O doce, o ácido e o acre

Três vinhos alentejanos, três sabores, três extremos.

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Severa, Alentejo tinto 2013 Seleção do Enólogo, 13,5% de álcool, doce, encorpado, espesso, muito bom.

Fernão Duque, Alentejo tinto 2012 Reserva, 13% de álcool, Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet, ácido, meio corpo, a lembrar o Douro, como eu gosto.

Salpico, Alentejo tinto 2011, 13,5% de álcool, Aragonez, Trincadeira, Alfrocheiro, acre, adstringente, feroz, meio corpo, bom para acompanahar pratos gordos.

Cabriz Reserva

Para acompanhar uma feijoada de antologia, abrimos uma garrafa histórica.

Quinta de Cabriz, Dão tinto 2003 Reserva, 13,5% de álcool, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz. Com uma cor carregada pelo tempo, do vermelho sangue ao quase acastanhado, espesso, ainda com um sabor fresco a fruta, mas a sentir-se envelhecer a cada minuto que passava. Estágio em barricas de carvalho francês, uma bela pomada guardada pelo tempo durante 12 preciosos anos, debaixo da cama de uma amiga minha, que teve a feliz ideia de abrir esta garrafa no sábado passado.

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Lixo no forno

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Sim, leram bem, isto tecnicamente é, ou seria, lixo.
Daqui só a cebola e o azeite näo eram coisas que estavam a ponto de ser mandadas para o lixo:
– a cara de bacalhau, porque depois de retirados os filetöes o pessoal näo sabe o que fazer com o que sobra, e se ninguém compra vai pro lixo;
– os pimentos, porque já näo estavam lustrosos embora estivessem sem bicheza ou bolor, e se ninguém compra vai pro lixo.

Calhei a passar ao lado da banca e chamou-me a atenc,äo, por ser coisa que nunca vi pelas Finlândias. Referi-o à empregada… e acabei por o levar para casa à borla!
Mmm… que “lixo” delicioso! Obrigado ignorantes finlandeses por este pitéu!
Bacalhau a saber a pato!
Foi acompanhado de batatas assadas no micro-ondas, e para beber foi um Uvas Douradas tinto Bairrada DOC Reserva 2007.

Francesinha japonesa

Esturgi o peixe (fatias de corvina) em cima de fatias finas de gengibre fresco, em óleo de sésamo tostado. Embebi as fatias de pão em sake, barrei-as com miso de cevada, cobri-as com pickles de gengibre e coloquei o peixe lá dentro, barrei com wasabi e cobri tudo com fatias de queijo, para parecer uma francesinha. Levei ao forno para derreter o queijo. Et voilà!

Acompanhei com sake quente.

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Caves Velhas

Dois vinhos Caves Velhas.

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Alma Grande, Douro tinto 2010 Reserva, 13,5% de álcool, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz. Roxo escuro, complexidade e corpo médios, uma mistura excelente de sabores onde o doce, adstringente e ácido se notam claramente e de onde nenhum sobressai. É o saber fazer.

Magna Carta, Alentejo tinto 2010 Reserva, 13,5% de álcool, Syrah (40%), Aragonez (40%), Alicante Bouschet (20%), com estágio de 9 meses em carvalho francês. Cor bordô, mais claro, redondo e doce que o anterior, e também com um toque de frescura apesar da madeira, áspero e fumo. Mais um vinho de eleição das Caves Velhas.

Centro Sul

Dois vinhos do Centro Sul: Serras de Azeitão e Mula Velhas.

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Mula Velha, Lisboa tinto 2013 Reserva, 13,5% de álcool, Touriga Nacional, Syrah e Tinta Roriz, com 3 meses de estágio em madeira. Acre, áspero, doce, com toques de fumo, resinas e caramelo, mais redondo que o seguinte.

Serras de Azeitão, Palmela tinto 2013 Seleção do Enólogo, 14% de álcool, Aragonez, Syrah, Merlot, Touriga Nacional. Mais arroxeado que o anterior, agridoce, ligeiramente borbulhante, fresco, acre, ácido, meio corpo, com toques de rebuçado.

Feijões refritos

Estou a fazer o jantar de Carnaval: feijões refritos. Nunca fiz isto na vida e tenho apenas 2 horas para preparar tudo.

Pus o feijão vermelho ao lume na panela de pressão, ainda seco, sem sal, com 3,5 vezes água. Vai cozer 1 hora.

Entretanto amassei 400g de farinha fina de milho com 4 colheres de farinha de trigo, duas colheres de manteiga e sal. Juntei uma caneca de água aos poucos e no fim amassei com as mãos. Depois de bem amassado, fiz oito bolas e coloquei-as no forno quente (mas desligado) com um pano por cima.

Agora vou preparar o molho para os feijões. Um refogado de cebola picada em azeite, com malaguetas e piri-piri. No fim junto o feijão cozido, ao qual entretanto adicionarei sal no fim da cozedura.

Depois, vou estender as bolas de milho, entre duas folhas de plástico (até 3mm) e faço as tortilhas que vão ao forno tostar. Corto-as em triângulos e frito-as em óleo bem quente.

Para terminar, coloco os triângulos de milho fritos no fundo de um pirex, cubro com o eijão frito e forro com fatias de queijo. Levo ao forno e já está!

Moreia frita

A moreia frita é um prato típico do Alentejo e Algarve. Prepara-se assim:

  • arranja-se uma moreia da costa (as de alto mar têm muita gordura)
  • abre-se pelas costas e tiram-se as tripas, a cabeça e a espinha
  • põe-se 5 min em salmoura e depois lava-se o sal
  • abrem-se uns furos de lado e colocam-se as canas
  • pendura-se ao sol até deixar de estar húmida à superfície
  • corta-se às tiras e frita-se em óleo quente
  • come-se com pão e tinto

Moreia a secar na corda da roupa (pele)
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Moreia a secar na corda da roupa (carne)
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Moreia cortada às tiras, pronta a fritar (foto do al)
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Moreia frita (foto do al)
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Caldeirada de choco

Havia dezenas de chocos grandes na praça, vai daí comprei um de 2Kg e fiz uma caldeirada de choco. Abri duas garrafas de tinto para comemorar.

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Quinta da Soalheira (Borges), Douro tinto 2012, 13% de álcool, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Franca, Tinto Cão e Sousão. Muito fresco, seco, pouco doce, meio áspero, pouco encorpado, acre e ácido. Excelente, mesmo ao meu gosto.

Faro (Campolargo), Bairrada tinto 2010, 14% de álcool, macio, pouco doce (mas mais que o Borges), áspero, com sabor a pipa que se vai perdendo com o tempo de aberto.

Grand’Elias

Fomos ao Grand’Elias comemorar os 50 anos do Al. Os vinhos que estavam na mesa eram poucos para nós e mandámos vir mais uma garrafa.

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Encostas do Minho, Vinho verde branco 2014, 9,5% de álcool, Loureiro, Trajadura e Arinto. Não tão frutado como anunciam, mas relativamente adocicado para um vinho verde clássico. No entanto, a acidez é a nota forte e corta bem os óleos dos fritos das entradas.

Meio Século, Alentejo tinto 2013 Reserva, 13,5% de álcool, Trincadeira, Aragonez e Syrah, áspero, simples, meio doce, um pouco ácido, com um sabor martelado de vinho anilinado.

Montes Claros, Alentejo tinto 2010, 13,5% de álcool, Touriga Nacional Aragonez e Syrah, doce, redondo, meio áspero e bebe-se bem.

Choco e enguias

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Fomos à Carrasqueira comer choco frito e enguias fritas. Também veio um ensopado de enguias e um arroz de lingueirão. Para acompanhar, pedi duas garrafas de vinhos que nunca tinha bebido (pensava eu).

Guarda Rios, Tejo tinto 2008, 14% de álcool, Syrah, Touriga Nacional, Merlot, com estágio de 9 meses em carvalho francês. Um vinho já envelhecido pelos maus tratos da prateleira do restaurante, mas ainda assim bebível. Bastante denso e com um travo forte a óleo de cedro muito carregado da idade. Por detrás notava-se alguma aspereza e acidez. E afinal já tinha bebido várias Guarda Rios de safras anteriores.

Explicit, Alentejo tinto 2011, 15,5% de álcool. Um vinho muito forte e denso e muito alcoólico também. Bastante doce e com vários toques de especiarias. Era a garrafa nº 3266 de 7462 garrafas, de 25 barricas, de uma produção familiar. Sabe a madeira – estagiou em carvalho francês – e frutos do bosque do fim do verão. Aprovado.

Douro e Dão

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Terras de S. Miguel, Dão tinto 2009, 12,5% de álcool, Tinta Roriz, Touriga Nacional e Jaen. Bebi-o num restaurante em Seia. Pedi-o por ter apenas 12,5% de álcool, o que já vai sendo raro nos vinhos portugueses. O álcool corta a acidez e a honestidade do vinho. Num vinho com pouco álcool, sobressai toda uma riqueza de sabores frágeis e voláteis que são a essência desta bebida de uvas fermentadas. Um vinho fresco, ácido e leve. Excelente para acompanahr os pratos pesados do interior norte.

TalentVs, Douro tinto 2011 Grande Escolha, 13,5% de álcool, Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, 12 meses em carvalho francês, não filtrado. Doce, encorpado, com um toque de acidez e uma complexidade de sabores e travos silvestres. Um vinho excelente.

Tejo e mais além

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Cabeça de Toiro, Tejo tinto 2011 Reserva, 13,5% de álcool, Touriga Nacional e Castelão, 9 meses em carvalho francês. Robusto, forte, denso, seco, ligeiramente frutado, encorpado, enche a goela. Um vinho sempre bom e muito apreciado aqui por nós.

Montes Claros, Alentejo tinto 2012 Reserva, 14% de álcool, Aragonez, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Syrah, com estágio de 12 meses em carvalho francês e americano, e 6 meses em garrafa. Uma bela combinação de sabores entre o ácido, o doce e o adstringente. É um vinho com meio corpo e macio, quase leitoso. Um vinho bem trabalhado, com um sabor meio seco, equilibrado e sem notas muito salientes. Montes Claros, um clássico do Alentejo, um vinho com história.

Beira e Bairrada

CB-AlmaDaBeira

Os vinhos da região centro norte são diferentes de todos os outros que tenho bebido. Tanto nacionais como de fora. Em geral, são mais macios e redondos, menos ácidos e ásperos. Principalmente os do Dão.

CB (a jovem calda bordaleza), Bairrada tinto 2011, 13,5% de álcool. Os vinhos Campolargo costumam surpreeender-me pela positiva e, sempre que encontro uma novidade nas prateleiras das garrafeiras, compro para provar. Precisa de arejar algum tempo para libertar o enxofre. Mas depois bebe-se bastante bem. Fresco, com alguma densidade, menos doce, mais ácido e pouco adstringente.

Alma da Beira, Beira Interior tinto 2009, 13,5% de álcool, Touriga Nacional e Trincadeira. Um vinho mais doce e denso que o anterior, quase a lembrar um alentejano. Bom para acompanhar queijos pequenos e secos.

Grandes do Douro

Pacheca-Fialhoza

Duas magnuns de vinhos do norte já aqui apreciados anteriormente, mas desta feita, de safras mais recentes.

Fialhoza, Douro tinto 2012 Reserva (magnum, 1,5 litros), 13,5% de álcool, Tinta Roriz (40%), Touriga Franca (30%) e Touriga Nacional (30%). Mais doce que o 2011, talvez amora caramelizada, meio encorpado, fluido, leitoso, um sabor que perdura.

Pacheca, Douro tinto 2012 Colheita (magnum, 1,5 litros), 13,5% de álcool, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Nacional. Não tão doce como o anterior, mais ácido, fesco e leve, um belo vinho para beber até à última gota. Acompanha bem pratos salgados e, excelentemente, bacalhau cozido.