{"id":19161,"date":"2012-09-08T23:53:40","date_gmt":"2012-09-08T23:53:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=19161"},"modified":"2012-09-08T23:53:40","modified_gmt":"2012-09-08T23:53:40","slug":"parque-de-campismo-da-caparica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=19161","title":{"rendered":"Parque de Campismo da Caparica"},"content":{"rendered":"<p>Segue um artigo do P\u00fablico, a n\u00e3o perder<\/p>\n<p>Acamp\u00e1mos uma semana no Parque de Campismo da Caparica. Para quem v\u00ea de fora, o enorme recinto parece um campo de refugiados, um bairro da lata ou uma penitenci\u00e1ria. Na realidade, s\u00e3o duas mil habita\u00e7\u00f5es rudimentares pertencentes aos s\u00f3cios do CCCA, encavalitadas umas em cima das outras num terreno p\u00fablico de 12 hectares. Campistas s\u00f3 havia um: o rep\u00f3rter da revista 2. TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA 2, DE 26 DE AGOSTO DE 2012<\/p>\n<p>Entrei na recep\u00e7\u00e3o, tirei uma senha, e quando chegou a minha vez disse \u00e0 jovem no guich\u00ea que queria acampar.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 com carta de campista\u201d, objectou ela. \u201c\u00c9 s\u00f3cio do CCCA [Clube de Campismo do Concelho de Almada]?\u201d Se n\u00e3o, teria de me fazer s\u00f3cio de outro clube, o Benfica ou o Sporting, sugeriu, para requisitar a carta de campista.<\/p>\n<p>\u201cPor que n\u00e3o do pr\u00f3prio CCCA?\u201d, alvitrei. Dif\u00edcil. S\u00f3 se um s\u00f3cio me propusesse, e ele precisaria de me conhecer bem. Depois, a proposta seria afixada 15 dias, durante os quais qualquer s\u00f3cio teria oportunidade de aduzir objec\u00e7\u00f5es \u00e0 minha entrada no clube. No caso de n\u00e3o haver nenhuma, o requerimento subiria \u00e0 direc\u00e7\u00e3o. Quando houvesse oportunidade, o presidente do conselho director reunir-se-ia com o secret\u00e1rio do conselho, para apreciarem o pedido. A decis\u00e3o dependeria ent\u00e3o de factores como a antiguidade do s\u00f3cio proponente, a idoneidade e o comportamento desse s\u00f3cio, bem como de uma avalia\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do candidato. Al\u00e9m de tudo isto, a admiss\u00e3o de s\u00f3cios est\u00e1 interrompida, por decis\u00e3o especial da direc\u00e7\u00e3o, de 1 de Julho a 12 de Agosto.<\/p>\n<p>\u201cVejo que n\u00e3o me querem mesmo como s\u00f3cio do clube\u201d, conclu\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cO Benfica ou o Sporting\u201d, voltou a aconselhar a funcion\u00e1ria, sem qualquer express\u00e3o.<\/p>\n<p>Optei pelo Autom\u00f3vel Clube de Portugal, atrav\u00e9s do qual obtive a carta de campista. Apresentei-me no Parque da Caparica com o prestigioso documento. Surpresa: n\u00e3o havia vagas. Tamb\u00e9m n\u00e3o era poss\u00edvel fazer reservas. Era chegar e confiar na sorte. Ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas, havia finalmente um lugar: o n\u00famero 800. Fui autorizado a v\u00ea-lo, embora o motivo da gentileza da funcion\u00e1ria fosse \u00f3bvio: acreditava que eu odiaria o s\u00edtio e iria embora. Afinal era pior: eu realmente odiei aquele cotovelo de areia suja atrofiado entre a casa de banho e tr\u00eas roulottes, mas quando regressei \u00e0 recep\u00e7\u00e3o para dizer que o aceitava, j\u00e1 tinha sido ocupado.<\/p>\n<p>A minha sorte foi ter percebido que um casal de franceses, na \u00fanica zona realmente reservada a tendas (com capacidade para quatro), se preparava para partir. Falei com eles e fiquei \u00e0 espera que desmontassem a tenda, em cujo lugar armei a minha, um pequeno igl\u00f4 de 35 euros. Quando fui registar-me, o facto estava consumado. Atribu\u00edram-me o n\u00famero 3009, mediante o pagamento de duas noites em avan\u00e7o: uma tenda e um campista, sete euros e dez c\u00eantimos por noite. Se incluirmos o carro, estacionado \u00e0 porta da tenda, custa mais quatro euros por noite. Nada mau, para uma resid\u00eancia em cima da praia.<\/p>\n<p>(<a href=\"http:\/\/static.publico.pt\/docs\/sociedade\/parquecampismocaparica\/\">A REPORTAGEM FOTOGR\u00c1FICA DE ENRIC VIVES-RUBIO: CLIQUE AQUI<\/a>)<\/p>\n<p>Antes de sair da recep\u00e7\u00e3o reparei num pormenor: havia v\u00e1rios impressos dispon\u00edveis num placard. Um para a proposta de novo s\u00f3cio, outros para inscri\u00e7\u00e3o nos v\u00e1rios torneios e um para\u2026 pedido de autoriza\u00e7\u00e3o para obras! Obras numa tenda? Decidi n\u00e3o fazer mais perguntas e dirigi-me ao meu alv\u00e9olo.<\/p>\n<p>O local, na chamada Zona Verde, ficava junto \u00e0 porta de sa\u00edda para o areal, j\u00e1 em cima das dunas. O meu primeiro acto como campista foi sair pela porta, apresentando ao guarda o cart\u00e3o de utente do parque, para ir dar um mergulho no mar. A \u00e1gua estava morna e transparente, e a multid\u00e3o de banhistas dispersava-se pelo imenso areal.<\/p>\n<p>Voltei, apresentando o cart\u00e3o ao guarda, tomei um duche e sentei-me \u00e0 porta do igl\u00f4 a observar o parque. O recinto tem uma \u00e1rea de 12 hectares e \u00e9 cercado por um muro alto, encimado por arame farpado. Ao centro, h\u00e1 uma larga avenida, com um parque de estacionamento em espinha entre duas filas com 25 enormes bungalows brancos e novos: as Unidades Complementares de Alojamento.<\/p>\n<p>Para cada um dos lados da avenida (a que os locais chamam a \u201cespinha\u201d), estendem-se os dois mil alv\u00e9olos, constitu\u00eddos por uma roulotte e um avan\u00e7ado. S\u00e3o todos id\u00eanticos e distam entre si, na maior parte das zonas, cerca de um metro, ou menos. A maioria dos alv\u00e9olos, ou \u201cunidades de alojamento\u201d, est\u00e1 cercada por outros alv\u00e9olos por todos os lados, ou tem a entrada voltada para um \u201ccarreiro\u201d, uma esp\u00e9cie de rua com pouco mais de um metro de largura. Por esse motivo, quando um campista pretende retirar a sua roulotte (o que \u00e9 raro acontecer), a opera\u00e7\u00e3o tem de ser efectuada com uma grua. No momento havia, segundo a direc\u00e7\u00e3o, cerca de sete mil pessoas no parque. Na sua esmagadora maioria, s\u00f3cios do CCCA, uma vez que s\u00f3 eles t\u00eam acesso ao recinto, com excep\u00e7\u00e3o da Zona Verde, onde, na pr\u00e1tica, como pude confirmar, s\u00f3 h\u00e1 lugar para quatro tendas pequenas. O resto da Zona Verde est\u00e1 ocupado em perman\u00eancia (durante meses ou anos) por tendas grandes pertencentes a s\u00f3cios.<\/p>\n<p>Do meu observat\u00f3rio foi desde logo evidente que os campistas cumprem rotinas muito semelhantes: de manh\u00e3 v\u00e3o \u00e0 praia; entre as 12h e as 13h voltam para o almo\u00e7o, que dura entre tr\u00eas e quatro horas e consiste em churrascos de peixe confeccionados no grelhador a carv\u00e3o, que todos t\u00eam \u00e0 porta do alv\u00e9olo; a seguir (geralmente), as mulheres v\u00e3o lavar a loi\u00e7a (os homens tiveram a cargo o barbecue); praia outra vez, n\u00e3o por muito tempo; \u00e0s 17h30 \u00e9 preciso regressar para lavar os carac\u00f3is do lanche; \u00e0 noite, outra vez churrasco, mas agora de carne: febras, costeletas ou entrecosto; mais tarde, \u00e9 a hora dos petiscos e das festas. Tanto ao almo\u00e7o como ao jantar, \u00e9 frequente ver dez ou vinte pessoas \u00e0 mesa, pois os amigos ou familiares convidam-se uns aos outros.<\/p>\n<p>Nos tempos interm\u00e9dios, h\u00e1 jogos \u2014 v\u00f3lei, b\u00e1squete ou andebol para os mais novos, cartas, domin\u00f3 ou malha para os homens mais velhos. As mulheres cuidam das plantas ou frequentam aulas de gin\u00e1stica r\u00edtmica ou dan\u00e7a hip-hop.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam passatempos num parque que tem dois campos de jogos, um anfiteatro para \u201cfogo de campo\u201d, v\u00e1rios parques infantis, um sal\u00e3o de conv\u00edvio, salas de bilhar, matrecos e pingue-pongue, aulas de gin\u00e1stica e dan\u00e7a, teatro, bailes, campeonatos de BTT, torneios de sueca, aulas de inform\u00e1tica para idosos, uma biblioteca, um centro de juventude, dois restaurantes, tr\u00eas caf\u00e9s, tr\u00eas supermercados, um talho, uma peixaria e at\u00e9 uma roulotte de farturas. Tudo parece correr bem, todos andam felizes e todos se tratam por &#8220;companheiro&#8221;.<\/p>\n<p>Reparei, no entanto, que uma grande quantidade de homens com walkie-talkies circula pelo parque. Uns vestem a farda da empresa de seguran\u00e7a Vigiexpert, outros andam \u00e0 paisana.<\/p>\n<p>O tratamento por \u201ccompanheiro\u201d n\u00e3o me pareceu um gesto de hipocrisia. A afabilidade, a toler\u00e2ncia e o aux\u00edlio entre os campistas s\u00e3o evidentes. Na minha segunda noite resolvi sair, levando o carro. Quando voltei, pouco depois das 22h, havia uma fila intermin\u00e1vel \u00e0 entrada. \u201cN\u00e3o h\u00e1 lugar para mais carros\u201d, explicou-me um dos homens com walkie-talkie.<\/p>\n<p>\u201cMas eu paguei por um lugar de carro\u201d, protestei.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o importa. Quando o limite de carros \u00e9 atingido [700, vim a saber], n\u00e3o entram mais. \u00c9 preciso esperar at\u00e9 que saia algum.\u201d<\/p>\n<p>Esperei uma hora e consegui entrar, \u00e0 tangente. Porque, \u00e0 meia-noite em ponto, quem n\u00e3o entrou fica de fora. Os port\u00f5es fecham-se e \u00e9 preciso estacionar na estrada. \u201cCompanheiro, lamento, n\u00e3o entra mais ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>\u201cOK, companheiro. At\u00e9 amanh\u00e3.\u201d Nem um protesto.<\/p>\n<p>No dia seguinte, fui a Lisboa. Dormi em casa e regressei ao parque, n\u00e3o de carro, mas de bicicleta. Entrei alegremente, exibindo o cart\u00e3o, \u201cboa tarde, companheiro\u201d, pedalei em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 minha tenda. Passavam cinco minutos das 20h. Ouvi algu\u00e9m gritar atr\u00e1s de mim. \u201cEi! Desmonte! J\u00e1 passa das oito horas!\u201d Olhei em redor, ostensivamente. Autom\u00f3veis circulavam em todas as direc\u00e7\u00f5es, dentro do parque. Faziam-no permanentemente, at\u00e9 \u00e0 meia-noite. \u201cOs carros podem circular e as bicicletas n\u00e3o?\u201d, balbuciei. \u201cOrdens!\u201d Obedeci. Comportei-me sempre como um companheiro exemplar, e por isso n\u00e3o merecia o que me fizeram a seguir.<\/p>\n<p>Como s\u00f3 tinha pago duas noites, ao terceiro dia fui \u00e0 recep\u00e7\u00e3o para liquidar mais cinco. Que n\u00e3o, declarou o funcion\u00e1rio. Pagaria a totalidade no fim. Regressei descansado ao alv\u00e9olo, que estava um forno sob a torreira do sol.<\/p>\n<p>\u201cBoa tarde, companheiro\u201d, cantarolei ao porteiro, quando sa\u00ed para a praia.<\/p>\n<p>\u201cTenha cuidado. Olhe que vieram a\u00ed para lhe desmontar o material\u201d, disse ele. Mas s\u00f3 percebi que falava a s\u00e9rio quando, no regresso, declarou, agora num tom realmente dram\u00e1tico: \u201cTenho ordens para lhe apreender o cart\u00e3o.\u201d Deveria dirigir-me imediatamente \u00e0 secretaria, onde a documenta\u00e7\u00e3o me seria devolvida. L\u00e1 obedeci, como sempre. A meio do caminho, fiz um desvio para ir \u00e0 casa de banho. Imediatamente surgiu atr\u00e1s de mim um seguran\u00e7a de bicicleta, em pedalada de grande urg\u00eancia: \u201c\u00c9 o senhor da tenda 3009? Tem de se dirigir imediatamente \u00e0 recep\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstou a caminho, mas vou s\u00f3 \u00e0 casa de banho\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o pode. H\u00e1 uma casa de banho na recep\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, o senhor [j\u00e1 n\u00e3o era um companheiro] nem devia estar no parque, porque n\u00e3o pagou. Tenho ordens para o levar imediatamente \u00e0 recep\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPor que me est\u00e1 a tratar dessa maneira? Quem deu essas ordens?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o lhe posso dizer de onde v\u00eam as ordens\u201d, disse o seguran\u00e7a, assumindo um ar de agente secreto. \u201c\u00c9 que n\u00e3o lhe vou mesmo dizer de onde v\u00eam as ordens\u201d, sublinhou, dando a entender que nem sob tortura revelaria a fonte.<\/p>\n<p>Na recep\u00e7\u00e3o, foi-me explicado que, como s\u00f3 tinha pago duas noites, n\u00e3o podia estar no parque. Que me tinham procurado, como n\u00e3o me encontraram, tinham dado ordens para desmontar o material. Que o material n\u00e3o podia ficar abandonado, sem o campista l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Perguntei se podia abandonar o \u201cmaterial\u201d para ir \u00e0 praia. Que sim, \u201cmas s\u00f3 se tiver pago todas as noites\u201d. Argumentei que tentara pagar, mas s\u00f3 acreditaram quando o pr\u00f3prio funcion\u00e1rio respons\u00e1vel pela informa\u00e7\u00e3o errada o veio confirmar.<\/p>\n<p>L\u00e1 paguei e ouvi um pirr\u00f3nico pedido de desculpas, mas se at\u00e9 ent\u00e3o era olhado com desconfian\u00e7a, agora era visto como um intruso.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, n\u00e3o percebi qual era o meu crime. Mas aos poucos ia ficando claro por que raz\u00e3o era considerado persona non grata: \u00e9 que, entre as sete mil pessoas daquele parque de campismo, eu era o \u00fanico campista.<\/p>\n<p>A maior parte das fam\u00edlias do Parque da Caparica \u00e9 composta por tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, sendo que a do meio \u00e9 a menos representada. Av\u00f3s e netos constituem os aglomerados t\u00edpicos, uns reformados e outros estudantes, porque as f\u00e9rias aqui s\u00e3o longas \u2014 cinco meses, pelo menos. No resto do ano, um campista admitiu que vem todos os fins-de-semana. Sendo que este come\u00e7a na quinta-feira e termina na ter\u00e7a. \u201c\u00c0 quarta vou a casa para ver o correio.\u201d dam felizes e todos se tratam por \u201ccompanheiro\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente que fica mesmo aqui o ano inteiro. O car\u00e1cter permanente da ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel nos pavimentos das tendas \u2014 de tijoleira, azulejos ou soalho flutuante \u2014, nos arbustos, nas heras, e mesmo \u00e1rvores de fruto que adornam muitos alv\u00e9olos, na mob\u00edlia e nos electrodom\u00e9sticos que os recheiam.<\/p>\n<p>Todas as tendas t\u00eam fog\u00e3o, forno, microondas, frigor\u00edfico, televis\u00e3o com servi\u00e7o Meo ou Zon, com antena parab\u00f3lica, computador com Internet wi-fi, aquecedores, ventoinhas, sof\u00e1s, c\u00f3modas, mesas, camas, roupeiros. Nalgumas \u00e9 poss\u00edvel ver mesas de sala de vidro, candeeiros arte-nova, lustres. Tudo atafulhado num espa\u00e7o ex\u00edguo para uma vivenda de f\u00e9rias, ainda que enorme para uma tenda. Na realidade, cada alv\u00e9olo \u00e9 composto por uma roulotte e um avan\u00e7ado de lona, com uma cobertura de pano amarelo sobre o conjunto. Na roulotte ficam os quartos, no avan\u00e7ado a sala, funcionando a cozinha numa pequena tenda \u00e0 parte, sob a mesma cobertura. Mas \u00e9 frequente haver mais um ou dois quartos no avan\u00e7ado, e na roulotte terem sido montados beliches. Ali\u00e1s, diz-se que alguns campistas escavaram o ch\u00e3o por baixo da tenda, para abrirem mais um piso, reservado a adega, arruma\u00e7\u00f5es ou mesmo quarto de dormir. N\u00e3o consegui confirmar isto. Os directores garantiram-me que \u00e9 uma lenda.<\/p>\n<p>Nas unidades maiores, o propriet\u00e1rio pode dar-se ao luxo de abrir parte da lona do avan\u00e7ado, transformando esse espa\u00e7o numa esplanada. Isto se tem a sorte (ou o privil\u00e9gio) de ter um alv\u00e9olo voltado para uma das ruas. Se estiver encravado entre centenas de outros alv\u00e9olos, com uma dist\u00e2ncia de meio metro entre cada um, a esplanada daria para o quarto do vizinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, \u00e9 por vezes nestes \u201cbairros\u201d impenetr\u00e1veis que a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. Veja-se a festa do Carreiro da Alegria.<\/p>\n<p>No parque do CCCA h\u00e1 festas em todas as noites de Ver\u00e3o. Algumas realizam-se nos restaurantes, de s\u00fabito transformados em bo\u00eetes, no sal\u00e3o de conv\u00edvio, nos campos de jogos ou no \u201cfogo de campo\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio pedir licen\u00e7a \u00e0 direc\u00e7\u00e3o do parque, que a concede na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o haver duas festas na mesma noite, para evitar concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Se, por exemplo, h\u00e1 uma sess\u00e3o das Noites Tropicais no P\u00e9rola do Oceano, o restaurante Parque, atribu\u00eddo a outro concession\u00e1rio, no extremo oposto do recinto, n\u00e3o pode dar festa nessa noite. Talvez para compensar os preju\u00edzos resultantes desta pol\u00edtica econ\u00f3mica de \u201cregula\u00e7\u00e3o de Estado\u201d, o P\u00e9rola aposta forte no com\u00e9rcio informal. Para se conseguir um recibo \u00e9 preciso chamar o patr\u00e3o e ouvir uma descompostura.<\/p>\n<p>Mas na organiza\u00e7\u00e3o da festa ficou de lado a poupan\u00e7a. A banda, constitu\u00edda por vocalista, baixista e organista, n\u00e3o teme a incongru\u00eancia do repert\u00f3rio. Salta do tango para o pimba, com um p\u00e9 na bossa nova e outro num g\u00e9nero inovador a que eu chamaria \u201cslow espiritual\u201d.<\/p>\n<p>\u201cM\u00e3e de Deus, tende piedade de n\u00f3s\u201d, chiava o cantor, enquanto os pares evolu\u00edam em amplexos rom\u00e2nticos, barriga contra barriga, antes de saltarem de bra\u00e7os no ar, entoando em coro \u201cMas quem ser\u00e1 o pai da crian\u00e7a? Sei l\u00e1, sei l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Homens de manga cavada e fio de ouro, rapazes de camisa justa lil\u00e1s e brinco, gel e patilha fininha, dan\u00e7ando com raparigas de vestido preto justo e curto e saltos altos, entrad\u00f5es anafados, de cal\u00e7\u00e3o e chinelo, bon\u00e9 branco de pala para tr\u00e1s, raparigas em grupo \u00e0 espera nas mesas, crian\u00e7as a correr, outras de trotinete: \u00e9 uma aut\u00eantica festa de aldeia, que mobiliza a comunidade inteira at\u00e9 \u00e0s tantas.<\/p>\n<p>Nos bairros, as festas, de car\u00e1cter espor\u00e1dico ou regular, t\u00eam mais personalidade. \u00c9 famosa a do Carreiro da Alegria. Trata-se de um desses \u201cbecos\u201d onde n\u00e3o se pode abrir os bra\u00e7os sem tocar na tenda do vizinho. O espa\u00e7o \u00e9 diminuto, mas os organizadores, que habitam as seis tendas alinhadas de ambos os lados do carreiro, conseguiram montar um sistema de karaoke, colunas de som, duas mesas repletas de comida e um balc\u00e3o de bebidas. Estavam todos aos saltos no carreiro. \u201cThe roof, the roof is on fire\u201d, cantavam. \u201cSomos uns 30, de cinco fam\u00edlias, o mais velho tem 66 anos e a mais nova dois, que foi feita no parque\u201d, disse Francelina Jacinto, de 53 anos, a \u201cmatriarca do carreiro\u201d, envergando uma T-shirt e um bon\u00e9 com um smile, o s\u00edmbolo do Carreiro da Alegria.<\/p>\n<p>O parque de campismo do CCCA existe h\u00e1 42 anos, e grande parte dos seus utentes est\u00e1 c\u00e1 desde essa altura. \u00c9 o caso das fam\u00edlias Terras e Vargas. J\u00e1 v\u00e3o na terceira gera\u00e7\u00e3o. Compraram tendas junto uns dos outros, e agora constituem um bairro. Os churrascos s\u00e3o feitos alternadamente em casa do casal Terras ou Vargas, ou dos filhos. Nenhum deles pensa alguma vez sair daqui. \u201cIsto \u00e9 um condom\u00ednio privado junto \u00e0 praia\u201d, explicou Jacinto Terras, de 80 anos. A mulher, Manuela, n\u00e3o gosta de praia, mas valoriza o conv\u00edvio. S\u00e3o fam\u00edlias que vivem juntas h\u00e1 d\u00e9cadas, como nas aldeias que j\u00e1 n\u00e3o existem. Todos se conhecem. Os mais velhos s\u00e3o compinchas da sueca ou do domin\u00f3, os jovens deram aqui os primeiros passos, brincam na rua, come\u00e7am a namorar.Jacinto Terras e o filho, Jo\u00e3o, tiveram uma vez uma conversa. \u201cSe nos sa\u00edsse o Euromilh\u00f5es, abandon\u00e1vamos o parque?\u201d Conclu\u00edram que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio que a maioria da popula\u00e7\u00e3o do CCCA pertence \u00e0 classe m\u00e9dia baixa. \u00c9 barato. Um alv\u00e9olo aqui custa, hoje, entre tr\u00eas mil e cinco mil euros. Mais o aluguer do terreno, que ronda os 50 euros por m\u00eas. O problema \u00e9 que n\u00e3o se consegue comprar n\u00e3o se sendo s\u00f3cio do CCCA. Mesmo para estes \u00e9 dif\u00edcil, porque o espa\u00e7o n\u00e3o se multiplica, como eles.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m pretende desistir do seu alv\u00e9olo, pode p\u00f4r o material \u00e0 venda. Mas o comprador n\u00e3o fica com direito ao terreno, que \u00e9 colocado numa esp\u00e9cie de concurso, no qual o crit\u00e9rio de prefer\u00eancia \u00e9 a antiguidade do s\u00f3cio. Ou o grau de amizade com os directores, dizem as m\u00e1s l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Quem pretende comprar \u00e9 colocado numa lista de espera. Quando surgem as oportunidades, o primeiro da lista pode optar. Se n\u00e3o lhe agradar a unidade \u00e0 venda, por estar por exemplo num aglomerado irrespir\u00e1vel, pode declinar. Tem um ano para escolher, ap\u00f3s o que perde o direito.<\/p>\n<p>S\u00e3o regras complicadas, que permitem muitas discuss\u00f5es e confl itos. David Carneiro, de 35 anos, e Cristina Dias, de 32, com uma filha de quatro meses, compraram agora um bonito alv\u00e9olo, depois de anos a \u201cviver\u201d no dos pais dele. Aproveitei para perguntar a Cristina como poderia eu comprar tamb\u00e9m um alv\u00e9olo.<\/p>\n<p>\u201cIsso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, disse ela. \u201cN\u00f3s s\u00f3 conseguimos porque o David \u00e9 da direc\u00e7\u00e3o e amigo de pessoas\u2026\u201d<\/p>\n<p>David corrigiu logo: \u201cEstou em lista de espera h\u00e1 dois anos. Ali\u00e1s, inscrevi-me para que n\u00e3o dissessem que foi por cunha.\u201d<\/p>\n<p>A press\u00e3o para comprar os espa\u00e7os \u00e9 t\u00e3o grande que a direc\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue fazer o que devia: dar baixa dos alv\u00e9olos que v\u00e3o sendo abandonados, para fazer diminuir a densidade de tendas no parque.<\/p>\n<p>Legalmente, a dist\u00e2ncia m\u00ednima entre as tendas seria de dois metros. Aqui, segundo o pr\u00f3prio presidente do conselho director, Lu\u00eds Filipe Ramos, dois ter\u00e7os do parque n\u00e3o cumprem essa regra. A concentra\u00e7\u00e3o de tendas e de materiais, aliada ao facto de todas terem um grelhador em funcionamento di\u00e1rio, leva o risco de inc\u00eandio a um n\u00edvel extremo. Todos os anos, ali\u00e1s, tem havido fogos no parque, e, apesar dos muitos extintores, vive-se \u00e0 espera de uma cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>A desculpa que a direc\u00e7\u00e3o tem apresentado \u00e9 a de que, como o parque poder\u00e1 ter de sair deste local, instalando-se nuns terrenos designados por Pinhal do Ingl\u00eas, longe da praia, n\u00e3o faz sentido iniciar as obras antes que uma decis\u00e3o seja tomada.<\/p>\n<p>Com efeito, segundo o projecto Polis para a zona, os tr\u00eas parques de campismo junto \u00e0 praia ter\u00e3o de ser deslocalizados. Al\u00e9m dos danos causados \u00e0 zona de dunas e \u00e0 arriba f\u00f3ssil da Caparica, multiplicam-se as queixas contra os privil\u00e9gios dos mais de 11 mil s\u00f3cios do CCCA sobre toda aquela zona de terrenos p\u00fablicos \u00e0 beira da praia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Terras e Lu\u00eds Filipe Ramos, que pertencem a uma direc\u00e7\u00e3o eleita por quatro vezes seguidas, dizem ser um erro tirar dali os parques. \u201cN\u00f3s fizemos crescer a Costa de Caparica\u201d, alegou Lu\u00eds Filipe Ramos. \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 uma regi\u00e3o de hot\u00e9is. As pessoas ou t\u00eam c\u00e1 casa, ou v\u00eam e v\u00e3o de Lisboa todos os dias. N\u00e3o estamos em Miami Beach. Aqui a \u00e1gua \u00e9 fria e os areais est\u00e3o a diminuir\u201d, desvalorizou ele, para concluir que, se afastarem os s\u00f3cios do CCCA, mais ningu\u00e9m viria para aqui. \u201cSem os parques, muita gente n\u00e3o poderia fazer f\u00e9rias na praia\u201d, explicou o presidente. A miss\u00e3o dele \u00e9 defender esse direito, para os 11 mil s\u00f3cios do clube. Pouco lhe importa que aquela \u00e1rea imensa fique vedada ao resto da popula\u00e7\u00e3o. \u201cTemos de defender os nossos s\u00f3cios. S\u00e3o eles que pagam as quotas.\u201d<\/p>\n<p>Ou que a actividade do clube seja menos campismo do que proporcionar casas de praia a uma multid\u00e3o de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o ricas.<\/p>\n<p>\u201cDantes era horr\u00edvel, era uma trabalheira, ter de montar e desmontar as tendas\u201d, recordou Francisco Mateus, outro dos membros do cl\u00e3 Vargas. \u201cN\u00e3o havia electricidade. T\u00ednhamos de acender um Petromax.\u201d<\/p>\n<p>E que tal abrir mais algum espa\u00e7o para verdadeiros campistas, perguntei ao presidente.<\/p>\n<p>\u201cO que temos \u00e9 pouco para os nossos s\u00f3cios.\u201d<\/p>\n<p>E criar regras para impedir que as tendas estejam vazias a maior parte do ano?<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais tempo estiverem vazias, mais rent\u00e1vel \u00e9 para o parque, que recebe a mensalidade e n\u00e3o tem gastos em electricidade, \u00e1gua e g\u00e1s\u201d, respondeu Jo\u00e3o Terras. Um s\u00f3cio pode estar meses ou anos sem ocupar a tenda, que nunca \u00e9 desalojado. Mesmo que deixe de pagar, \u00e9, segundo Terras, \u201cmuito dif\u00edcil que lhe desmontem o material. S\u00f3 depois de muitos avisos, muitas reuni\u00f5es da direc\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 a tenda 3009, pertencente ao \u00fanico campista do parque, ia ser desmontada porque o utente se ausentou por umas horas.<\/p>\n<p>Para os directores, \u201co campismo de tenda \u00e0s costas n\u00e3o \u00e9 um modelo de neg\u00f3cio vi\u00e1vel para os parques\u201d. J\u00e1 \u201cn\u00e3o h\u00e1 disso em lugar nenhum\u201d. O modelo do parque do CCCA representa \u201co campismo do futuro\u201d. <\/p>\n<p>in <a href=\"http:\/\/publico.pt\/Sociedade\/o-intruso-da-tenda-3009-1562222?all=1\">P\u00fablico<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segue um artigo do P\u00fablico, a n\u00e3o perder Acamp\u00e1mos uma semana no Parque de Campismo da Caparica. Para quem v\u00ea de fora, o enorme recinto parece um campo de refugiados, um bairro da lata ou uma penitenci\u00e1ria. Na realidade, s\u00e3o duas mil habita\u00e7\u00f5es rudimentares pertencentes aos s\u00f3cios do CCCA, encavalitadas umas em cima das outras [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19161"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19161"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19162,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19161\/revisions\/19162"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}