{"id":1404,"date":"2008-02-08T22:56:04","date_gmt":"2008-02-08T22:56:04","guid":{"rendered":"http:\/\/inacreditavel.ioio.info\/?p=1404"},"modified":"2008-02-08T22:56:04","modified_gmt":"2008-02-08T22:56:04","slug":"educacao-vs-criatividade-vs-cidadania-vs-vontade-politica-vs-facilitismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=1404","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o vs. Criatividade vs. Cidadania vs. Vontade pol\u00edtica vs. Facilitismo"},"content":{"rendered":"<p>Partilho de v\u00e1rias das ideias do <a href=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=1400\">Ken Robinson<\/a>, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista da criatividade estritamente falando, bem como de v\u00e1rios outros temas ligados ao ensino de uma forma geral. E concordo plenamente com ele quando afirma, e todos n\u00f3s sabemos na pr\u00e1tica, que hoje ter um canudo n\u00e3o quer dizer nada. Mas temos que analisar o problema do \u201censino\u201d de uma perspectiva mais ampla.<\/p>\n<p>Segundo os conceitos modernos (chamem-lhe piagetianos, p\u00f3s-modernos, ou o que quiserem), a escola tem como finalidade formar o \u201ccidad\u00e3o\u201d (atentem no nome que d\u00e3o aos m\u00f3dulos que os alunos t\u00eam no ensino b\u00e1sico, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no n\u00f3s-terra). <\/p>\n<p>Como \u00e9 que um \u201cindiv\u00edduo\u201d se transforma em \u201ccidad\u00e3o\u201d? \u00c9 preciso dar-lhe as compet\u00eancias pr\u00f3prias que caracterizam o \u201ccidad\u00e3o\u201d. <\/p>\n<p>Mas de acordo com todos os c\u00f3digos de direitos do \u201ccidad\u00e3o\u201d, este deveria saber intervir pessoalmente na esfera p\u00fablica, defender os seus pontos de vista, deliberar, eleger, ser eleito, enfim, participar da organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade como \u201ccidad\u00e3o\u201d de direito.<\/p>\n<p>Assim, a escola, cujo objetivo fundamental se pode pensar como a forma\u00e7\u00e3o do pensamento, al\u00e9m da aprendizagem para a autonomia, deveria tamb\u00e9m considerar uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e estimular e promover a coopera\u00e7\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Mas isso era giro na antiguidade cl\u00e1ssica&#8230; quando se aprendia para ser cidad\u00e3o. Depois vieram os romanos e os b\u00e1rbaros e continuou-se pela idade m\u00e9dia e nos s\u00e9culos que se seguiram, e apesar de \u201crevolu\u00e7\u00e3o cultural\u201d, palaciana (sim, quem era \u201ceducado\u201d????, quem eram os cientistas?, quem eram os doutores? -quem tinha $$ pr\u00f3prio ou um patrono, dado que ainda n\u00e3o havia o BES) s\u00f3 se aprendia a profiss\u00e3o do pai, para se usar e passar um dia mais tarde ao filho&#8230; mas&#8230; aprendia-se, quer a pensar (bem, alguns), quer a ser cidad\u00e3o (quando havia direito a tal).<\/p>\n<p>A massifica\u00e7\u00e3o no ensino come\u00e7ou no inicio do s\u00e9culo XX como \u201csub-produto\u201d do enriquecimento provocado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial. E \u00e9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 nenhum mal em querer aumentar a disponibilidade de bens para todos, e de querer dar as \u201cmelhores condi\u00e7\u00f5es\u201d a todos, quer de sa\u00fade, de justi\u00e7a, e, portanto de \u201cEDUCA\u00c7\u00c3O\u201d.<\/p>\n<p>Mas cedo se viu que havia uma contrariedade -a \u201cescola\u201d \u00e9 um lugar da socializa\u00e7\u00e3o mas tende a esquecer a organiza\u00e7\u00e3o conjunta da vida, porque est\u00e1 preocupada com outro objetivo importante -o desenvolvimento \u201cpessoal\u201d do aluno. Ent\u00e3o essa massifica\u00e7\u00e3o, necessitava de \u201cnovos conceitos\u201d de socializa\u00e7\u00e3o do ensino. \u00c9 a\u00ed que a \u201cescola de Piaget\u201d fez furor &#8230; por dar \u201cpontap\u00e9 para a frente\u201d. <\/p>\n<p>A \u201cdiscuss\u00e3o\u201d foi considerada por Piaget como \u201cum dos elementos que permitem evoluir do egocentrismo, caracter\u00edstico da mentalidade da crian\u00e7a pequena, para um comportamento mais descentrado\u201d. Palavras lindas, que na pr\u00e1tica se traduzem por considerar a crian\u00e7a como um interlocutor intelectual do adulto e dar \u00e0 \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d o papel de acompanhar e provocar a crian\u00e7a na busca da novidade e da criatividade. Mas meus amigos, quando cheg\u00e1mos aqui, estrag\u00e1mos um bocadinho. E n\u00e3o \u00e9 preciso tecermos grandes considera\u00e7\u00f5es \u00e0 volta do tema \u201ca crian\u00e7a descobre por ela pr\u00f3pria\u201d&#8230; como costumo dizer, se n\u00e3o for ensinada a pensar (e, portanto, a errar), a crian\u00e7a (ou o adulto) n\u00e3o descobre o teorema de Pit\u00e1goras, ou como se desenha uma rosca, ou como funciona um motor de autom\u00f3vel, ou o que s\u00e3o as ondas hertzianas que fazem funcionar o telem\u00f3vel que tem nas m\u00e3os. E o mecanismo correcto \u00e9, <a href=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=1400#comments\">como o Alex disse<\/a>, procurar o abstrato e com ele racionalizar os conceitos, os construtos.<\/p>\n<p>Claro que a evolu\u00e7\u00e3o para os tempos modernos dos outros factores sociais -cada vez maior liberdade, mais riqueza (pelo menos em m\u00e9dia, e acho que todos sabem o que \u00e9 a \u201cm\u00e9dia\u201d), maior capacidade de recursos tecnol\u00f3gicos e de ampla difus\u00e3o s\u00e3o o culminar do que foi \u201cprometido\u201d pela revolu\u00e7\u00e3o industrial. Mas para isso a malta tem que trabalhar e ganhar os tost\u00f5es, e para isso os filhos t\u00eam que ser depositados na \u201cescola\u201d e \u201calgu\u00e9m\u201d que tome conta deles, e \u201c<em>ai de quem tocar no meu menino ou o obrigar a fazer os trabalhos de casa, ele\/a tem muitas outras actividades na vida e n\u00e3o pode perder tempo com essas coisas<\/em>\u201d&#8230; E, como disse aos outros pais e \u00e0 professora que intimidada com esses coment\u00e1rios n\u00e3o obrigava os alunos a fazerem os t.p.c&#8217;s, numa reuni\u00e3o de pais quando a minha filha andava no 2\u00ba ano &#8220;se n\u00e3o os obrigarem agora a fazer o que quer que seja, temam pelo vosso futuro&#8230; e pelo deles&#8221;.\u00a0 <\/p>\n<p>E \u00e9 por essas e por outras que as \u201creformas do sistema educativo\u201d (e mais uma vez n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no n\u00f3s-terra) s\u00e3o o que sabemos que elas s\u00e3o desde os anos 70 do s\u00e9culo passado (ena p\u00e1, j\u00e1 l\u00e1 vai tanto tempo) -o ensino \u201cencolheu-se\u201d, \u201cabaixou-se\u201d, \u201creduziu-se\u201d para se adaptar ao \u201csistema\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m por isso que hoje o paradigma do \u201censino\u201d ainda est\u00e1 em piores condi\u00e7\u00f5es do que no tempo do Piaget. A continuada massifica\u00e7\u00e3o do ensino (que eu n\u00e3o condeno, calma! antes pelo contr\u00e1rio, mas, claro, se for ENSINO) \u00e9 levada ao extremo de n\u00e3o exigir o esfor\u00e7o -sim, estudar \u00e9 chato, exige esfor\u00e7o, ou acham que se aprende o que \u00e9 matem\u00e1tica, sem se passar pelo c\u00e1lculo laborioso e o treino da tabuada \u201ccantada\u201d&#8230; E quando se obriga os alunos a usar m\u00e1quina de calcular no \u201censino\u201d b\u00e1sico, est\u00e1-se \u00e0 espera que algu\u00e9m v\u00e1 preocupar-se em saber diferenciar ou calcular \u201cbem\u201d vigas para pontes ou motores de avi\u00f5es? Ou sequer a \u201cpensar\u201d?!?! Ent\u00e3o a m\u00e1quina resolve, a internet tem l\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o, a m\u00e1quina faz. Para que havemos de pensar?!!!<\/p>\n<p>Assim treinam-se alunos desde o jardim infantil a obter a melhor classifica\u00e7\u00e3o sem necessariamente saberem -por isso no ano seguinte j\u00e1 n\u00e3o se \u201clembram\u201d do que deram&#8230; ou seja&#8230; o conceito n\u00e3o ficou l\u00e1. E v\u00e3o assim at\u00e9 sa\u00edrem d\u00f3tores! Mas tamb\u00e9m, o que a malta quer mesmo \u00e9 esquecer a crise e, j\u00e1 agora, a vidinha facilitada, seja passando sem se saber nada, seja com a prima de apelido \u201cCunha\u201d ou o factor <em>C<\/em>, <a href=\"http:\/\/www.inacreditavel.pt\/?p=1338\">o que a malta quer mesmo \u00e9 que n\u00e3o nos chateiem<\/a>.<\/p>\n<p>Ou seja, o pior de tudo isto \u00e9 o alheamento que se vai criando. A televis\u00e3o e os outros \u201c\u00f3pios\u201d do mundo moderno est\u00e3o a par do \u201censino\u201d que n\u00e3o \u201censina\u201d e n\u00e3o espevita o intelecto -os l\u00edderes querem \u201ccidad\u00e3os votantes\u201d e n\u00e3o cidad\u00e3os. Assim, quanto menos souberam julgando que sabem (ou seja, n\u00e3o os ensinado) melhor, mais facilmente s\u00e3o manipul\u00e1veis <\/p>\n<p>E, mais uma vez n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no n\u00f3s-terra. E aqui h\u00e1 algo que n\u00e3o entendo. Estou muito a par do que em termos de ensino se passa noutras culturas t\u00e3o diferentes da nossa como a Sueca, a Brasileira, a Americana ou a Malaia, e temo dizer-vos que estamos todos no mesmo barco&#8230; a aldeia globalizou-se em todos os aspectos. O alheamento \u00e9 igual, a vontade dos alunos \u00e9 igual, tal como a vontade dos pol\u00edticos em lidar com o &#8220;problema&#8221;.<\/p>\n<p>Acho que a falta de &#8220;criatividade&#8221; (dos pol\u00edticos, e ensinantes) at\u00e9 para ultrapassarmos este impasse, se deve mesmo a ter-mo-la morto h\u00e1 muito tempo com piagetices&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Partilho de v\u00e1rias das ideias do Ken Robinson, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista da criatividade estritamente falando, bem como de v\u00e1rios outros temas ligados ao ensino de uma forma geral. E concordo plenamente com ele quando afirma, e todos n\u00f3s sabemos na pr\u00e1tica, que hoje ter um canudo n\u00e3o quer dizer nada. 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