massachusetts, Romney mostrou que acreditava na realidade do aquecimento global. Como candidato presidencial, no entanto, juntou-se aos negacionistas \u2013 uma mudan\u00e7a que ficou clara quando, em Agosto, aceitou a nomea\u00e7\u00e3o do partido em Tampa, na Florida. &#8220;O Presidente Obama prometeu come\u00e7ar a abrandar o aumento do n\u00edvel dos oceanos&#8221;, disse Romney \u00e0 conven\u00e7\u00e3o republicana, fazendo de seguida uma pausa com um sorriso de expectativa como o de um comediante que espera que o p\u00fablico perceba a piada.<\/p>\n<p>E o p\u00fablico percebeu. Houve um crescendo de gargalhadas. Romney aproveitou este crescendo e rematou: &#8220;E curar o planeta&#8221;. O p\u00fablico delirou. Foi, talvez, o momento mais marcante e lament\u00e1vel numa campanha igualmente lament\u00e1vel \u2013 um momento que est\u00e1 destinado \u00e0 notoriedade indel\u00e9vel no que a hist\u00f3ria escrever\u00e1 sobre o esfor\u00e7o da humanidade no sentido de preservar um planeta habit\u00e1vel.Houve uma sequela surpreendente. Oito semanas mais tarde, o furac\u00e3o Sandy atingiu a costa de New Jersey e a cidade de Nova Iorque. A subida das \u00e1guas, que atingiu os 4,2 metros, foi coadjuvada pelo aumento do n\u00edvel do mar que j\u00e1 se faz sentir, em consequ\u00eancia de um s\u00e9culo de aquecimento global e a extens\u00e3o e a intensidade da tempestade foram alimentadas pelo aumento da temperatura das \u00e1guas do mar de um planeta em aquecimento. Essa mar\u00e9 de realidade \u2013 que Alexander Solzhenitsyn designou como &#8220;o p\u00e9 de cabra impiedoso dos acontecimentos&#8221; \u2013 rebentou a bolha da campanha de Romney, fragmentando as suas paredes de forma t\u00e3o categ\u00f3rica como as da baixa de Manhattan e de Far Rockaway.<\/p>\n<p>Na disputa entre a realidade e a fantasia, subitamente a realidade tinha um aliado poderoso. O mapa pol\u00edtico foi redesenhado de forma subtil, mas consequente. Obama entrou em ac\u00e7\u00e3o, desta vez n\u00e3o como um mero candidato question\u00e1vel, mas como um Presidente fi\u00e1vel, cujo apoio era extremamente necess\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o afectada da Costa Leste. Tal como mostraram as sondagens, oito em cada dez eleitores avaliaram de forma positiva o seu desempenho e muitos declararam que essa opini\u00e3o influenciou o seu voto.<\/p>\n<p>Numa surpreendente reviravolta de forte impacto pol\u00edtico, o governador de New Jersey, Chris Christie, que tinha sido o orador principal na conven\u00e7\u00e3o republicana em que Romney tinha tro\u00e7ado dos perigos do aquecimento global, acabou por fazer parte daqueles que ficaram bem impressionados com o desempenho de Obama, e afirmou-o publicamente.<\/p>\n<p>O mundo pol\u00edtico norte-americano \u2013 n\u00e3o s\u00f3 os republicanos, mas tamb\u00e9m os democratas (embora em menor escala) \u2013 tinha ignorado realidades enormes e aterradoras. Mas essas realidades, como se estivessem atentas, ripostaram e entraram em campo. Votaram cedo e podem muito bem ter influenciado o resultado. A Terra falou e os norte-americanos, desta vez, ouviram.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Teresa Bettencourt\/Project Syndicate<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mitt Romney e a realidade dos factos Por Jonathan Schell Est\u00e1 actualmente em curso nos Estados Unidos uma esp\u00e9cie de guerra entre a realidade e a fantasia. A reelei\u00e7\u00e3o do Presidente Barack Obama marcou uma vit\u00f3ria, limitada mas inconfund\u00edvel, da realidade dos factos. 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