{"id":16065,"date":"2011-02-27T22:19:16","date_gmt":"2011-02-27T22:19:16","guid":{"rendered":"http:\/\/inacreditavel.ioio.info\/?p=16065"},"modified":"2011-02-28T07:51:57","modified_gmt":"2011-02-28T07:51:57","slug":"a","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=16065","title":{"rendered":"PI de Areia"},"content":{"rendered":"<p>Uma confiss\u00e3o:<\/p>\n<p>Confesso que nos anos 50, quando andava embarcado, servindo ociosos a bordo de luxuosos navios de cruzeiros, j\u00e1 me interessava por estes assuntos. J\u00e1 na altura tinha este meu esp\u00edrito forte e pr\u00e1tico, que durante o dia resolvia as quest\u00f5es profissionais e que \u00e0 noite era infatig\u00e1vel a estudar.<\/p>\n<p>Na altura sofria da vertigem do Pi. Esse n\u00famero, sempre incompleto, nunca terminado, fascinava-me, seduzia-me, provocava-me. Imaginava-me a viajar por ele, cruzando todos os d\u00edgitos que o formavam. Come\u00e7ava em 3.141592\u2026 e continuava por todos os n\u00fameros e sequ\u00eancias de n\u00fameros j\u00e1 escritos ou ainda por sonhar. Era a fonte e encerrava tudo num r\u00e1cio entre uma circunfer\u00eancia e o seu di\u00e2metro. Representava o universo condensado, todo o passado e todos os futuros, todos os lugares e todos os her\u00f3is, todas as batalhas e todos os poemas, codificados em frios n\u00fameros que constru\u00edam sequ\u00eancias inesgot\u00e1veis, sempre diferentes, nunca repetidas. Eram impessoais, indiferentes, intemporais. <\/p>\n<p>Uma noite, ap\u00f3s termos atracado, e em que eu, transitoriamente liberto dos meus afazeres profissionais, estava bem mergulhado no estudo, fui interrompido por insistentes pancadas na porta.<br \/>\nO mediano e indiferente sujeito que apareceu, mostrou-me uma caixa que parecia feita de areia molhada. Apresentou-se como sendo da fam\u00edlia Borges, praticando um espanhol colorido, vulgar entre os sul-americanos da zona do rio da prata. Tinha aquele olhar encovado, raiado, de quem quase n\u00e3o dorme e o f\u00edsico extenuado de quem padece de car\u00eancias prolongadas. Nunca dele soube muito mais.<br \/>\nMas a caixa que estava disposto a vender-me encerrava um segredo, dizia ele.<br \/>\nSenti que devia estar a ser o alvo de algum embuste, de alguma trapa\u00e7a, mas curioso e seguro de mim, resolvi ouvi-lo mais. <\/p>\n<p>A caixa encerrava o Pi! Nem mais!<br \/>\nEscusado ser\u00e1 dizer que a comprei por uma ninharia, e que depois passei horas e horas a contempl\u00e1-la enquanto os d\u00edgitos eram produzidos. Se a voltasse a abrir, os d\u00edgitos recome\u00e7avam do in\u00edcio. Se queria ver mais para a frente, tinha de estar a olhar para ela. A busca do inacess\u00edvel consumia-me.<br \/>\nComecei a ficar escravizado. A perder horas de sono e refei\u00e7\u00f5es. E percebi a trapa\u00e7a. A caixa era verdadeira! O fasc\u00ednio era a pris\u00e3o. Precisava de me libertar. Se a guardava numa gaveta, depois n\u00e3o resistia \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de voltar l\u00e1. Pensei: No pr\u00f3ximo porto, se ainda tiver for\u00e7as, deixo-a l\u00e1. Mas n\u00e3o deixei. Tive medo de a perder, de nunca mais poder ter acesso aos segredos profundos. Olhava \u00e0 volta e ningu\u00e9m se interessava por conhecer o Pi, por aceder ao Pi. Estava s\u00f3 e incompreendido.<\/p>\n<p>Olhei novamente para a caixa e o cansa\u00e7o ganhou. A minha alma cedeu ao impiedoso e inexor\u00e1vel. A vis\u00e3o plat\u00f3nica de um mundo ideal onde tudo decorre de acordo com leis puras e perfeitas dissipou-se, sucumbindo \u00e0 tortura das noites mal dormidas e das refei\u00e7\u00f5es negligenciadas. Vi a caixa como uma coisa chata e sem interesse. Apenas produzia n\u00fameros, n\u00fameros e mais n\u00fameros, enjoativos, mon\u00f3tonos, sem interesse pr\u00e1tico ou hip\u00f3tese de serem aproveitados. <\/p>\n<p>Aproveitei esses momentos de del\u00edrio l\u00facido e parti a caixa. Joguei peda\u00e7os ao mar, outros no lixo, e os \u00faltimos dois ou tr\u00eas consegui que fossem incinerados na caldeira.<\/p>\n<p>Que al\u00edvio. Dou gra\u00e7as a mim mesmo por este meu esp\u00edrito forte e pr\u00e1tico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma confiss\u00e3o: Confesso que nos anos 50, quando andava embarcado, servindo ociosos a bordo de luxuosos navios de cruzeiros, j\u00e1 me interessava por estes assuntos. J\u00e1 na altura tinha este meu esp\u00edrito forte e pr\u00e1tico, que durante o dia resolvia as quest\u00f5es profissionais e que \u00e0 noite era infatig\u00e1vel a estudar. 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