Apanhado na curva

Vinha a descer a Av dos Combatentes para a Praça de Espanha, já passava da meia-noite, não havia ninguém na estrada, e não via a hora de chegar a casa…

Aquilo ali são 50 à hora a velocidade máxima, mas o táxi vinha desembraiado e passou os 100 à hora. Nisto, lá ao fundo está um gajo de farda no meio da estrada… estou fodido.

Mandou-me parar.

“Sabe que isto aqui são só 50 à hora. E agora isto dá dois anos sem carta. E para si é uma chatice ficar sem carta…”

“?”

“Pois… Sabe que isto é uma chatice agora… Dois anos sem carta é uma merda para um taxista… Não sei se está a ver o problema em que se meteu…”

“?”

“Pois… Não sei se está a ver… Isto agora… Dois anos sem carta é uma chatice… E a si até lhe faz falta…”

“Mas o que é que este gajo quer?”, pensei eu…

Nisto chega outro caro, sai de lá de dentro um gajo à paisana, os tipos recuam e fazem-lhe continência… Era o superintendente.

Eles afastam-se um pouco, a conversa é acelerada, mas em voz baixa e, nisto, o superintendente volta-se para mim e pergunta-me: “Quem é você?”

“Eu sou «O Taxista»”

“Ah… Então é melhor sair daqui… Vá-se embora…”

E eu bati-lhe a pala e pirei-me dali para fora… a 110 à hora!

o grande golpe

Mais uma conversa escutada no meu taxi. Eram dois gajos com cara de malandros. Não percebi um caralho do que disseram. Talvez vocês percebam.

– E então o melhor é irmos a votos agora.
– Porquê agora? Não pode ser depois?
– Depois do pessoal falir? Estás parvo, caralho?
– E quanto tempo falta?
– É mais uns dois meses.
– E então?
– E então a gente não paga os salários a ninguém.
– Vocês estão fodidos. A culpa é toda vossa. Ainda acabam linchados.
– Vocês também estão fodidos.
– Achas?
– Depois ninguém vota em nós. Nem em vocês.
– Depois, quando?
– Daqui por dois meses, caralho.
– És capaz de ter razão.
– Claro que tenho.
– E se não votarem em nós?
– Não sei. Até podemos ir presos.
– Vocês, sim. Nós não.
– Ah! Pois. E o BPN? Lembras-te?
– Pois é. Foda-se.
– Então, temos os votos antecipados?
– Temos, caralho. Tem que ser.
– Tratas disso com o teu chefe?
– Está bem. Podes estar descansado.
– E se eu ganhar tu convidas-me?
– Sim. Está bem. Mas se tu ganhares também tens que me convidar.
– Está bem. Dá cá um abraço, pá.

Saíram do taxi. Cada um para seu lado. Ainda olharam um para o outro. Com ódio. “Incompetente! Malandro! A culpa é tua! Não percebes nada disto! Irresponsável!”.

Fui apanhado

Tinha um part-time porreiro nos EUA, era porreiro duas vezes, porque havia lugares ao colo, mas apanharam-me em flagrante.

Ainda invoquei o precedente do Berlusconi, mas disseram-me que aquilo era a América, não era uma república das bananas qualquer.

Mas o Assange já me arranjou emprego na Suécia!

O mais rico

A conversa foi curta mas inacreditável.
-“Já disse que sim”, dizia um.
“Olhe que não, olhe que não”, dizia o outro.
-“Mas eu não sou o mais bem pago da história porquê?”
“Mas és, mas és. E o Real sabe disso”
-“Não sou nada. Existiu este tal Gaius Appuleius Diocles e eu tenho que o suplantar”
“Quem!!?”
– – – –

Os milhões de Cristiano Ronaldo e até do golfista Tiger Woods, o desportista mais rico da actualidade, não se comparam aos prémios conseguidos por um condutor de quadrigas lusitano no tempo do Império Romano.

O desportista mais rico de toda a história foi Gaius Appuleius Diocles, um condutor de quadrigas nascido na Lusitânia (Portugal) no ano de 104.

Segundo os investigadores, Diocles angariou qualquer coisa como 35,863 milhões de sestércios, a que corresponderiam actualmente 11,6 mil milhões de euros. A maquia amealhada pelo desportista luso era o suficiente para abastecer de cereais a capital do Império Romano durante um ano.

Diocles participou em mais de quatro mil corridas da “Fórmula 1” dos romanos, tendo vencido quase 1.500 dos desafios. Por 815 vezes liderou as corridas desde o início, em 67 vezes conseguiu a liderança nas últimas voltas e em 36 ocasiões sagrou-se vencedor mesmo na recta final.

O corredor lusitano tornou-se profissional aos 18 anos e morreu aos 42. Está sepultado em Roma. Na lápide estão inscritas as estatísticas da sua carreira.

Não, o Asterix não está lá...
A fórmula um dos romanos

a injusta causa

Como sabem, conduzo um taxi e escrevo aqui o que ouço. Um dia destes entraram dois gajos no meu taxi. Aparentemente, um estava a despedir o outro. Na maior, como se nada fosse. Uma conversa esquisita que não percebi. Aqui vai a conversa dos gajos.

Então vais-me despedir caralho?
Tem calma.
Mas vais-me despedir porquê?
Tem que ser. Ninguém te quer lá.
Mas o que é que eu fiz de mal, podes dizer-me?
Foste malcriado.
Malcriado, o caralho. Não te safas com essa. Passa para cá o meu milhão.
Não pode ser, pá. Não pode ser assim.
Malcriado, eu? Agora vêm com essa de que tratei mal os médicos. Porque é que não se lembraram disso antes? Isso não é motivo para me despedirem. E vocês sabem disso.
É essa a ideia, pá.
Eu ponho-vos em tribunal, pá.
É essa a ideia, pá.
E ganho aquela merda. E vocês têm que me pagar o milhão.
É essa a ideia, pá.
Eh pá! Tu és um gajo inteligente. Só falta vires dizer que queres a tua parte.
Tu também não és parvo, eh!eh! Só é pena não perceberes nada de futebol.

a petição do 1%

Esta é que eu não esperava. Ganda cliente.
Aqui vai a história de mais uma viagem.

– Onde é que eu posso assinar a petição do 1%?
– Do 1%? Não percebi.
– Ó homem! Deixe-se de coisas, eu sei que você escreve no chornal
– Dasseee, pensei. Agora é que me fodi. Pensei alto. Quem será este cabrão?
– Ó homem veja lá como fala, este é o sr. Azevedo.
– Vai pró caralho, engraxador de merda, estou farto de paneleiros como tu.
– O outro gajo encolheu-se. Sim, senhor engenheiro.
– Bem, eu estou de acordo com a vossa ideia do 1%. Não me conhece mesmo, caralho? Sou o Azevedo.
– O Azevedo, aquele Azevedo? Pois é. Foda-se quem diria. Então agora andas de táxi, pá?
– Ando, pois.
– Foda-se, cralho, tenho que confessar que não estava à espera.
– Pois é. Não estava você e uma data de cabrões. Mas é assim. Vocês têm razão. Eu li aquilo do 1% dos mais ricos abdicarem de 80% dos rendimentos no próximo ano e gostei. Vá-se lá saber porquê, gostei.

– Foda-se, cralho. Não estava à espera. Tinha uma opinião diferente a seu respeito.
– Tu e muita gente, pá! Mas estão enganados, pá! Eu já tenho aquilo de que preciso, e não preciso de muito. Tenho uma casinha na foz. Os filhos já estão encaminhados na vida. Quando quero passar férias, passo-as naquilo que é meu. A idade também já não dá para grandes maluquices. Que se fodam os 80% dos rendimentos do próximo ano.
– Ainda deve ser um belo dinheiro que você perde.
– Caguei para essa merda. Essa merda não me aquece nem arrefece. Mas também lhe digo que faz bem viver durante algum tempo com pouco dinheiro. O mal de muita gente na nossa terra é nunca ter chegado a saber o que é viver com pouco dinheiro. São uma corja de fedelhos mimados e preguiçosos, é o que são.

Acreditei no gajo e levei-o à sede do chornal.
O alex estava lá. Com cara de desconfiado.
– Ah! é você? – disse o Azevedo. É você que escreve aquelas merdas contra mim, por causa do público e da PT? Também me saíu um sacana do caralho. Dê cá um abraço que eu hoje estou bem disposto.
O alex sentiu que aquilo era sincero e convidou-o para comer. Atiraram-se os dois à moreia e ainda beberam uns copos valentes.

P.S.: Foda-se. Sinto qualquer coisa esquisita. Acho que foi dos cogumelos que comprei no continente. Serão alucinogénicos?

o especulador

É a segunda vez que dou boleia a estes gajos. Da primeira vez fixei-lhes as trombas não sei porquê. Acho que um deles tinha cara de porco. A conversa dos gajos era assim.

“Não te esqueceste do dinheiro que me deves, pois não?.” “Não, claro que não.” “É que eu ouvi dizer que não tinhas dinheiro.” “Não tenho dinheiro? Ah!Ah!Ah! Que parvoíce! Essa merda é mesmo de ignorante. Quem foi o ignorante que te disse isso?” “Então vais-me pagar o dinheiro?”. “Sim, claro.” “Ainda bem. Assim fico mais descansado. Não sabes o que isto me andava já a preocupar”. “Olha, até te digo mais, a vida tem-me corrido bem. Tenho em vista um investimento do caralho. Se me adiasses este pagamento por mais um ano é que era fixe. Não me importo nada de pagar uns bons juros para ter dinheiro para este investimento”. “É? E no final do ano pagas-me o dinheiro?” “Claro que sim, caralho. Por quem me tomas?”

Voltei a dar boleia aos gajos. A conversa dos gajos parecia exactamente a mesma do ano anterior.

“Não te esqueceste do dinheiro que me deves, pois não?.” “Não, claro que não.” “É que eu ouvi dizer que não tinhas dinheiro.” “Não tenho dinheiro? Ah!Ah!Ah! Que parvoíce! Essa merda é mesmo de ignorante. Quem foi o ignorante que te disse isso?” “Então vais-me pagar o dinheiro?”. “Sim, claro.” “Ainda bem. Assim fico mais descansado. Não sabes o que isto me andava já a preocupar”. “Olha, até te digo mais, a vida tem-me corrido bem. Tenho em vista um investimento do caralho. Se me adiasses este pagamento por mais um ano é que era fixe. Não me importo nada de pagar uns bons juros para ter dinheiro para este investimento”. “Eh pá, não posso. Desta vez não posso.” “Eh Pá! Empresta-me lá dinheiro. Foda-se. Qual é a tua? Queres-me deixar mal? Filho da puta! Especulador!

Irão ou não Irão

Eles entraram, com os seus óculos escuros e sotaque estrangeirado.
Pediram-me para os levar ao aeroporto.
-Esta é mesmo muito boa.
-Melhor que o acidente nuclear que vai acontecer ao Irão.
-Sim, aquilo tem que acabar de morte macaca.
-E vai ser melhor ainda que a gripe.
-Ou que a crise.
-Já está a ser melhor.
-Ainda bem que o vulcão entrou em erupção.
-Mas passou quase uma semana antes de toparmos como o aproveitar para sacar uma pipa de massa.
-Felizmente que aquilo é quase tudo vapor de água do glaciar.
-Tá mas é calado. Aquilo são poeiras vulcânicas, muito abrasivas e potencialmente letais.
-Já viste os apoios que vais ser preciso dar a toda a indústria europeia?
-Norte europeia, queres dizer. Os PIIGs continuam a levar com as culpas.
-Eh eh eh…
-E o melhor é que com a desculpa do apoio à Islândia por causa de uma catástrofe natural, eles levam com um baylout e resolvemos os nossos problemas todos.
-Sem ninguém topar.
-Eh eh eh.
-Coitadinho do Irão.
-Coitadinhos dos PIIGs…
-Coitadinho do Haiti.

CDSs

Mais uma viagem, mais uns cromos. Não percebi um caralho do que eles disseram. “Não percebes pois não? O gajo tem o dinheiro todo em CDSs, caralho”. “Foda-se, não acredito. Essa é demais”. “Tem o dinheiro todo em CDSs, o dele, o da mãezinha, o dos primos todos e mais o que pediu emprestado”. “Esse gajo não existe…”. “Tu é que não existes! Quando vires o bem bom a cair até te cagas de inveja. E é tudo legal. Toma nota, é tudo legal. Isto é que é investimento.”

“Agora compreendo. Agora tudo faz sentido. Por isso o gajo queria o aeroporto o TGV o mundial e o mais que viesse. Por isso o gajo se está a cagar”. “O gajo não se está a cagar. Ainda não percebeste? O gajo quer que isto rebente”. “Quem? O sousa?”. “Sim, quem havia de ser? Foda-se, o gajo é um génio. Não é ele, é a mãezinha. Eu já comprei um monte de CDSs. E tu devias fazer o mesmo, quanto antes.” “Eu? Vai pró caralho. Pôr o meu dinheiro nessas merdas? Pensas que sou maluco?”.

“Maluco és tu se não aproveitares. Aproveita também que conselhos destes não te dão todos os dias. Se não aproveitares vais passar o resto da vida agarrado à mão esquerda”. “És maluco.” “Tu é que és parvo. É dinheiro em caixa. Dez por cento ao dia. Depois desta passo o resto da vida sem fazer nada e rodeado de gajas boas. Já me estou a ver. Eh!eh!”

Jerusalem

-Uma cidade de gente doida!
-Pois é.
-Estão sempre a querer matar-se uns aos outros.
-E os nossos hillbillys não percebem que estão a ser manipulados.
-Mas eu disse-lhes: Se querem fazer mais colonatos, a nova lei da saúde tem de passar.
-E o gajo?
-Retorquiu: “O capital que temos nas vossas seguradoras tem que ser remunerado”
-WTF???
-Exactamente. Mas o Congresso não chumba a lei.
-Vamos ter problemas.
-Já estamos com problemas.
-E agora? Quem ataca o Irão?
-Vão ter de ser eles. É para isso que lhes pagamos e os armamos

a consulta

Mais um para o confessionário. Entrou no táxi e despejou o saco. A mulher tinha ido fazer uma limpeza das trombas. Lavar as trombas nunca fez mal a ninguém. A gaja queria parir, à força toda. E às tantas queria obrigá-lo a ir ao ginecologista. Ainda lhe disse: “Isso não é aí, pá. Isso é no caralhogista”. Mas o gajo não quis saber. Queria era contar a história dele.

E foi à consulta. E a médica contava os espermatozóides: “Um, punha o dedo, dois, punha-lhe o dedo em cima, três…”. “Oh amiga, o que é isso? Está a matar os espermatozóides?”. De dez em dez, a gaja lambia os dedos.

a proibição

Desta vez não percebi nada. Dei boleia a um suíço. Estava muito satisfeito com os resultados. Le referende, mais oui, le referende. Tinham proibido os minetes. São um povo estranho, os suíços.

Têm contra eles a UE. Têm contra eles a ONU. Mesmo que todo o mundo esteja contra eles, não vão recuar, dizia o gajo. Detestam minetes, os suíços. Ainda lhe perguntei se as suíças tinham votado, mas acho que não percebeu.

Para mim é bom. É bom para o negócio. Se os homens não lhes fazem minetes vão ter que fazê-los umas às outras ou que viajar muito. Tenho fé na segunda. Quanto mais suíças viajarem mais clientes tenho no meu táxi. Isso é que me importa.

testemunha abonatória

Esta história contou-me um prof a quem dei boleia. Diz o gajo que recebeu uma carta para ir a tribunal. Não percebeu porque é que recebeu a carta mas lá foi com medo que o multassem por não ir.

Chegou lá e foi ouvido pelo juíz que começou assim a conversa:
“ – Aqui está este jovem que matou 2 pessoas e violou 3. Pretendemos conhecer mais sobre o carácter do jovem para melhor decidir que medidas a aplicar. Sabemos que foi seu aluno, por isso diga-me lá: Ele faltava às aulas? Portava-se bem nas aulas?”
” – Eh pá, não me lembro.”
“ – Não se lembra de ele ter tido qualquer comportamento menos próprio, portanto. Muito bem, então vamos dar a este jovem uma oportunidade…”
” – Oh amigo, eu queria dizer que não me lembro dele, acho que nunca o vi”
” – Cale-se, seu cara de caralho, já passou a sua vez de falar” – disse o juíz.

E pronto, veio-se embora um bocado chateado por ter sido usado para justificar a libertação de mais um criminoso. Vão para a escola aprender o quê? Vagabundos do caralho.

Gripe G

Na semana passada, levei um tipo ao hospital às 3 da manhã. Vinha a coxear antes de entrar no táxi.

“Então amigo, o que é que tem?”, perguntei-lhe.

“É uma unha encravada”, respondeu-me. “Já está encravada há uns dias, o dedo está roxo, o pé inchado e já me está a dar febre.”

Levei-o ao hospital e esperei que fosse tratado, porque àquela hora não há muitos táxis. Apareceu com máscara. Estranhei.

“Então o que aconteceu?” perguntei eu.

“Como tenho febre, a médica não teve dúvidas: tenho gripe A. Vou para casa 7 dias com paracetamol.”

Ontem fui buscá-lo a casa novamente às tantas da manhã para o levar ao hospital. Tinha a perna toda inchada e o pé já tinha caído de podre. A febre mantém-se e ele acredita que tem gripe A.

Eu acho que é gangrena.