O Professor Doutor

Era uma vez um Professor Doutor que dava aulas depois de mim, à mesma turma que eu. A minha sala estava sempre cheia e a sala do Professor Doutor estava sempre vazia. Os alunos saíam da minha sala e iam-se embora. Ficavam apenas três ou quatro, para a aula do Professor Doutor. Que eu me lembre, este foi um padrão com três ou quatro anos, ou talvez mais.

O Professor Doutor perguntou-me um dia, com algum azedume, porque é que eu tinha a sala sempre cheia e depois os alunos saíam e não voltavam para a aula dele. Não lhe soube responder.

O Professor Doutor foi indagar e apurou que eu não dava aulas com slides. Concluiu que eu não preparava as aulas. Concluiu mal. As minhas aulas estavam todas documentadas no sítio de Internet de apoio à cadeira, e eu dava as aulas de cor, porque sabia tudo, tinha tudo na cabeça e podia estruturar o discurso em função das necessidades dos alunos e não em função de um guião predefinido, bolorento e desatualizado, escrito há dez anos atrás, e projetado na parede.

Para além disto, eu já escrevi 5 livros técnicos, que já tiveram diversas edições – o mais editado vai na nona edição – e já venderam, no total, mais de 50.000 cópias. Os meus livros são aconselhados por vários professores do curso e da escola, em todo o país e, fora do país, em todos os países lusófonos. Uns anos antes destes episódios, o Professor Doutor veio falar comigo para que eu intercedesse junto do meu editor, para ele poder editar um livro também. Ao invés, dei-lhe o contacto do editor e disse-lhe para falar diretamente com ele. Tiveram uma reunião e o meu editor recusou editar-lhe o livro.

O Professor Doutor decidiu então substituir-me, nas aulas teóricas, por um amigo dele, para não ver mais a minha cara. Ao fim de três semanas, o amigo dele gritou comigo por um motivo totalmente absurdo. Estranhei. Seria um tresloucado, um tipo que não controla os impulsos ou as emoções? Ou teria sido instigado a agir daquela forma, pelo Professor Doutor?

No ano seguinte, o Professor Doutor voltou a substituir-me noutras cadeiras teóricas pelo amigo, tendo eu ficado novamente com as práticas. E o comportamento destrambelhado voltou a repetir-se. Eu estou inclinado para que o amigo do Professor Doutor tenha sido instruído em provocar-me, mas eu não reagi.

Este ano, o Professor Doutor voltou a substituir-me noutras cadeiras e, no fim do ano despediu-me. O Professor Doutor não tem cara para levar uma chapada, caso contrário seria isso que eu faria.

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